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E se um trotskista fosse parte dos debates presidenciais?

Nathaniel Flakin

E se um trotskista fosse parte dos debates presidenciais?

Nathaniel Flakin

O debate entre os candidatos do partido democrata à presidência dos EUA na última terça feira foi banal. O debate da última sexta feira na Argentina, por outro lado, foi completamente diferente, graças ao candidato trotskista a presidente, Nicolás del Caño. Em seu tempo no ar, del Caño chamou o presidente argentino de “lambe-botas de Trump” e denunciou o papel do FMI no Equador. Apresentamos aqui os destaques.

Na última terça feira (15), os candidatos presidenciais do partido Democrata dos Estados Unidos participaram de um debate em Columbus, Ohio. Embora 12 candidatos disputassem atenção, o debate foi, em grande medida, anticlimático. Os candidatos, desde o centrista Joe Biden até o “socialista democrático” Bernie Sanders, concordaram em muitos pontos. Todos falavam em diminuir a desigualdades de renda por meio de diferentes impostos. Nada surpreendentemente, não se falou em expropriar fortunas.

Em matéria de política externa, todos denunciaram a retirada, por Trump, de tropas americanas da Síria, focando suas críticas em como o atual presidente americano estava tornando a situação mais difícil para o domínio global do imperialismo americano. Mesmo Sanders disse que as decisões erráticas de Trump tornavam “mais difícil de fazer nossa política externa, nossa política militar”.

Dois dias antes, no lado oposto do continente americano, outro debate tomava lugar. Seis candidatos à presidência da Argentina se encontraram na universidade da cidade de Santa Fé. Mauricio Macri, direitista e atual presidente, recebeu apenas 32% dos votos nas primárias presidenciais em agosto. Seu maior rival é Alberto Fernandes, da Frente de Todos, de centro-esquerda, que recebeu quase 48% dos votos. Mas os dois políticos burgueses não receberam toda a atenção da noite.

O candidato da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade (FIT-Unidad), Nicolás del Caño, de 39 anos, produziu alguns dos pontos altos da noite. Aqui estão quatro deles.

Venezuela

Macri, em sua intervenção, explicou como seu governo apoiou a tentativa de golpe na Venezuela liderada por Donald Trump e John Bolton, seu então assessor de segurnaça nacional, dizendo: “Nós reconhecemos o presidente [Juan] Guaido e condenamos as violações de direitos humanos na Venezuela.” Del Caño respondeu:

“A posição da Frente de Esquerda é muito clara. Nunca apoiamos o autoritarismo do governo Maduro ou suas políticas. Mas Mauricio Macri é um lambe botas, que apóia a intervenção estrangeira dos Estados Unidos. Ele é o lambe botas de Trump. Mas não só ele, Sérgio Massas, que agora está na Frente de Todos, também acolheu a intervenção estrangeira. Para nós, são os trabalhadores da Venezuela que precisam resolver esta crise a seu favor.”

Infelizmente, esse tipo de postura anti imperialista clara fez falta à campanha de Bernie Sanders, por exemplo, que legitimizou as tentativas americanas de mudança de regime na Venezuela.

Equador

Por doze dias, trabalhadores e camponeses tomaram as ruas do Equador para lutar contra os planos de austeridade impostos pelo governo e o FMI. Del Caño usou seu tempo para pedir um minuto de silêncio para aqueles que perderam suas vidas na luta.

“Quero usar esse tempo e quero que o relógio continue rodando, para prestar homenagem aos trabalhadores e camponeses indígenas do Equador que morreram como resultado da repressão do FMI. Quero que meu tempo passe em silêncio.”

Após do debate, políticos da centro esquerda desdenharam do momento de silêncio. Isso mostra exatamente o quão próximos são do governo que aplica os ajustes do FMI contra os trabalhadores do Equador, e como não se vêem distantes de fazer o mesmo, apesar de seus discursos de campanha.

O FMI

Del Caño focou no cancelamento da dívida externa argentina e a luta contra o FMI. Em contraste, nenhum candidato entre os democratas dos EUA coloca-se contra o saque imperialista feito através da dívida pública. Não consideram que a miséria à qual o FMI sujeita os povos dos países mais pobres do mundo seja um problema.

O direito ao aborto

Del Caño começou sua intervenção falando sobre o direito ao aborto:

“Antes de tudo, quero enviar saudações ao Encontro Nacional de Mulheres e Dissidências [de gênero] que está ocorrendo na cidade de La Plata. E aos milhões de mulheres que saíram às ruas para gritar #NiUnaMenos e que foram ouvidas em nosso país e em todo o mundo.”

Ele lembrou a todos que no ano passado, senadores da colisão de Macri, junto a parlamentares da Frente de Todos e Alberto Fernandez, derrubaram o projeto de lei que legalizaria o aborto na Argentina. Ele tornou a hipocrisia deles bem clara:

“Eles não são pró-vida. São anti direitos. Não são pró-vida. São pró abortos clandestinos!”

Governadores de ambas as coalizões, nas províncias de Tucumán e Jujuy, forçaram meninas tão jovens quanto 11 anos, vítimas de abusos sexuais, a darem à luz contra sua vontade. Enquanto alguns ativistas pró-escolha apóiam Fernández e Kirchner, a Frente de Esquerda é a única coalizão com 100% de candidatos pró-escolha. Todas os outros priorizam o dogma da Igreja Católica contra os direitos das mulheres.

Del Caño terminou seu discurso levantando o punho com a bandana verde que simboliza o movimento pelos direitos ao aborto: "Estou convencido de que as mulheres retornarão às ruas, e [o direito ao aborto] será lei".

Com um candidato socialista e revolucionário nos debates, não estamos limitados a discutir se queremos ou não impostos ligeiramente mais altos para bilionários - podemos falar sobre a luta por um governo de trabalhadores, que exproprie todos os capitalistas e grandes proprietários de terra.

Até agora, a esquerda socialista nos Estados Unidos em grande parte apoia candidatos social democratas dentro de partidos burgueses. Mas o exemplo da Argentina mostras possibilidades que se abrem se a esquerda se unifica ao redor de um programa de independência de classe e luta por pautas anticapitalistas. A FIT-U acaba de promover um ato massivo, de mais de 25 mil pessoas em Buenos Aires, e pode chegar a receber um milhão de votos nas eleições de novembro.

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