Sociedade

UMA ALTERNATIVA PARA A ESCLEROSE MÚLTIPLA

É possível questionar a aliança entre a medicina oficial e a indústria farmacêutica

Jornalista, Cunha sofre, ou melhor, sofria com os efeitos da Esclerose Múltipla, doença autoimune. Descontente com os efeitos dos remédios que tomava, um pouco por acaso começou um tratamento diferente.

Gilson Dantas

Brasília

Daniel Alfonso

São Paulo

domingo 3 de maio de 2015| Edição do dia

A saúde é essencial à qualidade de vida. Em uma sociedade dividida em classes sociais, uma afirmação tão simples como essa esconde uma série de interesses antagônicos e irreconciliáveis. A qualidade de vida do trabalhador não interessa à burguesia. A busca por uma vida realmente saudável interferiria com as possibilidades de acumulação de capital. E é o Estado, à serviço dos interesses da burguesia, que provê e facilita uma série de medidas, naturalizadas em nossa sociedade, que separam o trabalhador do controle de sua própria saúde. Nesse filão se encontra a indústria farmacêutica e a enorme maioria da corporação médica. Há uma série de estudos que afirmam que não a medicina corrente é iatrogênica. Isso significa que ao tratar uma doença, gera outra ou outras. Isso porque o eixo da medicina oficial não está na cura da doença e sim no tratamento dos sintomas. Para ir fundo nas causas da doença e desconforto do paciente seria necessário um olhar clínico, detalhado, individual, de acordo com o histórico do paciente e sua relação com o ambiente em que vive e trabalha. Alguém já ficou mais de 20 minutos em uma consulta médica? Mais de uma vez? Algum médico lhe perguntou onde, em quais condições e por quanto tempo trabalha? Essas são somente algumas das inúmeras perguntas que uma consulta clínica de qualidade deveria realizar.

O Esquerda Diário teve a felicidade de entrevistar Daniel Cunha, autor do artigo de capa da edição de abril da revista SuperInteressante. Jornalista, Cunha sofre, ou melhor, sofria com os efeitos da Esclerose Múltipla, doença autoimune. Descontente com os efeitos dos remédios que tomava, um pouco por acaso começou um tratamento diferente. Um médico lhe disse que ao tomar vitamina D, de maneira concentrada, seria possível diminuir drasticamente os sintomas e abolir os remédios convencionais (e seus desagradáveis efeitos colaterais). A relação com a doença, o tratamento convencional e o espantoso efeito de um tratamento não-invasivo tiveram profundo efeito em sua qualidade de vida. Cunha, com muita gentileza e paciência, ofereceu aos leitores do esquerdadiário uma bela entrevista. Um testemunho de quem foi além do tratamento convencional e tomou em suas mãos as possibilidades de melhora. Para aqueles que queiram se aprofundar mais no tema da vitamina D, recomendamos enfaticamente o documentário feito por Cunha e disponível abaixo.

ED: Você começa o artigo contando um pouco da sua experiência pessoal com a esclerose múltipla. Você nos diz que os quase 50 mil casos de esclerose múltipla no Brasil poderiam ser beneficiados com a legitimação do uso da vitamina D pela medicina oficial. Seu caso é bem ilustrativo: os sintomas foram repentinos e fortes, e os médicos logo iniciaram tratamento com interferons, que são, usando suas palavras “proteínas de defesa produzidas pelo próprio corpo, que acabavam por suprir meu [seu] sistema imunológico”. Mas a vitamina D é que foi a grande novidade. O que te levou a questionar o tratamento convencional que você estava realizando? Como foram os primeiros meses com o tratamento com a vitamina D e como você leva sua vida hoje?

A esclerose múltipla se manifesta na forma de surtos ou crises, em que, de uma hora para outra, uma ou mais funções neurológicas são afetadas. Quando eu iniciei o meu tratamento, já estava sem sintoma nenhum da esclerose múltipla. Havia tido um surto forte no final de 2008 em que uma série de funções neurológicas foram comprometidas, fui internado para uma aplicação de cortisona, que é o procedimento padrão em surtos de EM, e cerca de um mês depois, tomando doses orais de corticoides, recuperei todas essas funções.

Depois de diagnosticado, fui orientado pelo médico a iniciar o tratamento convencional, que foi sofrido. A cada aplicação eu tinha febre forte, dor no corpo e ficava mal por bastante tempo, só melhorava dois dias depois. Eu passava a semana contando os dias e esperando o momento em que tomaria o remédio e ficaria mal de novo. Comecei a pensar que minha vida seria aquele sofrimento dali em diante e fiquei bem deprimido. Cerca de seis meses após o início daquele tratamento, minha mãe descobriu o neurologista Cícero Galli Coimbra em uma entrevista pela internet e eu fui apresentado a esse tratamento com altas doses de vitamina D. O médico deixou ao meu critério a escolha de seguir com os interferons ou abandoná-los, já que a vitamina D faria muito mais efeito e mais rapidamente. Iniciei o tratamento com a vitamina D e, em poucos meses, abandonei as injeções. Como eu já não tinha sintomas da EM, a principal diferença entre os tratamentos foi o alívio de ter parado com as injeções e as perspectivas de futuro que surgiram de uma maneira bem diferente das que eu vinha enxergando até então.

Eu fiquei muito impressionado com tudo aquilo e fui atrás de outros pacientes que estivessem fazendo esse tratamento. Não conseguia entender como eu tinha sido submetido a um tratamento tão agressivo se havia uma outra solução tão simples e comecei a investigar e tentar entender por que isso acontecia. Acabei conhecendo histórias incríveis e comecei esse trabalho de divulgação do tratamento, que ainda era muito pouco divulgado em 2010, quando eu comecei com ele. Fiz um documentário com a ajuda de amigos e pacientes, que está no YouTube, e aos poucos fomos construindo uma rede que hoje é formada por mais de 10 mil pessoas que se beneficiam diretamente ou são entusiastas dessa terapia em todo o Brasil.

Desde que comecei a me tratar com a vitamina D, não tive mais surtos nem qualquer outra manifestação da doença, e vivo uma vida absolutamente normal, a não ser por algumas restrições alimentares que fazem parte do protocolo do tratamento. Não é a regra, tem pessoas que melhoram mais, outras menos. As melhores perspectivas são pra casos como o meu, em que o tratamento é iniciado perto do diagnóstico e o paciente ainda não tem lesões antigas. Mas a maioria melhora, e isso é importante, porque os tratamentos convencionais não têm essa capacidade, eles só podem reduzir a progressão da doença.

ED: Um dos aspectos mais interessantes do artigo, na nossa opinião, é sua defesa da importância da relação dos seres humanos com o sol. Você menciona uma série de doenças que surgiram com a Revolução Industrial, ao longo dos séculos XVIII e XIX, entre as quais o raquitismo. Isso teria acontecido justamente pela falta de absorção de sol, pelas jornadas de trabalho extensas. Ainda hoje, os números que você apresenta em relação a ausência de vitamina D são impressionantes. O que eles dizem sobre o mundo em que vivemos?

Acho que traduzem o óbvio, aquilo que todos que vivem em uma cidade grande como São Paulo já sabem, que é o quanto estamos desconectados da natureza. Acho que a questão do sol é apenas mais um dos aspectos desse descolamento, que passa pela forma como nos alimentamos, produzimos energia, cuidamos da água, das florestas, dos animais e, em última instância, de nós mesmos. Mas falando especificamente do sol, deixamos que nosso modo de vida nos afastasse completamente dele. Tem gente que trabalha de terno no verão. Acho que é um sintoma claro de como deixamos de nos relacionar com a vida de uma forma mais visceral e ficamos presos nessas bolhas que limitam nossa compreensão da realidade. Os números no mundo todo mostram isso. Essa pesquisa feita pela USP em São Paulo mostra que 77% da população apresenta deficiência de vitamina D no inverno e 37% no verão, e isso considerando níveis de suficiência que são muito contestados atualmente (mais detalhes na última resposta) . Qualquer médico que costuma pedir o exame de vitamina D vai te dizer que a maioria das pessoas está com essa carência.

O sol é nossa principal fonte de vitamina D, que é produzida pela pele após o contato com os raios UVB. A maioria das pessoas pode produzir cerca de 10.000 UI (Unidades Internacionais) dessa substância com cerca de 10 a 15 minutos de exposição solar em partes maiores do corpo, como tórax, costas, braços e pernas. Muitos de nós vivem e trabalham em ambientes confinados e passam praticamente o dia todo sem nem colocar a cara no sol. E quem se expõe mais, porque trabalha na rua ou fica mais em ambientes externos, também pode não estar produzindo nada de vitamina D, seja por conta das vestimentas ou do estímulo exagerado ao uso de protetor solar, que bloqueia 99% da produção de vitamina D. Então para produzir vitamina D, é importante se expor ao sol por esses 10 a 15 minutos sem protetor, e depois passar normalmente.

O que já sabemos é que, como eu coloco na matéria, a vitamina D é na verdade um pré-hormônio, responsável por modular mais de 2.500 funções celulares, muito mais importante do que acreditávamos que era há algumas décadas atrás. Sua carência no organismo vem sendo associada com doenças respiratórias, cardiovasculares, autoimunes, câncer, entre várias outras. A quantidade de estudos o grau de interesse dos pesquisadores sobre os seus efeitos crescem a cada dia e certamente vamos ouvir falar cada vez mais sobre isso. E estamos falando só de vitamina D porque é o que conhecemos hoje, mas é bem razoável imaginar que a exposição solar tenha muitos outros benefícios para nossa saúde que ainda não conhecemos ou não entendemos bem.

ED: Tratar esclerose múltipla de qualquer maneira que não a convencional, acaba gerando uma série de polêmicas. A esta altura você já está acostumado...Mas o tratamento convencional, com os interferons, por exemplo, é baseado em uma relação complexa de interesses mútuos entre boa parte de médicos e grandes conglomerados farmacêuticos, que lucram muito com a venda de remédios. Com base na sua experiência, como é essa relação no caso do tratamento com a esclerose múltipla?

Assim que eu fui diagnosticado, iniciei o tratamento com injeções semanais de interferon por indicação de vários médicos diferentes com quem eu passei, no início de 2009. Segundo eles, aquele remédio, que eu pegaria gratuitamente na farmácia de alto custo do SUS, iria reduzir a velocidade de progressão da doença em até 30% e poderia me render alguns efeitos colaterais indesejáveis. Ainda no consultório, o neurologista já me inscreveu num programa de assistência do laboratório que produzia o medicamento, evidenciando que já havia uma relação esquisita entre médicos e laboratórios (será que esse médico se abriria em algum momento para outro tipo tratamento que fosse melhor para mim?). De acordo com a nota fiscal, na época, aquele remédio custava perto de R$ 6 mil mensais. Para se ter uma ideia, a vitamina D me custa menos de R$ 30 reais por mês. Mas o pior de tudo é a ineficiência e a agressividade desses remédios. Reduzir a progressão em 30%? Isso não é nada, e ainda vem com o custo de inúmeros efeitos colaterais. É só ver a bula de qualquer um desses remédios, a lista de efeitos indesejados de todos eles é enorme e assustadora, vão desde maior possibilidade de quaisquer tipos de infecções - por suprimirem o sistema imunológico - até aumento da chance de cometer suicídio, por exemplo.

E a relação entre médicos e laboratórios é muito complicada. Existe um "mercado da esclerose múltipla" e algumas indústrias bem grandes se sustentam basicamente com a venda dos remédios para essas doença, que são caríssimos. Os lucros estão na casa dos bilhões. O remédio que eu tomava custava R$ 6 mil por mês, mas hoje tem outros no mercado que podem custar 10, 15 mil. É claro que eles se incomodam com cada cliente perdido. Você entra nos sites de várias dessas empresas e vê lá como elas estão preocupadas em agradar seus acionistas, informando como as vendas dos remédios para EM vão bem (exemplo). Essa é a motivação. Então realmente não há interesse em curar, e muito menos em legitimar qualquer terapia que fuja ao controle dessas empresas. Dá pra imaginar que um tratamento à base de vitamina D, que não é patenteável, vá sofrer uma resistência terrível por parte dessas empresas, que também tem relações bem estabelecidas com a comunidade médica.

Aqui no Brasil, médicos que são referência em esclerose múltipla são consultores e recebem incentivo dos laboratórios que produzem os medicamentos. E isso é público, está no rodapé de alguns artigos: "Fulano recebe patrocínio e oferece serviços de consultoria para Biogen Idec, Merck, Bayer e Teva", que são as empresas que dominam o mercado da esclerose múltipla no mundo. E são os mesmos médicos que aparecem na mídia atacando tratamentos como esse da vitamina D. Dá pra levar a sério? Eu sinceramente não entendo como isso é possível, mas acontece. Alguns dos médicos inclusive são referências dentro da Academia Brasileira de Neurologia, entidade que critica bastante o tratamento. Então eu não sei exatamente a que interesses servem algumas dessas instituições. Não acredito que sejam os meus e de meus colegas pacientes. Esse tratamento da vitamina D já chegou ao conhecimento deles, porque eles ouvem as histórias, são questionados pelos pacientes, mas tudo o que fazem é apenas atacar, criticar, ameaçar. Ninguém quer assumir a postura de se aproximar e investigar o que está acontecendo, estudar, estabelecer uma relação de parceria. Os pacientes estão melhorando de uma maneira que é absolutamente impossível com os medicamentos que eles apoiam, mas parece que isso não importa.

ED: Por fim, no começo do artigo você diz que o tratamento com a vitamina D, aqui no Brasil, se dá pela popularidade que ela ganhou entre os pacientes. Mesmo assim, é uma parcela ínfima da população. Como você enxerga a crescente visibilidade que esse tema vem ganhando ultimamente? É uma oportunidade para ir além do debate sobre a vitamina D?

Acho que são dois debates importantes, mas o mais crucial é aquele que diz respeito a todo mundo e não só aqueles que convivem com algum tipo de doença autoimune, que é o fato de a grande maioria da população apresentar deficiência de vitamina D. Algo muito importante aconteceu nos últimos meses e ainda não ressoou por aqui, mas precisa ser discutido urgentemente. O Institute of Medicine, que é órgão responsável pelas recomendações diárias recomendadas de nutrientes e vitaminas nos EUA (e referência para todo o mundo), diz que você precisa de 600 UI de vitamina D por dia. E já há algum tempo, muitos pesquisadores começaram a apontar incongruências em relação a isso. Como você precisa de apenas 600 UI por dia se com dez minutos de exposição solar você pode produzir 10.000 UI? É a natureza que está enganada? E esses pesquisadores vem demonstrando consistentemente como essa dosagem recomendada pelo IOM não tira ninguém da deficiência de vitamina D, não é sequer capaz de elevar um pouco a concentração de vitamina D no sangue. Acontece que dois artigos publicados recentemente na revista Nutrients demonstraram que o cálculo realizado pelo IOM para determinar a quantidade diária recomendada de vitamina D estava completamente errado, e que o correto seria realizar a reposição com pelo menos 7.000 UI. Ou seja, estamos errando a mão há bastante tempo. Médicos dão 600 UI utilizando o IOM como referência e não tiram ninguém da deficiência de vitamina D. Aí também dá pra entender melhor porque as pessoas precisam tomar mais sol.

Em relação ao tratamento para doenças autoimunes, também é crucial que o debate cresça e atinja outros patamares. Se falarmos só de EM, a farmácia de alto custo do SUS, que fornece vários medicamentos de várias empresas diferentes, gastou R$ 259 milhões só em 2014. Imagine a economia que isso não poderia gerar. São necessárias pesquisas pra sustentar o tratamento, mas é preciso também que a comunidade médica se interesse, se abra, ofereça suporte para isso, porque o tratamento funciona e as pessoas estão melhorando, os depoimentos na internet e nossas histórias pessoais não deixam dúvidas. Espero que essa visibilidade possa resultar em tornar esse tratamento acessível para mais pessoas, é isso que estamos buscando.

(Foto: Arquivo Creative Commons)




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