E o CRUSP diante da crise do Coronavírus?

terça-feira 17 de março| Edição do dia

Uma vez mais os governos, e também a reitoria, tentam despejar nas costas dos trabalhadores e dos estudantes pobres a conta das crises. Os trabalhadores da USP precisam ter o direito a não trabalhar diante do avanço do COVID-19, assim como os estudantes que moram no CRUSP e que necessitam de permanência estudantil precisam ter suas demandas atendidas e garantidas

Diante da pandemia do COVID-19 (Coronavírus), e das aulas suspensas na USP, vemos quem são os mais afetados com essa crise: os trabalhadores e os estudantes pobres. Os trabalhadores estão sendo obrigados a continuar trabalhando, e arriscando suas vidas e as de suas famílias, e os estudantes moradores do CRUSP, que não têm outra escolha a não ser ficar na universidade nesse período, sofrem com a precarização imposta.

A reitoria da USP lançou um comunicado sobre a liberação dos trabalhadores efetivos que se encontrarem nos grupos de risco, apenas a partir do início da próxima semana, e com a necessidade de apresentar laudo do SESMT. Ou seja, a maioria dos trabalhadores efetivos, e os terceirizados, não foram liberados de suas funções, sendo obrigados a trabalhar e ficar expostos a doença, colocando em risco suas famílias. É um direito de todos trabalhadores serem dispensados de seus postos de trabalho nesse momento, sem nenhuma retaliação por parte das chefias, e nós estudantes podemos cumprir um importante papel de apoio aos trabalhadores por essa demanda mais do que essencial e urgente.

Diante do cenário, precisamos exigir que todos os estudantes tenham garantidos os itens básicos de higiene e prevenção contra o Coronavírus (garantia de abastecimento de água nos blocos, álcool gel, luvas e máscaras disponíveis), assim como se faz necessário que a reitoria garanta que todos os estudantes que necessitem tenham onde se alimentar, por meio de medidas que passam pela compra emergencial de fogões para as cozinhas do CRUSP, distribuição de cestas básicas e do estoque de alimentos existente nos bandejões, e a liberação de auxílio-alimentação para todos os estudantes que necessitarem.

Não podemos aceitar que a vida dos trabalhadores fique em risco, e nem a dos estudantes, que dependem da permanência estudantil. A Reitoria, no mínimo, deve garantir o acesso à testes para todos estudantes e trabalhadores que continuam no campus.

Desde o processo do golpe institucional no nosso país, e ainda mais após a eleição do Bolsonaro e do avanço da extrema direita, sentimos na pele, no dia a dia, todos os ataques que precarizam ainda mais as condições de vida dos trabalhadores e dos estudantes pobres, principalmente das mulheres, negros e LGBTs, com a Reforma Trabalhista, Reforma da Previdência, Carteira Verde e Amarela, congelamento do teto de gastos, que afeta as verbas que vão para saúde e educação, e a existência cada vez maior de postos de trabalho ultra precários.

Os trabalhadores, historicamente, sempre tiveram que lutar por melhores condições de vida e contra as condições mais absurdas de trabalho precário, conquistando direitos por meio de inúmeras lutas ao longo dos anos, mas ainda hoje vemos exemplos de profundas precarizações impostas. Em nosso país, para dar um exemplo, temos falta de saneamento básico, o que, dentre outras coisas, permite a morte de trabalhadores e seus familiares por doenças não como o Coronavírus, mas como a diarreia! E para destacar um exemplo mais próximo a nós, no bandejão da USP, uma das melhores universidades da América do sul, os trabalhadores são vítimas de doenças por conta do excesso de movimentos repetitivos, e os funcionários terceirizados do Bandejão Central não têm o direito de comer a comida que eles próprios ajudam a fazer.

Aqui na USP, todos nós sentimos o aprofundamento da precarização por meio dos Parâmetros de Sustentabilidade, aprovados em 2017 pelo Conselho Universitário da USP, que congela as verbas da universidade por 5 anos, e impede a contratação de funcionários e professores, e fez com que muitas bolsas de permanência fossem cortadas.

Sabemos que o CRUSP já não dá conta de toda a demanda, e nem os auxílios-financeiros são suficientes. Já os trabalhadores sentem em seus ombros, todos os dias, a sobrecarga de trabalho, sofrendo assédios das chefias, e sem o mínimo direito de serem dispensados de seus trabalhos diante dessa crise na área da saúde, não podendo contar nem com o Hospital Universitário, que por conta de toda a precarização, não tem capacidade de atendimento para toda comunidade universitária e população do entorno, algo que seria essencial nesse momento, em que as péssimas condições de saúde no Brasil aprofundarão ainda mais toda a crise gerada pela contaminação do Coronavírus.

Seria uma medida urgente garantir que todas as pessoas que apresentem sintomas suspeitos fossem atendidas no HU, realizassem o teste para ter o diagnóstico e tivessem liberação, remunerada no caso dos trabalhadores, de pelo menos 10 dias para repouso e evitar a contaminação de novas pessoas. Também a abertura dos leitos que estão fechados, e contratação emergencial de profissionais da saúde para garantir atendimento a todos que precisem, com estrutura para atendimento dos trabalhadores e estudantes que fazem parte dos grupos de risco.

Não podemos aceitar que os trabalhadores e os estudantes pobres sejam os mais afetados pelo Coronavírus e pela crise que vive o nosso país hoje.

A nossa luta é uma só.




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