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Duas teses de Marx diante da enchente

segunda-feira 13 de maio | Edição do dia

Vem crescendo cada vez mais os estudos sobre o viés ecológico no pensamento de Karl Marx. O livro de Bellamy Foster, A ecologia de Marx, foi sem dúvida uma obra marcante nesse sentido. Mais recentemente, o filósofo japonês Kohei Saito tem influenciado enormemente o debate com seus livros e novas descobertas a partir do estudo das publicações da MEGA (obras completas de Marx e Engels). O que gostaria nessas linhas é apenas contribuir resgatar um texto clássico, ou para ser mais preciso, de suas teses do fundador do socialismo revolucionário, que podem ser preciosas nesse momento.

Estou me referindo a um texto amplamente conhecido, o prefácio de 1859, de Para a Crítica da Economia Política. Um texto com uma densidade enorme e uma capacidade de síntese peculiar, característica do nosso autor.

Antes de adentrar a primeira tese, vou ilustrá-la com o último grande vencedor do Oscar de Hollywood, o filme Oppenheimer. Sem adentrar nos comentários estéticos, é evidente que esse não foi o melhor filme produzido no ano, mas teve seus motivos políticos para ser eleito como tal. O exemplo do filme nos permite chamar a atenção, tendo em vista o ângulo do que queremos desenvolver, para o seguinte aspecto: uma das grandes promessas científicas da primeira metade do século XX era o desenvolvimento da energia nuclear, e não era para menos.

Diante da ameaça da catástrofe climática que se anuncia com a utilização de energia com combustíveis fósseis, da para imaginar o entusiasmo que se gerava com a possibilidade de, a partir de processos de fissão ou fusão entre núcleos atômicos, se gerar energia limpa e com potencial muito menos limitado do que tudo que temos hoje.

Aqui entra a primeira tese de Marx, que tendo esse contexto do tema do filme do Oppenheimer nos ajudará para refletir a conclusão. Ele argumenta o seguinte:

Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas estas relações se transformam em seus grilhões (Marx, Prefácio de 1859)

A partir do exemplo de Oppenheimer fica nítido enxergar a riqueza da tese de Marx quando analisamos a evolução do capitalismo no século XX. A questão da energia nuclear é apenas uma expressão, ainda que bastante significativa, do que Marx quer dizer com o choque entre as forças produtivas e as relações de produção. Uma das maiores descobertas científicas da física contemporânea, a física quântica, a possibilidade de criar uma energia abundante e mais limpa se tornou, nas mãos do capital financeiro e das burguesias nacionais, o Projeto Manhattan, com as consequências de produzir o artifício de maior destruição em massa já visto, a bomba atômica, provocando imediatamente algo em torno de 70 a 100 mil mortes com sua utilização.

É uma expressão gritante da contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. Da produção científica com enorme potencial criativo se tornar uma das mais perversas e desumanas armas utilizadas em uma guerra.

E isso também podemos observar no caso das catástrofes climáticas. A enchente no Rio Grande do Sul não deixa de ser uma expressão notável dessa mesma contradição do capitalismo contemporâneo. Num mundo em que empresários voam ao espaço, detém ilhas privadas, superyate com heliponto, mansões extravagantes, nesse mundo, existe o Brasil e, em Porto Alegre (e na região metropolitana), uma enchente, por falta de planificação, investimento em comportas, nas casas de bombas de água e mecanismos de escoamento, entre outras medidas, gerou uma situação de nada menos que 81 mil pessoas desabrigadas e 538 mil desalojadas de alguma forma. Dados que seguem aumentando, uma catástrofe.

Eventos como esse demonstram uma e outra vez como toda a lógica de nossa produção vai na contramão do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas. Ao contrário, gera riquezas necessariamente baseadas na desigualdade social extrema e resultam em violências generalizadas contra populações mais pobres, porque embora a catástrofe foi gigantesca e afetou inclusive setores amplos da população do Rio Grande do Sul, obviamente os fatores de classe pesarão decisivamente em como lidar com os efeitos desses eventos.

Aqui vale desenvolver a segunda tese de Marx, que gostaríamos de remarcar nessas linhas, uma vez que é de uma riqueza igualmente grande para pensar os nossos desafios atuais, e particularmente os advindos de eventos ambientais:

Uma formação social nunca perece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas para as quais ela é suficientemente desenvolvida, e novas relações de produção mais adiantadas jamais tomarão o lugar, antes que suas condições materiais de existência tenham sido geradas no seio mesmo da velha sociedade. É por isso que a humanidade só se propõe as tarefas que pode resolver, pois, se se considera mais atentamente, se chegará à conclusão de que a própria tarefa só aparece onde as condições materiais de sua solução já existem, ou, pelo menos, são captadas no processo de seu devir (Marx, idem)

A força dessa passagem se expressa de distintas formas, mas o que gostaria de remarcar é que a dinâmica entre as forças produtivas e relações de produção no capitalismo contemporâneo apresentam o seu choque, em cada âmbito, e também no ambiental, de uma forma flagrante, escancarada, incontornável. Mas, ao mesmo tempo, e cada vez mais, com soluções mais evidentes.

Para dar apenas um exemplo. O gasto do Brasil com os juros da nossa dívida pública, uma espécie de bolsa banqueiro que nós pagamos religiosamente (isso mesmo, uma parte gigantesca de toda a riqueza que produzimos anualmente vai para o capital financeiro estrangeiro, uma dívida que nem eu nem você leitor detém a menor ideia do que se refere, e por isso poderíamos chamar de espoliação colonial moderna). Voltando, os gastos com os juros da dívida pública foram da ordem de mais de 600 bilhões. Segundo o painel de Recursos para gestão de riscos e desastres do TCU a União investiu na prevenção de catástrofe no Rio Grande do Sul um orçamento de 3,1 milhões (!). Se olharmos o orçamento estadual e municipal, são irrisórios. Entende que se dos 600 bilhões (não milhões, bilhões), se tivéssemos 1 bilhão para prevenção de catástrofe no Brasil, poderíamos ter um sistema muito mais complexo e desenvolvido de comportas, escoamento, bombas etc. no RS, e não estaríamos debatendo esse tema agora?

Para concluir, ao problema do “fim do mundo” (vale ler a coluna de Danilo Paris sobre o tema), com as fake news conspiracionistas da extrema-direita e da miséria do possível no governo da frente ampla que tem como tônica o arcabouço fiscal, nos resta enfatizar a citação lida. Diante da catástrofe ambiental cada vez mais se coloca a necessidade da superação do capitalismo por uma revolução social.

E se se considera mais atentamente, se chegará à conclusão de que a tarefa de “evitar o fim do mundo” só aparece onde as condições materiais de sua solução já existem, ou, pelo menos, são captadas no processo de seu devir.

É por isso que a humanidade só se propõe as tarefas que pode resolver.




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