Internacional

Luta de classes

Dos trabalhadores da saúde argentinos aos portuários chilenos: as lições para o Brasil

Auto-organização radical das assembleias de base inter-hospitalares dos trabalhadores da saúde da Argentina e a greve dos portuários chilenos: lições de luta, instrumentos de combate.

Rosa Vertov

Estudante de Relações Internacionais na UnB

quinta-feira 29 de abril| Edição do dia

A luta de classes recente no continente americano nos oferece importantes lições estratégicas. A auto-organização radical das assembleias de base inter-hospitalares dos trabalhadores da saúde de Neuquén, Argentina, e os portuários chilenos em greve que impuseram o adiantamento do pagamento dos saques de fundo de aposentadoria - ambas são fortes experiências da força da classe operária internacional. O Brasil não é uma ilha e o capitalismo já demonstrou com a pandemia que não pode oferecer nada além de miséria e opressão aos negros, LGBTs, mulheres e às nações indígenas. As lições da luta devem, portanto, ser instrumentos de combate para o presente aqui também.

Auto-organização e hegemonia operária: o exemplo dos trabalhadores da saúde em Neuquén, Argentina

Durante mais de 2 meses de greve, os trabalhadores da saúde da província de Neuquén na Argentina conquistaram um aumento salarial para todos os trabalhadores estatais da província. Essa foi uma dura luta e que só foi vitoriosa pela enorme combatividade e estratégia desses trabalhadores que enfrentam duras condições de trabalho e vida diante da catastrófica gestão sanitária de Alberto Fernandez, que privilegia os lucros dos patrões e mantêm as patentes das vacinas intactas enquanto o povo morre.

Desde o início, a greve não contava com o apoio de nenhuma direção sindical. Mas para conquistar um aumento salarial digno diante da imensa mazela imposta a esses trabalhadores em tempos de pandemia, eles organizaram-se em assembleias de base por cada hospital, além de construírem uma coordenação inter-hospitalar. A auto-organização, a tomada da greve nas mãos dos trabalhadores foi essencial para ir além da burocracia sindical e combater os cortes do governo provincial.

Mas não foi só isso. Os trabalhadores fizeram inúmeras marchas junto da comunidade local, aliaram-se às comunidades Mapuche e ao povo das cidades petrolíferas locais, defendendo além de suas demandas, a de todos os trabalhadores da região e do povo oprimido. Foi junto dessa força, que eles radicalizaram o movimento, bloqueando as estradas. Mas não foram quaisquer rotas. Fizeram isso com aquela que se dirigia para a jazida de hidrocarbonetos de Vaca Muerta, os campos de fracking mais importantes do país e a principal fonte de receita da província. Com quase 30 piquetes em toda a província de Neuquén, eles paralisaram a produção de gás e petróleo em Vaca Muerta por 22 dias, denunciando como os capitalistas poluem o meio-ambiente, condenam os povos Mapuche à pobreza e ainda diminuem o salário do conjunto da classe.

Trata-se aqui de um exemplo cabal de hegemonia operária, da classe trabalhadora, desde suas posições estratégicas, dando exemplo na luta e acaudilhando as demandas dos oprimidos e trazendo atrás de si uma força imparável. A coordenação estratégica entre auto-organização e hegemonia operária foi o que possibilitou aos trabalhadores da saúde conquistar essa vitória.

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O PTS, partido irmão do nosso MRT, membro integrante da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores Unidade (FIT-U), atuou desde os primeiros dias colocando o Izquierda Diário como porta-voz de todos os lutadores, para fortalecer e impulsionar cada um desses setores, confiando apenas na unidade revolucionária dos trabalhadores e dos oprimidos como uma saída contra cada mazela que o capitalismo nos impõe.

Saiba mais: Neuquén: Enorme triunfo dos profissionais de saúde argentinos após semanas de luta e bloqueios de estradas

Greve de portuários chilenos: os caminhos para derrotar Piñera e o entulho do regime pinochetista

Na última quinta, o Senado aprovou uma reforma constitucional que permite o terceiro saque antecipado de pensões de aposentadoria - visto que no Chile, a previdência tem com base a capitalização individual, uma herança direta da ditadura sanguinária de Pinochet e que Paulo Guedes, aqui no Brasil, tanto gosta. Dessa forma, a medida aprovada implica em um saque de 10% das Administradoras de Fundos de Pensão (AFP).

O governo do reacionário Sebastián Piñera busca evitar que a medida do saque antecipado seja aplicada, assim como evitar que a “greve sanitária geral”, convocada para 30 de abril pela Central Única de Trabalhadores do Chile, se alastre para outras categorias e se torne efetivamente uma força capaz de fazer ruir o regime.

Acontece que não foram as manobras e “ameaças parlamentares” da ex-Concertación, da Frente Ampla (coalizão política que conta com o Partido Socialista e outras organizações reformistas) ou do Partido Comunista que fizeram o regime recuar. Foi a força da paralisação dos estivadores, que bloqueou a cadeia de exportação da economia nacional, e que junto com o apelo a uma greve geral e a possibilidade de estender a greve a outros setores produtivos em meio à crise sanitária e ao crescente descontentamento popular - todos esses fatores juntos foram o que acabaram por definir a relação de forças.

A greve dos portuários chilenos impôs uma dura derrota ao reacionário Piñera. Nas últimas jornadas (26, 27 de abril) eles paralisaram 5 turnos, em 17 portos em uma greve nacional que convocou mais de 8 mil trabalhadores de 25 terminais. Foi assim que se impôs o saque dos 10% das pensões aos estivadores.

Desde o PTR, partido irmão do MRT no Chile, defendemos assembleias e comitês em todos os locais de trabalho, para decidir desde a base como preparar efetivamente a convocação para uma Greve Geral e levar essa vitória à frente como exemplo: é pela luta de classes que venceremos! E mais: Piñera não vai sair por vontade própria. Será preciso derrubá-lo com a força dos trabalhadores, do povo e da juventude. Não se trata de esperar a boa vontade do regime e, realizar a eternamente adiada nova constituinte farsesca - como tanto querem a Frente Ampla e o PC. Trata-se de um meio de Piñera e o regime herdeiro de Pinochet desviarem a força das mobilizações que se alastram desde a rebelião de 2019 e tutelá-las.

Afinal, essa constituinte não é nem livre (ou seja, não se pode decidir sobre tudo), nem soberana (ou seja, os antigos poderes continuam a agir e tomar decisões em paralelo). Os tratados internacionais não podem ser mexidos; as antigas instituições do regime herdadas da ditadura militar continuarão a operar e funcionar com total normalidade - incluindo Sebastián Piñera; ela privilegia os partidos tradicionais; estabelece quórum de 2/3 para a tomada de decisões que favorece uma minoria que terá o poder de veto de fato; fora que mantém na prisão cerca de 600 presos políticos da revolta para punir os que saíram à luta.

É preciso impor uma verdadeira Assembleia Constituinte Livre e Soberana para derrubar todo o legado da ditadura na perspectiva de um governo dos trabalhadores. A combatividade dos portuários é o caminho!

Leia mais: Os portuários chilenos derrotam Piñera: é possível ir por mais!

Foto: Unión Portuária de Chile

Luta de classes e seus exemplos para o Brasil

A luta da classe trabalhadora e dos oprimidos no Chile e na Argentina aponta para o sentido contrário do que fazem setores da esquerda socialista brasileira. O PSOL (com a infeliz participação de Fernanda Melchionna do MES e Taliria Petrone do Subverta), PSTU e UP se diluem no “superimpeachment”, ficando à reboque da política dos reformistas PT e PCdoB de aliança com setores golpistas do bonapartismo institucional, como Kim Kataguiri, Joice Hasselman e Alexandre Frota. A “frente ampla contra Bolsonaro” é, em uma tradução breve e clara, outro nome para esperar por Lula em 2022 enquanto Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas aplicam mais e mais ataques. Não é de se surpreender que alguns desses são os mesmos que tecem elogios ao pró-capitalista Alberto Fernandes, ou mesmo os stalinistas que louvam o legado de traição do PS e do PC chileno - que hoje tentam boicotar uma verdadeira greve geral no país.

Leia mais: Unidade com os trabalhadores e não com a direita: o exemplo da esquerda argentina para o Brasil

Enquanto isso, nada dizem sobre a absoluta trégua das centrais sindicais, como a CUT e a CTB, dirigidas pelo PT e PCdoB, que isolam os focos de resistência no país e as deixam à própria sorte como a greve das efetivas e terceirizadas da LG em São Paulo, a luta dos trabalhadores da CEDAE contra a privatização e das merendeiras no Rio de Janeiro, ou a luta das terceirizadas da rede municipal de Belo Horizonte. Também nenhuma palavra sobre as centrais estarem promovendo um 1º de Maio junto de FHC e Dória, inimigos declarados da nossa classe. Uma adaptação grotesca à burocracia sindical - como mostra a auto-organização de Neuquén, só a confiança na classe operária e a batalha para que ela tome a luta em suas mãos é que pode romper o cerco dos conciliadores e reformistas, procurando avançar a partir da lógica da frente única operária.

Leia mais: Por um 1º de Maio Classista e Independente, que unifique e coordene os focos de resistência pelo país!

O que vemos na esquerda brasileira se trata do abandono completo da independência de classe e o auge do ceticismo com a força da classe operária. O impeachment de Bolsonaro nada mais é do que implorar para Artur Lira colocar Mourão na presidência. É preciso batalhar para votar abaixo todo esse regime podre, revogar todas as reformas! Por isso que nós do MRT defendemos uma Assembleia Constituinte livre e soberana imposta pela luta, para mudar não apenas os jogadores, mas as regras do jogo.

O exemplo da auto-organização argentina e o despertar da juventude e dos trabalhadores chilenos é o caminho! À exemplo do Chile, batalhamos por uma Assembleia Constituinte que seja livre, ou seja, sem nenhuma interferência dos atuais poderes do regime; soberana, ou seja, coloque nas mãos dos trabalhadores e do povo pobre todo poder para decidir sobre todos os assuntos do país, na qual os revolucionários defenderiam, por exemplo: revogar todas as reformas ultraneoliberais, quebra das patentes das vacinas sem indenização aos capitalistas, nacionalização sob controle operário do sistema de saúde e um plano emergencial operário de combate à pandemia. Com uma Assembleia desse tipo, seria possível debater com amplos setores da sociedade a necessidade de se enfrentar contra os cães de guarda da propriedade privada - a polícia racista - se auto-organizar e se auto-defender em cada local de trabalho para levar ao limite a democracia burguesa e avançar para um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo!


Essa é um pouco da política que nós da Fração Trotskista Quarta Internacional, humildemente, viemos impulsionando em todos os 14 países que estamos, em todos os seus 7 distintos idiomas. É nesse sentido que faço o convite para o Primeiro de Maio Internacionalista da FT/QI, com a apresentação do Manifesto “O desastre capitalista e a luta por uma Internacional da Revolução Socialista”, às 18h30 pelo YouTube do Esquerda Diário.

Pela reconstrução da IV Internacional, o partido mundial da revolução socialista!




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