Cultura

MÚSICA

Do tropicalismo ao Fatal: Gal a Todo Vapor

1964. A burguesia brasileira, apoiada pelos setores reacionários da Igreja e da pequena burguesia e financiada pelos EUA derrubou o presidente eleito democraticamente João Goulart e instaurou uma Ditadura Burguesa-Militar no Brasil (1964-1985). Em 1967 o general Arthur da Costa e Silva sucede o marechal Humberto Castelo Branco na presidência do país e inaugura o projeto Milagre Econômico Brasileiro que vai durar até a metade da década de 1970. O chamado milagre econômico é conhecido pela acumulação capitalista e pela redução drástica dos salários dos trabalhadores.

segunda-feira 9 de novembro de 2015| Edição do dia

Neste mesmo ano explode uma série de manifestações estéticas espontâneas no Brasil influenciadas pelos acontecimentos políticos e culturais da época (Revolução Cubana, contracultura, Guerra do Vietnã, rebeliões estudantis, rock psicodélico) que marcaram profundamente a arte e o fazer artístico no Brasil. Entre bombas, ácido, protestos, Brigitte Bardot e a antropofagia de Oswald de Andrade surgem o ambiente Tropicália do artista carioca Hélio Oiticica, a montagem da peça teatral O Rei da Vela pelo Teatro Oficina em São Paulo, a produção do filme Terra em Transe de Glauber Rocha, o livro PanAmérica do escritor José Agrippino de Paula e canções como Alegria, Alegria de Caetano Veloso e Domingo no Parque de Gilberto Gil.

Alegria, Alegria e Domingo no Parque são apresentadas no III Festival de Música da Record em 1967 causando enorme furor pela irreverência e pelo uso de guitarras elétricas, considerado por um setor da sociedade o instrumento símbolo da americanização e da alienação da cultura brasileira. Em 1968 são lançados pela gravadora Philips os álbuns Gilberto Gil, Caetano Veloso, Panis et Circensis ou Tropicália, álbum coletivo realizado por Caetano, Tom Zé, Torquato Neto, Os Mutantes, Rogério Duprat, Gil, Gal Costa e Nara Leão. Pela gravadora Polydor Records sai o álbum Os Mutantes e pela gravadora Rozenblit, o álbum Grande Liquidação de Tom Zé. A partir desta inserção aguda nos grandes meios de comunicação (gravadora, televisão, jornais e revistas) o conceito Tropicália, título da obra de Oiticica e da canção-manifesto de Caetano presente no álbum coletivo Panis et Circensis ou Tropicália, foi transformado em tropicalismo pelo colunismo oficial principalmente para definir esta produção musical. A Tropicália, pensada inicialmente enquanto uma proposta estética e política, ou estética e comportamental, virou uma tendência musical do mercado fonográfico hegemônico.

Caetano, Os Mutantes e Gilberto Gil estendem a bandeira-poema Seja Marginal Seja Herói de Hélio Oiticica num show na boate Sucata no Rio de Janeiro. A bandeira denuncia os assassinatos cometidos pelos esquadrões da morte no regime ditatorial. Gal Costa, muito influenciada pela cantora Janis Joplin interpreta a canção Divino Maravilhoso no IV Festival da Record. Num rasgo de voz explosivo, Gal espantou a plateia e os telespectadores com esta canção-palavra de ordem que diz ser necessário estar atento e forte e que não podemos temer a morte no país do generais assassinos. Atenção, diz a cantora baiana, há muito perigo por aí.

No dia 13 de dezembro de 1968 é decretado o Ato Institucional n 5, o AI-5, quinto decreto da ditadura que deu plenos poderes ao general Costa e Silva. Com o AI-5 o Congresso Nacional foi fechado e os direitos democráticos foram cassados, Sob o comando de Costa e Silva houve prisões, torturas, exílios e o assassinato de trabalhadores, políticos opositores ao regime, militantes de esquerda, LGBT, negros, pobres e artistas. O AI-5 foi uma intensificação brutal da ditadura. Repressão e censura prévia. Os censores agora vão se instalar permanentemente dentro das redações de jornal e revistas. A produção artística e intelectual são obrigadas à passar pelo exame político e moral dos militares. A barra pesou.

Na antevéspera do natal deste ano fatídico Caetano aparece cantando Noite Feliz com uma arma apontada na cabeça no programa Divino Maravilhoso da extinta TV Tupi. A irreverência, o deboche e o experimentalismo estético e comportamental do Tropicalismo incomodaram os generais e os setores reacionários da Igreja e das classes médias brasileiras. No dia 27 de dezembro de 1968 Caetano e Gil são presos e depois exilados em Londres. A prisão e o exílio dos cantores e compositores baianos marcam definitivamente o fim do tropicalismo.

Para um setor de artistas, intelectuais e militantes de esquerda ligados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), de orientação stalinista, o tropicalismo era a expressão do desbunde. Esse setor da esquerda nacionalista defendia uma política nacional-popular para a arte, ou seja, uma arte genuinamente brasileira que trata das questões como o latifúndio, a exploração da mão de obra nas cidades e etc. Enquanto que o tropicalismo que cantou o amor livre, o uso emancipador das drogas e a crítica ao modo de vida careta e reacionário da tradicional família brasileira era denunciado como um produto da Indústria Cultural pequeno burguês que deflagava o desejo individualista de sair fora e fugir para um idílio hedonista fundado na tríade sexo, drogas e rock n roll.

Realizadores diretos da Tropicália como Hélio Oiticica e Torquato Neto recusavam o termo tropicalismo criado pelos colunistas e críticos de arte de plantão porque a ideia antropofágica proposta inicialmente em 1967 não se resumia a produtos culturais de grandes gravadoras e canais de televisão.

No começo de 1969, a Philips lança o álbum Gal Costa, primeiro álbum solo da cantora baiana gravado em 1968, mas só lançado no ano seguinte devido a prisão de Gil e Caetano. Agora Gal está sozinha e seu álbum tropicalista é considerado o canto do cisne do movimento iniciado em 1967. O clima é de sufoco e a cantora baiana quer lançar seu iê iê iê romântico no espaço sideral das paradas de sucesso (Objeto Não Identificado) misturado com xaxado psicodélico (Sebastiana), rock (Lost in Paradise), música de invenção (Namorinho no Portão), bossa nova (Saudosismo), Jovem Guarda (Se Você Pensa e Vou Recomeçar), canção de protesto (Divino Maravilhoso), black music (Que Pena), aquela canção do Roberto, coisas de margarina (Baby), festa, comício (A Coisa Mais Linda Que Existe), exílio e a chuva que não passa e impede o sol de voltar (Deus é Amor). Baby, é preciso estar atento e forte, é preciso tomar um sorvete na lanchonete enquanto a tempestade cai e a alegria não volta.

Na sequência do sucesso de vendas de Gal Costa, a Philips lançou Gal, o segundo álbum da cantora, considerado o seu trabalho mais psicodélico e experimental. Gal Costa diz que não quer mais as tardes mornas e normais na matinê do Cinema Olympia (Caetano), prefere o deserto escaldante onde nascem os guerreiros nômades Tuareg (Jorge Ben). Cultura e Civilização (Gil) só lhe interessam se deixam o cabelo belo como uma juba de leão e com a vida na mão no País Tropical (Jorge Ben) pós AI-5 abençoado pelos setores reacionários da Igreja e vendido no exterior como paraíso para turistas. Com Meu Nome é Gal (Erasmo Carlos e Roberto Carlos) a cantora é homenageada pela dupla de colaboradores da Ditadura, mas agora ela já não sente tanto medo Com Medo, Com Pedro (Gil) bem depois do fim de tudo. The Empty Boat (Caetano), as mãos estão vazias, o coração está vazio, mas novos seres, Objeto Sim, Objeto Não (Gil), fundarão seu reinado de ouro dos ossos de Brasília depois do fim do mundo. Em Pulsars e Quasars (Jards Macale e Capinam) Gal pede notícias dos exilados e diz estar sem voz. Os novos seres seguem sem voz no quadro aberto da TV.

Em outubro de 1969 o general Emilio Garrastazu Médici assume o cargo de presidente e segue com o milagre econômico e o Terror de Estado. O Brasil é país tropical do milagre da concentração de renda capitalista, do consumo, das montadoras de automóveis, do agronegócio, dos empréstimos bilionários feitos no exterior, dos slogans Ninguém mais segura este país e Ame-o ou Deixe-o, transformados em adesivos e propagados em massa pelos programas de TV. É o Pa-tro-pi campeão da Copa do Mundo no México nos anos 1970 que instituiu a tortura e a morte nas delegacias e quartéis.

No segundo semestre de 1970 é lançado o álbum Legal de Gal Costa, como resultado do show Deixa Sangrar que estreou no Teatro Opinião do Rio de janeiro. Gal, agora uma sobrevivente do naufrágio tropicalista, avança para o sucesso e aparece como porta-voz do movimento hippie ou contracultural no Brasil. Na sequência daquelas canções do Roberto, Gal abre este disco com Eu sou Terrível (Roberto e Erasmo Carlos). Na música Lingua do P (Gil) ela garante que você não vai entender bulhufas. Love, Try and Die (Gal, Jards Macalé e Lenny Gordin). Na canção Minimistério (Gil) a jovem cantora diz não custar nada, só a vida e na tristeza da seca só se ouve o canto penoso e amedrontador de Acauã (Zé Dantas). A sexta faixa deste álbum, Hotel de Estrelas (Jards Macalé e Duda Machado) pode ser considerado uma canção-manifesto da desilusão destes dias terríveis de gente morta debaixo da escada e profetas pelos corredores. Em Deixa Sangrar (Caetano), Gal Costa quer ver o mar ferver, o sol despencar e o coração despedaçar brincando, dançando, gritando, morrendo em The Archaic Lonely Star Blues (Jards Macalé e Duda Machado). Os amigos exilados vagam solitários sem direção pelas ruas de London London (Caetano). Na última faixa do disco Gal canta em Falsa Baiana (Geraldo Pereira) que dá nó nas cadeiras e vira os olhinhos.

Não há mais o sol lisérgico da Tropicália, agora é só chuva, tempestade, ruas escuras e com medo, ruas e avenidas silenciadas. Noites tristes nos trópicos do milagre econômico. As pessoas na sala de jantar comem caladas o pão de cada dia depois de mais um dia de trabalho. A poesia marginal se esconde em acordes dissonantes. Sob a direção do poeta baiano Waly Salomão, Gal estreou em 1971 Fatal, uma série de shows realizados no Teatro Thereza Raquel no Rio de Janeiro. Fatal foi um grande sucesso de público, um dos shows mais comentados no começo dos anos 1970. O resultado destas apresentações foi compilado em um álbum duplo intitulado Fatal: Gal a Todo Vapor. Com um repertório eclético, Gal Costa, uma Fruta Gogóia (Folclore brasileiro), uma moça, uma jóia, serpente-voadora em ares contaminados, diz que tudo vai mal, tudo em volta está deserto, tudo certo, como 2 e 2 são 5 (Caetano) no Brasil dos porões da tortura. Em Falsa Baiana (Geraldo Pereira) explode o grito rebelde da jovem que quer viver a vida sem os ditames patriarcais da Igreja e do Estado que não quer a tristeza do sambista que anda na corda bamba com grande dificuldade a espera de um favor de Tonico (Ismael Silva). Em Sua Estupidez (Roberto Carlos) Gal Costa diz que é preciso usar a inteligência uma vez só e compreender que o seu amor é bem maior que tudo que existe. Dê um Rolê (Galvão-Moraes Moreira), símbolo da contracultura, a cantora baiana diz ser o amor da cabeça aos pés numa sociedade machista. Pérola Negra (Luis Melodia), tenta esquecer este ano de torturas, rasgar a camisa e enxugar o pranto pois o segredo é seguir parado, calado, massacrar o medo, mascarar a dor e aprender a sofrer num intitulado Mal Secreto (Jards Macalé). Charles Anjo 45 (Jorge Ben). Em Hotel de Estrelas (Jards Macalé-Duda Machado) sob o pátio abandonado, profetas nos corredores, mortos embaixo da escada, Gal, com os olhos vermelhos vê o fruto apodrecendo no fundo do peito a cada dentada. Tudo em volta é só beleza no milagre econômico, mas, por ignorância ou pura maldade furaram os olhos de Assum Preto (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira) para assim ele cantar melhor, a baiana, assim como pássaro que não pode voar, canta de dor. Está tudo bem com vocês? Luz do Sol (Waly Salomão-Carlos Pinto) o céu azul, no coração uma ferida acesa. Vapor Barato, Gal, com suas calças vermelhas e seu casaco de general cheios de anéis, desce por todas as ruas e vai tomar aquele navio, quer fugir do período de maior perseguição política na história do país.




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