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O descontentamento social polariza as eleições nos Estados Unidos

As eleições norteamericanas demonstram a polarização social e política que se instalou para ficar depois da Grande Recessão. Com a lenta recuperação da economia e uma alta taxa de desemprego, o estado de ânimo dos trabalhadores e da população é de frustração e descontentamento com os políticos tradicionais do sistema bipartidário (entre Democratas e Republicanos).

André Acier

Natal | @AcierAndy

sábado 20 de fevereiro de 2016| Edição do dia

O país foi sacudido em 2014 e 2015 por movimentos importantes, desde as revoltas dos trabalhadores precarizados das redes de fast-food que reivindicam direitos sindicais e o salário mínimo de US$15/hora, passando pelo desmantelamento de grandes cidades industriais como Detroit e Baltimore com uma onda de desemprego, até as rebeliões negras em Ferguson e Nova Iorque contra o racismo institucional da polícia e do Estado, que assassinou Mike Brown, Eric Garner e Freddie Gray entre tantos outros. Segundo Marcelo Cantelmi (Clarín, 12/02), é a primeira vez que nos Estados Unidos a camada da classe média, que resumia o sentido simbólico da mobilidade social, é menor que a soma das camadas de trabalhadores com menores salários e a camada da burguesia financeira mais rica.

Neste cenário, o voto “castigo” contra os candidatos identificados com a elite política é o grande protagonista. As eleições primárias (que decidem o número de delegados nos estados que elegerá o candidato de cada partido) de Iowa e New Hampshire colocaram, entre os Democratas, o senador Bernie Sanders ombro a ombro com a candidata do establishment, Hillary Clinton. O multimilionário Donald Trump e Ted Cruz são os favoritos contra os conservadores “moderados” de um partido Republicano totalmente fragmentado.

Com uma nova geração muito mais próxima da “queda do Lehman Brothers do que da queda do Muro de Berlim”, não é de estranhar que Sanders tenha tanto êxito na juventude. Sua retórica contra Wall Street e a defesa do salário mínimo expressa distorcidamente o lema dos “99% contra 1%” que animou o movimento Occupy Wall Street. De fato, em Iowa e New Hampshire, Sanders colheu 85% dos votos de jovens com menos de 30 anos, e 65% dos trabalhadores que ganham menos de 50 mil dólares anuais. Hillary foi favorita apenas entre os votantes com mais de 60 anos e com renda quatro vezes maior.

Apesar de usar como temas de campanhas pontos progressistas, se comprometeu a apoiar Hillary Clinton se ela ganhar as primárias, e é criticado pelo Black Lives Matter por sua fraca denúncia da brutalidade policial.

Sanders: “socialista” ou parte integrante do bipartidarismo norteamericano?

Muitos brasileiros que acompanham a política dos Estados Unidos ficaram espantados com o fato de um dos candidatos se autodenominar “socialista”.
Não há dúvida que os candidatos dos Republicanos, como Ted Cruz, ligado à extrema direita do Tea Party, nem falar o xenófobo e racista Donald Trump, são excrescências reacionárias e uma representação dos setores do capital financeiro que mais ódio tem contra os trabalhadores.

Entretanto, esta conclusão não deve servir para ocultar os vínculos existentes entre Sanders (muito menos de Clinton) e o sistema político norteamericano, suas guerras e sua classe dominante. Isto seria funcional apenas para impedir o surgimento de alternativas verdadeiramente anticapitalistas e socialistas.

Depois dos ataques de 11S, Sanders se uniu ao apoio quase unânime à "guerra contra o terror" e votou a favor da resolução de Autorização do Uso da Força, que significa apoio político às intervenções. Durante a guerra do Golfo, foi defendeu sanções econômicas ao Iraque, e o primeiro bombardeio da OTAN em 1992 no país. Apoiou o bombardeio da Sérvia nos anos 90, e por isto chegou ter seu escritório ocupado por movimentos antiguerra. Em 2014 apoiou resolução unânime do Senado em respaldo ao Estado de Israel durante o bombardeio e a invasão de Gaza. Hoje, o carro-chefe da política externa de Sanders não se diferencia tanto das propostas Republicanas: que os aliados regionais dos EUA no Oriente Médio "se apliquem mais" nos bombardeios na Síria. Ou seja, defende uma política imperialista.

Por uma esquerda da luta de classes que rompa com ilusões nos discursos reformistas

Não podemos concordar, portanto, com a lógica de um grande setor da esquerda que estabelece que “os problemas de Sanders na política externa e seu compromisso com o Partido Democrata são compensados por sua campanha progressista”, como diz Dan La Botz no periódico Viento Sur (12/2).

A corrente de Luciana Genro do PSOL, encantados com a “primavera Sanders”, enxergam um “impacto no realinhamento de toda a esquerda no mundo”. O mesmo “impacto” foi anunciado com a vitória de Tsipras na Grécia em 2015. Porém, o Syriza não fez nenhum "governo de esquerda", mas se aliou à direita nacionalista grega (ANEL) e agora está aplicando o ajuste ditado pela imperialismo. Também exaltaram o Podemos de Pablo Iglesias no Estado Espanhol que rapidamente está mostrando sua adaptação ao regime propondo um governo com a "casta" do PSOE à cabeça.

O retorno das lutas sociais nos Estados Unidos e a aparição em cena das camadas mais precárias da classe trabalhadora devem permitir a construção de uma força material verdadeiramente anticapitalista e socialista, anti-imperialista e apoiada nos trabalhadores, nas mulheres e na juventude. Algo que não pode ser feito sem o enfrentamento estratégico contra as ilusões dos Democratas e da burocracia sindical ligada a este “coveiro” dos movimentos sociais nos EUA.

Para essa perspectiva, longe de exemplos nos Sanders, Tsipras ou Iglesias, temos um exemplo que vem da Argentina, do PTS, um partido forjado na luta da classe trabalhadora que ganhou expressou em setores minoritários de massa nas eleições com um programa anticapitalista com Nicolás del Caño na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, mostrando que é possível conquistar peso em setores de massas sem abandonar a luta para que o movimento operário se transforme em sujeito político, avance das lutas sindicais à militância política e construa um partido com independência de classe que lhe seja próprio.




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