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DENGUE

Dengue: crônica de uma epidemia anunciada

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 15 de abril de 2015| Edição do dia

O número de casos de dengue não para de crescer: o nosso país vive uma calamidade e, no entanto, como é usual, por razões puramente políticas, o governo não assume seriamente que estejamos em estado de epidemia. E bate de frente com a própria Organização Mundial de Saúde (OMS)que determina que ao haver mais de 300 casos para cada 100 mil habitantes temos situação de epidemia.

Começando pelo Acre, lá o número de casos por 100 mil habitantes já chega a quase 1000. Goiás vem em seguida, com quase 800 por 100 mil, seguido de São Paulo com 600 casos da doença por cem mil habitantes. Portanto, brutal epidemia. Mas não para o governo Alckmin, por exemplo, que vem negando que haja epidemia; primeiro ele negou a crise hídrica, e agora o mosquito.

Em termos de regiões, a maior incidência de casos está na região Centro-Oeste, com 400 casos por cem mil, seguida pelo Sudeste com quase 400 casos por cem mil habitantes. Em seguida vem Minas Gerais. E assim vai, Brasil afora.
E são números claramente subnotificados: nem todo enfermo visita o posto de saúde, onde as filas de espera giram em torno de 3 horas em alguns lugares, o ambiente da unidade de saúde é lotado, fétido, insalubre, falta material, é longe etc e daí a pessoa atacada pela doença tenta aguentar em casa ou mesmo no trabalho até quando puder.

Já nos aproximamos do meio milhão de casos neste ano, 3 vezes mais do que no ano passado e quase perto dos 800 mil casos de 2013, quando morreram oficialmente 280 pessoas. No atual verão as mortes oficiais giram em torno de 140 pessoas.
É bem evidente que quando o calor aumenta, a dengue ressurge com toda força, sobretudo desde os anos 1970/80. Um ano temos mais mortos, outro menos, mas o que é sempre evidente é que temos uma doença que voltou para ficar (como a malária e outras).

As pessoas percebem que o sistema de saúde pública vive, ele próprio, em estado de calamidade, de filas, de decadência material e de pessoal. Por isso é justo que alguns reclamem por mais assistência médica, por mais vacinas e assim por diante. No entanto, já nas demandas de junho de 2013, todo um setor da juventude trabalhadora levantou bandeiras bem mais amplas, de mobilidade urbana, transportes, saúde, educação, trabalho, que permitem que coloquemos também o problema da epidemia de dengue, em marcos mais amplos.

Nessa medida, muitos trabalhadores já começam a se perguntar: será que a dengue é apenas um problema de falta de vacinas como quer o governo? Mas e antes, quando nem se pensava em vacina para a dengue e, no entanto, não havia epidemia de dengue e nem tanta morte provocada por esse mosquito? Não será outra a causa de epidemias como essa?

Não será muito mais falta de habitação decente (enquanto prédios vazios são reservatórios de mosquito, grande contingente de famílias não tem onde morar), de serviços de esgoto e água dignos do nome, de comida, de planejamento urbano onde as camadas mais pobres e o conjunto da classe trabalhadora tenha pleno acesso a casa, comida, água, esgoto, descanso, tempo de lazer e igualdade social? E por outra, esse mesmo capitalismo que exclui grande parte da população – precisamente a mais vitimada pelo mosquito – daqueles direitos sociais, não é o mesmo sistema que degrada o meio ambiente ao ponto de que os verões sejam cada vez mais terríveis e mais propícios para mosquito e outras pragas? Ter mais e mais camadas da classe trabalhadora precarizadas e vivendo à margem de direitos básicos (como o de uma urbanização decente onde moram), mais as mudanças climáticas provocadas pela produção capitalista, não explicam essas epidemias muito mais do que a mera falta de vacinas? A falta de democracia nos bairros, nas empresas, nos hospitais, de forma que os trabalhadores decidam o que é prioritário e o que não é na gestão do dinheiro público, não será o grande facilitador das epidemias, das doenças crônicas? A desigualdade social e a globalização da miséria não serão o grande sujeito oculto nessa história?

Nildo Viana, professor da UFG, analisando primorosamente a atual epidemia de dengue (no seu artigo Dengue, capitalismo e meio ambiente) nos lembra que várias moléstias contagiosas estão voltando em grande escala na África, quando eram supostamente tidas como controladas, inclusive febre amarela e malária; na América Latina, malária e dengue eram ditas como sob controle. E no entanto, aumentaram dramaticamente nos anos 1980 e 90, precisamente época da devastação social promovida pelo neoliberalismo, da ofensiva sem precedentes do capital contra o trabalho tanto na África quanto na América Latina; por isso também novas pragas como o ebola estão surgindo. Ou seja, o “ajuste estrutural” do capitalismo significou claramente a volta dessas epidemias, isto é, se traduziu em desajuste social e epidemiológico.

Fica claro que o atual “ajuste” econômico que tanto governo quanto oposição burguesa se lançam a executar no Brasil – retirando direitos trabalhistas etc - apenas vão promover a volta de novas e velhas pragas. Daí vem a impotência desse governo com a dengue. Seu discurso é o de mais adiante comprar a vacina que os grandes laboratórios privados estão correndo para fabricar.

A conclusão é inescapável: o mosquito só consegue provocar esse estrago, ao contrário de antes dos anos 1980, porque encontra as condições propícias. Essas mortes desnecessárias são crimes de Estado, como também os mais de 40 mil mortos nas estradas todo ano e tantas mazelas sociais derivadas do controle do país pela grande banca, pela patronal que só visa lucro e exclui grandes maiorias.

Por outro lado, o resgate do direito à água, habitação digna, emprego, mobilidade urbana, educação e saúde não ocorrerão sem que a classe trabalhadora tome a saúde, os serviços de saúde e toda a vida urbana e produtiva em sua mãos e, planificando a produção da riqueza, detenha a devastação ambiental, hídrica, e detenha esse rol de mortes desnecessárias por conta de doenças absolutamente superadas.




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