Opinião

22N: ELEIÇÕES NA ARGENTINA

De “mal menor” em “mal menor”, a direita termina bem obrigado

O problema do “mal menor” e do “voto útil” no segundo turno das eleições no Brasil em 2014 e da Argentina hoje.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 21 de novembro de 2015| Edição do dia

No ano passado, quem não se lembra do famigerado argumento do “mal menor”? Dilma não é o candidato dos seus sonhos, mas vote nela que o outro, o Aécio, é pior, ele é o “mal maior”. De fato, votar no tucano Aécio, candidato patronal, não fazia nenhum sentido, na perspectiva da classe trabalhadora. Mas qual o sentido de votar na Dilma em nome do “voto útil” ou do “mal menor”? Será que votar em Dilma era votar na independência política dos trabalhadores?

A mesma discussão está sendo lançada em certos meios da esquerda argentina nas eleições atuais para presidente: não votem no Macri [uma espécie de Aécio Neves argentino], que ele é a direita, votemos no “mal menor”, no Scioli, que é ao menos peronista [populista].

Esse fenômeno, de estabelecer como critério, diante de dois blocos burgueses, escolhermos dos males o “menor”, se repete nas eleições pela América Latina afora, passando pelos Evo Morales, antes pelos Lula e assim por diante. E é por essa via que o candidato ganha com o discurso do “mal menor”, como fez a Dilma, e, em seguida, abraça o programa e a agenda do “mal maior”. Dilma está governando com uma política de “ajustes” e ataques contra a classe trabalhadora de fazer inveja a Aécio Neves [ou a Marina, que o apoiou no segundo turno].

Portanto, a discussão é: a quem interessa o “voto útil”? Quando se falava vote na Dilma porque do contrário teremos o perigo da direita, ou, na Argentina hoje, vote no Scioli, peronista, do contrário teremos a vinda da direita, que tipo de cilada está sendo armada para a classe trabalhadora?

Vamos partir do mais elementar: se nenhum candidato da patronal jamais mudou e jamais terá chance de resolver os problemas estruturais do nosso país [ todos eles se movem, por mais populistas que sejam, em função dos interesses do sistema, do capitalismo], como é que a classe trabalhadora pode organizar-se de forma independente se a cada vez ela cede à ilusão do voto no “mal menor”.

Temos que presumir que quando o bloco de poder se divide, como regra, sempre haverá um candidato pior que o outro – sendo os dois burgueses – e, portanto sempre se poderá agitar a chantagem do “mal menor”, do candidato “melhorzinho” e assim por diante. Mas e aí? Só nos resta sermos eternos reféns de vendedores de ilusões?

O que a classe trabalhadora sai ganhando com isso? Na verdade ela perde sua autonomia: se sentirá responsável pelo novo bloco de poder, de governo, que vai chamar de seu ou que lhe parece ser seu. Faz política emprestada, para os populistas, para os peronistas, os brizolistas, os lulo-petistas e por eles fica tutelada, entra no seu jogo [burguês].

E, portanto, mais adiante, NINGUÉM vai protegê-la do “mal menor” já que somente ela com suas próprias forças, com sua independência de classe, poderia fazê-lo. A orfandade política foi clamorosa quando Getúlio Vargas fugiu [suicídio] ou Jango idem, correu para sua fazenda no Uruguai e entregou o poder aos gorilas. Vejam o caso de Dilma, ganhou prometendo um programa [do “mal menor”] e agora está promovendo desemprego, privatizações, mais impostos e inflação contra os mais pobres, destruindo direitos trabalhistas, aumentando a terceirização e precarização, cortando verbas na saúde e educação. Pois bem: quem vai nos proteger da catástrofe Dilma, do tal “mal menor”?

Se classe trabalhadora não contar com suas próprias forças, ninguém virá em seu socorro. E a classe trabalhadora terá perdido uma chance de desenvolver, mesmo nos marcos limitados das eleições burguesas, uma maior consciência de classe. Terá alimentado ilusões com o frente-populismo, esse mesmo que costuma evoluir para a direita [essa foi a história de Evo Morales, de Peron, de Chavez/Maduro, de todos eles: ou se direitizam ou dão passagem ao golpe].

E o mais grave problema vem a ser precisamente este. Como a classe trabalhadora vai se constituir como a terceira força, como o polo classista para promover a revolução social se, como regra, está sempre se ocupando de promover e apoiar um bloco burguês? Em que movimento tático ela aumenta seu poder de fogo independente, sua capacidade política própria, se está sempre detrás ou até se sentindo responsável por um governo burguês com cara de esquerda? É governismo à vista. A CUT atualmente está emprestando apoio operário a Dilma ao mesmo tempo em que esta desmantela direitos trabalhistas. É uma central operária viciada no governismo. Adeus independência...

Nossa capacidade, nossa força e nossa independência como força política aumentou ou diminuiu quando escolhemos como presidente algum “mal menor”? Fica diminuída: vai ser alimentada uma ilusão, em nome do “perigo da direita” e com isso os trabalhadores que são iludidos deixam de cerrar suas próprias fileiras, de ficarem mais fortes para a luta contra as medidas direitistas do próprio “mal menor”. Estaremos, em alguma medida mais enfraquecidos diante de governos tipo Dilma, já que a independência política da classe trabalhadora não foi preservada.

É muito mais que uma questão tática: não votamos em candidatos da patronal e o fazemos em nome do aumento da nossa capacidade de luta. Não somos para nada responsáveis por qualquer governo burguês, seja ele mais ou menos populista. Não praticamos colaboração de classe. O voto nulo nos deixaria, naquele segundo turno, moral e politicamente mais fortes e delimitados desse governo que abraçou a agenda da direita e defende interesses dos patrões.

Votar no “mal menor” é uma forma de encobrir o eterno adiamento daquela que é a mãe de todas as tarefas: levantar uma força política e social dos trabalhadores, que seja contra o ajuste e a política de descarregar a crise econômica nas nossas costas, que é política de qualquer dos dois “males”, tanto do maior quanto do menor.

E mais, ao aplicar a agenda da patronal, governos tipo Dilma fortalecem aquela mesma direita cujo espantalho ela agitou habilmente nas eleições, para chamar ao voto nela, no “mal menor”.

Em Brasília o sindicato dos professores fez aquela escolha do “mal menor”: chamaram ao voto em Rollemberg, do PSB, contra o candidato mais direitoso e corrupto do PT, Agnelo, e o resultado é que os trabalhadores da educação estamos apanhando da polícia de Rollemberg nas ruas e sua política é intransigente e de classe: nenhuma concessão aos professores e aumento para os policiais. A estratégia correta teria sido [nas eleições passadas]: nenhum dos dois candidatos nos representa, são candidatos da patronal, portanto voto nulo. Voto nulo em nome da organização independente e política da classe trabalhadora.

Em 1917 Lenine não se sentia responsável pelo governo liberal e democrático de Kerenski e diante dele e do bloco autocrático, ele claramente propunha a criação de uma “terceira força”, a dos trabalhadores organizados politicamente e de forma independente. Tudo ao contrário do que fez o PCB aqui em 1964, quando se posicionou como janguista e não manteve a independência política do proletariado. Não se postulou como terceira força, contra Jango e contra a direita fascistóide.

É claro que os governos burgueses não são iguais, mas em vez de se ficar atrás do suposto “mal menor”, nossa tarefa é construir a força independente de classe para quando tivermos que enfrentar os dois males; nenhum deles nos fortalecerá e sim nossos órgãos de auto-defesa, de democracia de base, de mobilização própria sem ilusões com qualquer governo patronal.

É claro que se trata de discutir uma nova tradição, portanto uma nova maneira de fazer política e que, nas eleições, se expressa em que não votamos em partidos da patronal. Não se trata de questão tática: é estratégico que os trabalhadores se organizem politicamente em suas próprias correntes políticas, em seus partidos, cuja definição elementar parte de que trabalhadores conscientes não votam em partidos que se alinham com a patronal, que recebem recursos da burguesia.

Evidentemente a esquerda brasileira [e latino-americana] tem essa tradição: chamar ao voto no populista burguês de plantão, no bloco burguês que represente, na sua ótica, o “mal menor”. Mas na verdade, esse é o primeiro passo e a primeira dificuldade para a construção de um partido dos trabalhadores: se deixar levar pelas falsas alternativas, “ter” que “escolher” entre Dilma ou Aécio, entre Macri ou Scioli e assim por diante.

Como vamos construir uma força própria, com o programa e a estratégia da classe trabalhadora, se sempre estamos detrás de algum burguês ou de sua sombra? Como a classe trabalhadora vai liderar e hegemonizar as massas pobres se ela mesma naturaliza o apoio ao governo patronal que promete mais? O tal “voto útil” deixa aos operários e ao povo pobre nas mãos de governos pró-patronal, mais ou menos como se fossem “responsáveis” por eles e por sua crise.

Apoiar politicamente um bloco burguês, um populista qualquer, ficar dependente de frentes como o Syriza na Grecia, compromete a independência política do movimento operário; e é assim porque “necessariamente, uma localização estratégica desse tipo deixa relegado a um plano tático tanto a independência de classe, como a luta consequente pela condução [hegemonia] dos potenciais aliados entres os setores populares e classes médias empobrecidas”, como argumenta M Maiello.

E daí a necessária defesa do voto nulo hoje no segundo turno das eleições presidenciais argentinas da mesma forma que ano passado, no segundo turno no Brasil.

Quem de sã consciência pode chamar Dilma de “aliada da classe trabalhadora”? Está implantando leis de repressão policial contra as lutas sociais que vão bem além daquelas dos governos anteriores; está desfechando ataques contra direitos trabalhistas todos os dias. Não é nosso governo. Não votamos em governos dos ricos. Ficamos com o argumento de M Maiello ao defender, para a Argentina hoje, a campanha pelo voto nulo “para que os trabalhadores não vão atrás de nenhum de seus inimigos, e colocando a necessidade de um posicionamento independente, de não nos deixarmos chantagear pelas falsas alternativas que a burguesia impõe. E também é uma grande oportunidade para enfrentar a opinião pública burguesa e ir contra a corrente, outro grande exercício do ponto de vista da preparação estratégica” em nome da coesão revolucionária das massas e da sua emancipação de esperanças falsas na patronal “democrática”.

E concluímos com as palavras de D Tupinambá sobre o Brasil atual, onde, como ele argumenta, “cinicamente, os petistas procuram mostrar Lula e Dilma como pobres vítimas, escolhendo como alvo de sua ´luta´ ao ministro da economia e o fortalecimento de uma ´direita´ diante da qual o PT supostamente não teria nenhuma responsabilidade. Os árduos defensores petistas do ´ voto útil´ como ´mal menor´ de ontem são os mesmos que ao longo de todo o ano impediram que o desenvolvimento da luta contra os ajustes pusesse em xeque ao governo. O discurso do ´mal menor´ serve para encobrir o fato de que Dilma assumiu a agenda da direita. Ou seja, o perigo do ´mal maior´ da direita gorila sempre serve como pretexto para nunca colocar de pé uma força social e política dos trabalhadores que combata os ajustes levados a cabo tanto pelos ´males menores´ como pelos ´males maiores´. E assim, de ´mal menor´ em ´mal menor´, os ataques do PT de Lula e Dilma vão passando e a direita vai se fortalecendo”.

Foto: lanoticiabonaerense




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