Teoria

MATERIALISMO DIALÉTICO

Darwin em uma perspectiva marxista e o papel da lógica dialética

Gilson Dantas

Brasília

sábado 18 de abril de 2015| Edição do dia

Trotski, um historiador de primeira linha, com o seu A história da Revolução Russa, é também autor de obras como Literatura e revolução, Problemas da vida cotidiana e também de páginas memoráveis sobre lógica dialética em seu livro Em defesa do marxismo. Também é certo que aquele livro que, para muitos, é sua obra-prima, A revolução traída, pode perfeitamente ser visto como um notável monumento à lógica dialética, na análise de um crucial fenômeno político e sociológico do seu tempo.

Não é de estranhar, portanto, que também ele tenha feito anotações ou observações muito interessantes a respeito da própria lógica dialética, e também do que alguns chamam de filosofia da ciência, e em especial, sobre a teoria da evolução de Darwin. São observações que podem ser encontradas no próprio Em defesa do marxismo, em seu discurso, de 1925, intitulado O materialismo dialético e a ciência (no Congresso Mendeleev), mas também no seu livro Escritos filosóficos publicado em Buenos Aires, pelo Centro de Estudios, Investigaciones y Pesquisas León Trotsky, em 2004. Neste livro encontram-se Cadernos de anotações de estudos e, em alguns deles, Trotski examina a questão da teoria da evolução de Darwin.

Para Trotski, seguindo o legado de Marx e Engels, a teoria da evolução orgânica de Darwin representou uma grande vitória do pensamento materialista dialético. Mesmo não sendo Darwin um dialético consciente e jamais tendo estudado a dialética grega, muito menos a hegeliana, suas descobertas e a interpretação que delas fez (em A origem das espécies por exemplo), fundam uma concepção histórica, em termos de história natural das espécies e do homem, que não deixa qualquer margem para a explicação teológica e, em outra direção, afirmam a ideia do desenvolvimento materialista e dialético do mundo orgânico.

Engels irá elaborar um ensaio, no fim de sua vida, conhecido como O papel do trabalho na transformação do símio em homem, onde situa, devidamente, no campo da dialética e do materialismo histórico, aquela memorável e revolucionária descoberta.

Como Engels e como Marx, também Trotski irá formular a crítica a Darwin e a certo tipo de darwinismo do seu e também do nosso tempo, que por um lado ainda concebe a evolução sem saltos, sem catástrofes ou períodos de aceleração de mudanças e também por outro ainda pensa a evolução como obedecendo a qualquer plano pré-determinado ou teleologia de algum tipo.

A evolução não se deu assim. E menos ainda tal concepção parcial da evolução pode ser transportada para a história da sociedade humana.

“Progresso pacífico” e história com progresso garantido, linear ou pré-determinado não têm nada a ver com a história da humanidade.

Em seu Em defesa do marxismo, Trotski argumenta o seguinte:

Desde a época de Darwin, toda pessoa culta, procura qualificar-se como “evolucionista”. Porém, um verdadeiro evolucionista deve aplicar a ideia da evolução a suas próprias formas de pensamento. A lógica elementar, fundada no período em que a própria ideia de evolução não existia, é evidentemente insuficiente para a análise dos processos evolutivos. A lógica de Hegel é a lógica da evolução. Só que não devemos esquecer que o conceito de evolução foi completamente corrompido e castrado pelos professores universitários e escritores liberais, que o utilizam para se referirem ao “progresso” pacífico.

Qualquer um que tenha chegado a entender que a evolução se desenvolve através da luta de forças antagônicas; que uma lenta acumulação de mudanças faz explodir, em determinado momento a velha carcaça, provocando uma catástrofe, uma revolução; finalmente, qualquer um que tenha aprendido aplicar as leis gerais da evolução ao próprio pensamento, é um dialético que se diferencia completamente dos evolucionistas vulgares. O treinamento dialético da mente – tão necessário para um lutador revolucionário assim como os exercícios com os dedos para um pianista – exige que todos os problemas sejam tratados como processos, e não como categorias imóveis. Ao contrário, os evolucionistas vulgares se limitam geralmente, a reconhecer a evolução somente em certas esferas, e se contentam em todas as demais questões, através das banalidades que lhe proporciona o “senso comum”.

Em várias das suas observações sobre Darwin, sobre a teoria da evolução, Trotski irá chamar a atenção para esses elementos e, em especial, para o entendimento da natureza como esfera das leis e regularidades dialéticas; também para a sociedade como esfera distinta mas que cobra um entendimento materialista dialético, de suas leis e regularidades, neste caso através do materialismo histórico. Ambas compondo uma unidade, mas cada uma delas, natureza e sociedade, com suas leis próprias, e em alguma medida, inconfundíveis uma com a outra. Firmemente, Trotski critica qualquer transposição indevida, qualquer tentativa de compreensão da história social sem levar em conta os elementos qualitativos que lhes são próprios, vale dizer, a subjetividade humana, o papel de sujeito ativo dos humanos (e da história da luta de classes).

As leis de uma esfera (de cada totalidade ou como ele qualifica, de cada unidade diferenciada) não se confundem com as da outra. Mesmo que o materialismo dialético seja o método de análise que unifica nosso olhar. E que une todas as totalidades entre si.

Darwin, para Trotski, permite que se entenda a história natural das espécies, incluindo a dos humanos (neste caso através do trabalho), como um processo materialista e dialético. Pequenas variações ou mudanças, acumuladas no tempo permitem saltos, origem de novas espécies, em um processo de inter-relação espécies-entorno natural, cuja explicação advém dessa contradição dinâmica, materialista, histórica e dialética e que, para novos estudiosos da evolução, em vários aspectos mais profundamente dialéticos que Darwin (a exemplo de Stephen J Gould), se dá através de saltos ou acelerações nada pacíficas (“catastróficas”). O acúmulo quantitativo dando lugar a saltos qualitativos, a rupturas com o velho, é a ideia que Trotski resgata a cada momento, reafirmando o método dialético e revolucionário de pensar.

Nota – Os materiais de Trotski sobre teoria da evolução e C Darwin, estão disponíveis no livro Trotski e Darwin – escritos de Trotski sobre a teoria da evolução, dialética e marxismo, 2012, Edições C. Cultural/ISKRA, facilmente encontrável na web (por exemplo, no site www.centelhaculturallivros.com.br). Já está no prelo, a edição brasileira dos Escritos filosóficos.




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