Cultura

Conto

Crise e o amargo sabor do chocolate

Afonso Machado

Campinas

quinta-feira 29 de abril| Edição do dia

Benedita entrou no cômodo minúsculo e gritou para o irmãozinho que dormia no sofá desencarnado:

Benedita: - Levanta moleque! Anda antes que o dia morra e a gente morra de fome junto com ele.

Não era que Benedita fosse uma péssima irmã para Paulinho. É que os dois precisavam sair cedo de casa para trabalhar. Benedita, uma moça mal humorada, sempre preocupada com a família. Aos 19 anos teve que abrir mão da série do Nono ano na escola em que estudava para ajudar em casa. Ela agora ajudava a avó e a tia no preparo das trufas de chocolate. Após aprontar a mochila cor de rosa enchendo-a de trufas(a mesma mochila que antes abrigava um caderno de 30 páginas amareladas e um velho estojo que continha exatamente uma caneta azul gasta, um toquinho de lápis e uma borracha que mais sujava do que apagava os erros no papel), Benedita acelerava Paulinho:

Benedita : - Paulinho! Pega as vassouras e os rodos e vamo se embora!

Paulinho era um guri de 12 anos. Ele também largou a escola para ajudar nas contas da casa. Todos os dias ele carregava nas costas vassouras e rodos para vender. Quando chegavam num bairro popular, Benedita subia uma rua e Paulinho descia outra rua. O casal de irmãos começava assim a piar como aves mecânicas:

Benedita: - Olha a trufa! Tem trufas deliciosas !

Paulinho: - Atenção Dona de casa! Tá passando aqui o menino das vassouras! É
vassoura barata que não acaba mais !

Benedita: - Tem trufa de morango, de doce de leite, de chocolate branco!!!!

Paulinho: - Olha o rodo! Leva dois e ganha uma vassoura!

Por volta da 13:30h, o sol queimava a cabeça dos dois irmãos. Eles pararam para
descansar na sombra de uma velha mangueira, cujas folhas pareciam estáticas pela falta de vento. Ambos não usavam máscaras, estavam expostos ao coronavírus. Mas
não se importavam muito, afinal eles não sabiam como definir a COVID19.

Paulinho: - O Senhor Barbosa, lá do bairro, disse que só pega coronavírus quem não acredita em Deus. Como que é esse vírus?

Benedita: - Dizem que é um tipo de mosquito, feito esses que dão dengue.

Os dois continuaram a caminhada para vender suas mercadorias. As bocas secas, os
estômagos vazios. Ás vezes os estômagos roncavam mais alto do que as palavras
pronunciadas para a venda. Paulinho teve uma tontura e caiu de joelho no pedregulho de uma rua sem asfalto. Benedita ficou desesperada:

Benedita: - Calma Paulinho! Você precisa comer.

Benedita estava abrindo a mochila para dar uma trufa para o seu irmão. Seria prejuízo, afinal a avó e a tia já avaliavam que o gasto com os ingredientes das trufas estava elevado, não compensava as vendas dos doces. As duas que tinham o sonho de serem duas empresárias no ramo dos doces, deparavam-se com o alto custo de vida que, a todo instante, lembrava que elas eram proletárias e que proletárias continuariam a ser. Enquanto Benedita apanhava a trufa, descia a rua um automóvel que vendia ovos.

Vendedor de ovos: - Olha o carro do ovo! 3 caixas com doze ovos por dez reais!

O carro estacionou. De dentro saiu um homem corpulento de meia idade e disposto a acudir os dois jovens.

Vendedor de ovos: - O que aconteceu com o moleque? Tropeçou?

Benedita: - É... Ele não comeu nada hoje. Será que o senhor não me vê um ovo?

O homem foi até o carro e voltou com um ovo de casca toda pintadinha. Ele não quis receber pelo ovo e Benedita agradeceu. O homem estava dando a partida no
automóvel e Paulinho já estava com o ovo nas mãos, furando com o dente a casca e
sugando de uma vez só a clara e a gema cruas.

Paulinho: - Agora eu tô bão.

Eram 19h quando os dois voltaram para casa após a longa caminhada. As vendas
foram pequenas. poderiam talvez integrar a compra de um saco de arroz. Chegaram
em casa exaustos. Ritinha veio visitar Benedita naquela noite. Elas possuíam a mesma idade mas Ritinha estava melhor de vida. Ritinha, que não admitia pertencer a uma família de origem proletária, comentava com ar de superioridade:

Ritinha - Já estou terminando o Terceiro ano. E você, quando volta a estudar? Nossa, você nem chegou no Ensino Médio ! Mas calma amiga: você ainda é jovem e vai conseguir chegar lá. Benedita, temos que prosperar! Eu por exemplo nasci para vencer, sou poderosa!

Benedita não suportava Ritinha. Suas visitas funcionavam como uma espécie de palco em que Ritinha colocava-se sempre como a protagonista dos acontecimentos, como alguém que representava o Bem, a prosperidade, o bom gosto, o avanço nos estudos. Sob o disfarce da amizade Ritinha necessitava da personagem Benedita para se sentir superior no teatro da vida.

Ritinha: - Ai, me deu uma vontade de comer chocolate! Sabe, tô doida por um doce! Você tem alguma trufa aí?

Benedita respondeu com uma voz seca, sem desviar o olhar parado em direção á
parede descascada da pequena sala de estar:

Benedita: - Cada trufa custa 3,50 reais.

Observação: esta é uma pequena obra de ficção inspirada nos problemas
da realidade brasileira. Personagens, cenários e situações foram
inventados pelo autor.




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