Coronavírus e racismo

Coronavírus e as vidas negras entregues no trabalho precário

Com a pandemia do coronavírus o número de pedidos por aplicativos no Brasil e no mundo aumentou fortemente. Em nosso país, 70% desses trabalhadores são negros, mais da metade tem entre 18 e 22 anos. Um retrato cruel de como capitalismo e racismo se combinam para intensificar a exploração do conjunto da classe trabalhadora.

domingo 29 de março| Edição do dia

Se alguns anos atrás pedir comida por aplicativo era algo ultra restrito e muito caro, hoje parece ter se convertido em um serviço de primeira necessidade. Para esses jovens trabalhar durante horas pedalando por toda cidade, todos os dias da semana, às vezes por 24 horas seguidas, para ganhar em média um salário mínimo, sem nenhum direito garantido, foi a única opção para sustentar a si próprios e suas famílias frente à crise e o desemprego. Em 9 estados das regiões norte e nordeste, as mais pobres do país, mais de 40% dos trabalhadores são informais e sem carteira assinada. No Maranhão e no Pará, eles são mais da metade da mão de obra. Em outros nove estados, o percentual é maior do que 30%.

Os discursos sobre as novas relações de trabalho, em que todos poderiam ser “microempreendedores individuais”, já vinha caindo por terra diante da realidade concreta desses trabalhadores. No entanto, a pandemia do coronavírus revelou ainda mais a face brutal dessa exploração. Nem os equipamentos básicos de proteção individual as empresas garantem para esses trabalhadores. Muitos se veem obrigados a trabalhar para continuar sustentando suas famílias, o que significa diretamente se expor aos riscos da doença, sem nenhuma garantia de que se adoecerem terão direito a licença remunerada. Nesses casos o sustento das suas famílias, fala mais alto que o medo de ficar doente. A falta de testes massivos faz com que esses trabalhadores também não saibam se estão contaminados, algo que deveria ser elementar e garantido pelas plataformas digitais dessas empresas, tendo em vista que esse trabalho requer um nível grande de exposição a muitas pessoas, aumentando enormemente as possibilidades de contágio.

Enquanto Bolsonaro, com todo seu cinismo e sarcasmo finge estar preocupado com a situação dos trabalhadores autônomos, defendendo que o Brasil não pode parar, ao mesmo tempo que nega os efeitos da doença, como se fosse somente de uma “gripezinha” e juntamente com os odiosos empresários burgueses, como Flávio Rocha e Junior Durski obrigam os trabalhadores a seguirem trabalhando sem nenhuma garantia de proteção e flexibilizando ainda mais os direitos. Os governadores, Maia e o congresso, buscam se colocar como alternativa e apresentam o isolamento social, sem a garantia de testes massivos, como a resposta no combate à crise. Em ambos os casos, nenhuma medida concreta para a vida desses milhares de trabalhadores precarizados, que todos os dias seguem arriscando suas vidas com o avanço da pandemia.

A Uber Eats disse que prestaria assistência financeira por até 14 dias aos motoristas e entregadores parceiros diagnosticados com coronavírus ou que tiverem quarentena decretada por autoridades de saúde. O Ifood anunciou a criação de um fundo de apenas 1 milhão de reais para os trabalhadores que precisarem entrar em quarentena, mas a única testagem anunciada é para entregas sem contato. A Rappi somente anunciou que seus pedidos aumentaram 30% desde a chegada da pandemia na América Latina. Ou seja, nenhuma dessas empresas tomou sérias medidas para proteger os trabalhadores do coronavírus, estão mais preocupadas e ampliar seus lucros agora que as entregas por aplicativos parecem ter se tornando uma função de trabalho essencial.

O racismo e capitalismo: séculos de exploração do trabalho negro precarizado em nome dos lucros

No século XIX em Salvador, homens e mulheres negros, escravizados ou libertos, eram os responsáveis pela entrega de alimentos e produtos nas casas dos senhores ricos, estipulavam com os patrões um preço e o pouco que sobrava poderiam ser embolsados por esses trabalhadores. Eram os chamados “negros de ganho”, ou “ganhadores”, responsáveis pela circulação de objetos e pessoas por toda cidade. Alguma semelhança com os trabalhadores de aplicativo do século XXI? Num país marcado por 400 anos de escravização do povo negro, a cor da pele sempre vai determinar a intensidade da exploração. O racismo nasceu junto com o capitalismo para justificar a escravização que gerava enormes lucros para a classe burguesa em ascensão.

A escravidão do século XXI agora é garantida por aplicativos de celulares. Para os milhares de trabalhadores precários, em sua maioria jovens negros, que precisam seguir trabalhando pelas ruas da cidade, de entrega a entrega, não existe outra opção, trata-se de uma necessidade vital de garantir a sua sobrevivência e a de suas famílias. Toda tecnologia e desenvolvimento científico que poderia ser colocada a serviço da liberação do trabalho e para potencializar o desenvolvimento humano, diante da crise sanitária que afeta todos os países do mundo, mostra os limites desse sistema em decadência. Ao invés de girar tudo para salvar vidas e combater o vírus, a tecnologia é usada para aprofundar a exploração e aumentar os lucros dos capitalistas.

Em 1957, esses trabalhadores negros protagonizaram a primeira greve do nosso país, paralisando o transporte na capital baiana durante vários dias. E se os jovens trabalhadores precarizados de aplicativo paralisassem suas atividades em meio a pandemia do coronavírus para lutar em defesa de suas vidas? Que são muito mais importantes e valiosas que os lucros dos capitalistas que nos exploram todos os dias.

Em defesa desses trabalhadores, é preciso que as grandes plataformas de aplicativo garanta imediatamente a distribuição de EPIs para todos eles, alcool gel, máscaras e todos os itens básicos de proteção, juntamente com a realização de testes massivos para que todos esses trabalhadores possam ter segurança de continuar seus empregos são coisas básicas. Para aqueles que pertencem aos grupos de riscos ou que ficarem doentes, deve ser assegurado o direito de se afastar com as empresas garantindo uma valor mínimo de R$ 2.000 para cada trabalhador, tomando como parâmetro uma aproximação do salário médio do trabalhador com carteira assinada. Para os que precisam continuar trabalhando, deve-se aumentar o valor recebido por cada entrega. Numa categoria que nem sequer tem um sindicato para os representar, uma questão básica para esse momento é a formação de comissões de higiene e segurança composta pelos próprios trabalhadores, elegendo seus representantes, uma comissão que seja responsável por fiscalizar se a empresa está garantindo todas os equipamentos básicos e disponibilizando testes para os milhares de trabalhadores inscritos nas plataformas, assim como pensar quais as necessidades básicas para seguirem trabalhando frente a esse novo momento. Medidas assim são parte elementar de garantir que esses trabalhadores possam ter suas condições de trabalho asseguradas, colocando em primeiro plano a vida e não os lucros das empresas.




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