Gênero e sexualidade

EMPREENDEDORISMO

Cooptação da miséria: o empreendedorismo e a luta contra a fome e o desemprego

Ao ligar a TV, assistimos em poucos segundos a história de uma mulher boliviana, costureira, que perdeu o emprego com a pandemia e passou a produzir máscaras. Ao fundo o jingle vai crescendo: Vae, vae, que a crise vem pra nos fortalecer!

Patricia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

segunda-feira 7 de junho| Edição do dia

Os comerciais de TV tentam se adequar aos novos tempos onde as mulheres ocupam quase a metade dos postos de trabalho, LGBTs participam de realitys shows, negras e negros assumem seus blacks ao vivo.

Esses "novos" tempos estão permeados por uma crise econômica, sanitária e social como nunca visto antes. São quase meio milhão de mortos pela covid-19 só no Brasil. O vírus escolhe cor, escolhe classe social. Entre as maiores vítimas estão negros, pobres, trabalhadores da linha de frente que não tinham a escolha de ficar em casa.

O desemprego cresce de forma alarmante e as principais atingidas são a mulheres trabalhadoras. Sem emprego, fazem o que podem para sobreviver. Produzir máscaras e montar uma barraquinha na frente do metrô, vender bolo de pote de porta em porta, se cadastrar em aplicativo de limpeza para trabalhar de diarista. O empreendedorismo propagandeado é na verdade a luta pela sobrevivência, pelo pão nosso de cada dia.

Além disso, dentro de casa, à portas fechadas e supostamente seguras do vírus, as mulheres sofrem os mais diversos abusos. O aumento da violência doméstica, os assustadores casos de feminicidios mostram que nenhuma de nós está segura nem dentro nem fora de casa. A jovem Vitóriafoi assassinada a facadas dentro de um shopping. Só nos dois primeiros meses da pandemia o número de feminicidios aumentou 22% de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O aumento da fome no Brasil, que atingiu índices recordes, faz suas vítimas entre mulheres e crianças, sobretudo entre a população negra. A história da mãe heróica que deixou de jantar para poder alimentar os filhos deixou de ser história do passado, que as avós contavam dos tempos difíceis que passaram, para se tornar a realidade de milhões de mulheres.

Nunca na TV se viu tantos LGBTs ocuparem o horário nobre. Seja em novelas, no BBB, em apresentações musicais nos programas dominicais da família brasileira, ou em comerciais de TV, agora para vender produtos do dia dos namorados, a bandeira com o arco-íris está em tudo. Até a Uber já coloriu o trajeto dos carros.

Mas o colorido da maquiagem, da propaganda de TV, vai tomando o tom vermelho sangue, do país que mais mata pessoas trans e homossexuais no mundo. Recentemente um jovem gay sofreu um estupro coletivo e tortura, um caso brutal de homofobia que está longe de ser um caso isolado. No ano passado, já na pandemia, uma mulher trans teve o coração arrancado e no seu lugar colocado uma imagem de uma santa. Nesse mesmo Brasil de trajetos coloridos, uma mulher trans vive em média até os 35 anos. Se a violência não as mata, a vida precarizada, a fome e a doença mata. Bem longe dos paetês, plumas e festa regadas a champanhe da TV.

E na tela da TV a miséria é oportunidade, a crise veio para nos fortalecer.

A campanha impulsionada pela Rede Globo e pelo Bradesco, a VAE (Vamos Ativar o Empreendedorismo) ocupa insistentemente os intervalos das novelas, com um jingle chiclete, que não desgruda da cabeça. Tudo parece bem simples. Perdeu o emprego? Abra seu próprio negócio! Com força de vontade você chega lá. No portal da campanha, no G1, sobram relatos de empreendedoras que, diante de uma situação adversa, deram a volta por cima. A ex-BBB Bianca Andrade, a Boca Rosa, que construiu um império de maquiagem. A empresária que abriu um rede de comida congelada fitness, depois de passar por um problema de saúde que a obrigou a readequar a alimentação. E os exemplos se multiplicam, até chegar na maior empreendedora, exemplo de mulher guerreira que quebrou o afamado teto de cristal: Luiza Trajano, fundadora do Magazine Luiza. A Luiza Trajano, sobrinha da Luiza que dá nome a rede que vende de tudo, venceu num mercado majoritariamente masculino. Hoje impulsiona projetos ligados ao empreendedorismo feminino. É a segunda mulher mais rica do Brasil, com uma fortuna de mais de 4 bilhões de dólares.

O Magazine Luiza já havia se destacado ao anunciar vagas de trainee exclusivamente para negros. Para denúncias de violência doméstica o aplicativo de compras do magazine criou, desde 2019, um botão para que as clientes possam fazer a denúncia de forma "segura". A empresária foi sagaz ao associar a sua marca ao crescente nicho de mercado do Black e Pink money. Não a toa chegou a ser cotada para ser vice presidente numa chapa encabeçada por Lula e frequentemente é premiada com honrarias de cidadã exemplar, empreendedora de sucesso etc. por alguma instituição.

Mas é preciso entender a fundo a receita do sucesso. O Magazine Luiza foi um dos primeiros empregadores a estabelecer contratos precários de horário intermitente, que fazia um trabalhador a vender seu tempo de trabalho de forma fragmentada. Pagando menos de 5 reais por hora, contratando um funcionário para trabalhar 3 ou 4 horas diárias (nos horários e dias de maior movimentação) o trabalho intermitente, aprovado com a reforma trabalhista de Temer, fazia com que um trabalhador ganhasse menos que um salário mínimo. A burguesia "progressista" que finge criticar Bolsonaro, que vomita ódio contra as mulheres, negros e LGBTs a cada pronunciamento, podem parecer mais ou menos disposta a trocar de presidente (por um militar não menos asqueroso que o atual), mas certamente não está disposta a abrir mão de nenhuma vírgula das medidas verde amarela aprovadas por Bolsonaro, Guedes e Cia. Um suposto candidato a presidente do centrão pode parecer menos machista que o atual presidente, e não seria difícil. Como Joe Biden dos Estados Unidos aparenta ser menos misógino que seu antecessor, Donald Trump. Mas aparência e essência não são a mesma coisa. Podem aparentar ser um mal menor, mas se mantém como legítimos representantes da classe que explora a maioria absoluta da população e, nesse sentido, qualquer passo a frente que dão em prol das demandas dos oprimidos, são dois passos para trás na luta pela nossa emancipação. A burguesia é capaz de nos ceder algumas demandas caríssimas como foi o direito ao voto feminino e reconhecer que existe uma violência específica sobre as mulheres. Mas fazem isso em prol de manter a ordem capitalista que depende da divisão das nossas fileiras, da exploração de homens e mulheres, depende do trabalho não remunerado de cuidado e das tarefas domésticas feito sobretudo pelas mulheres.

O império de Luiza e dos seus descendentes, que figuram entre os mais ricos do mundo de acordo com a revista Forbes, foi construído a partir da exploração do trabalho das mulheres trabalhadoras. Elas que estão nos call centers, nos caixas, na limpeza, na logística, ou seja, em tudo o que faz o Magazine Luiza ser um dos campeões do varejo. A tal garra empreendedora da Luiza Trajano se dá ao conseguir explorar ao máximo a classe trabalhadora. Esse é o segredo do sucesso. Sem a exploração do trabalho, sem a apropriação da mais-valia, o roubo legalizado do tempo do proletariado, não há lucro.

Uma trabalhadora que perdeu o emprego na pandemia e passa a costurar máscaras está bem longe de ser a Luiza. Tanto porque está lutando pra sobreviver diante de uma crise economia sem precedentes, que jogou milhões de brasileiros na miséria, quanto porque não vive de explorar ninguém. E esse simples fato, o de não explorar ninguém, ao contrário, ser explorada pelos patrões, abre um enorme abismos entre nós, mulheres proletárias, e elas, mulheres burguesas. O empreendedorismo alardeando pelas mídias e bancos burgueses para a nossa classe é luta pela sobrevivência.

A crise não veio para nos fortalecer. Ela é fruto da irracionalidade de um sistema que é capaz de produzir para saciar a fome de toda a população mundial, mas que lucra com a miséria. O capitalismo não é capaz de evitar as crises, que se tornam cada vez mais profundas e de proporções gigantesca, envolvendo todos os países do globo.

A sanha predatória dos capitalistas sedentos por lucros não se coloca contra às opressões. Ao contrário, busca cooptar as lutas, transformando as demandas dos oprimidos em mercadoria para ser consumida por quem pode pagar pela ilusão do empoderamento individual, pela liberdade provisória que o capitalismo concede aos poucos que chegaram ao topo. O capitalismo tenta nos impor um teto muito baixo para as nossas aspirações. Muito longe de qualquer teto de cristal, nos vendem gotas efêmeras de empoderamento convertidas em roupas, cosméticos e o que mais puder ser vendido. A opressão é bastante lucrativa quando vendida no varejo.
Mas é ainda mais lucrativa quando mantém dividida a imensa classe trabalhadora. Homens e mulheres, negros e brancos, efetivos e terceirizados, imigrantes e nativos que tudo produzem, divididos e explorados por uma classe inimiga.

Por isso é fundamental que os trabalhadores se coloquem como tribunos desses oprimidos, que fazem parte da nossa classe. Exigir que sindicatos e as grandes centrais sindicais tomem a luta das mulheres, a luta antirracista, defesa das LGBTs é um ponto fundamental para a unidade das nossas fileiras. Disputar a consciência dos trabalhadores, fazendo avançar na compreensão de que, oprimindo sua companheira, seu colega de trabalho homossexual, facilitam o trabalho da burguesia na manutenção da exploração.

Essa tarefa, a disputa da consciência dos trabalhadores, só pode ser tomada por um feminismo socialista que lute contra a exploração capitalista que impõe a opressão como regra. Golpear o sistema é uma tarefa do conjunto da classe trabalhadora, homens, mulheres, negras e negros, LGBTs.

Construir a unidade dos explorados e oprimidos pode mudar tudo. E as gotas miseráveis de ilusão de liberdade que o capitalismo nos fornece poderão ser convertidas em uma fonte infinita que abastecerá toda a humanidade.




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