Opinião

CONSERVADORISMO RELIGIOSO NO DF

Conservadorismo religioso se fortalece no poder e nos espaços do Distrito Federal

Em Brasília o conservadorismo cristão de direita está, para além das igrejas, em ofensiva nos acordos políticos e na intervenção direta com populares nos principais pontos de circulação da cidade. O deputado e pastor evangélico Rodrigo Delmasso é um nome que avança nessas três frentes em prol da reprodução ideológica reacionária em sintonia com a administração privatista e autoritária do governador Ibaneis Rocha.

terça-feira 24 de setembro| Edição do dia

“Religião é aquilo
que impede os pobres
de matarem os ricos”

Napoleão Bonaparte

“Honrai a todos.
Amai a fraternidade.
Temei a Deus. Honrai ao rei.
Vós, servos, sujeitai-vos
com todo o temor aos senhores,
não somente aos bons e humanos,
mas também aos maus.”

I Pedro 2:17-18

“Todos devem sujeitar-se
às autoridades governamentais,
pois não há autoridade
que não venha de Deus;
as autoridades que existem
foram por Ele estabelecidas.
Portanto, aquele que se rebela
contra a autoridade está se colocando
contra o que Deus instituiu,
e aqueles que assim procedem
trazem condenação sobre si mesmos.”

Romanos 13:1-2

Aos transeuntes da Rodoviária do Plano Piloto, Rodrigo Delmasso (pastor neopentecostal e deputado distrital pelo PRB-DF) e seguidores se apresentam genericamente como “campanha a favor da vida”, mas sob este jargão está o esqueleto da tática neopentecostal de disseminar seus interesses de dominação do comportamento e da subjetividade por meio de um quadro ideal absurdamente reacionário e limitador da vida humana. É notável seu oportunismo ao manejar a compressão de problemáticas tão variadas e para os quais ele certamente não tem solução plausível e nem mesmo sensibilidade para tratar. Aproveitador da repercussão do Setembro Amarelo (campanha de prevenção ao suicídio), o sacerdote se apoia nessa causa para abrir seu leque de conservadorismo falacioso de combate “ao aborto, às drogas, à pedofilia e ideologia de gênero”.

A manipulação e embaralhamento desses conceitos (equiparando monstruosidades* como pedofilia ao ativismo feminista e LGBT que ele chama de ideologia de gênero) é um dos principais esquemas discursivos que o segmento religioso conservador das alas direitistas recorre para validar seu proselitismo retrógrado como exercício de poder e enquadrando as massas num regime de previsibilidade e anestesia social – enquanto oferece a servidão à sua empresa espiritual como solução para questões que ela própria consagrou como pecado. Ele envenena os corpos para depois vender um falso bálsamo.

Subitamente o avanço da ideologia reacionária de certos líderes evangélicos se deu também em todas as regiões e em escala nacional e galgou espaços de privilégio no poder político, econômico, institucional e midiático. Para isso seus agentes aproveitaram-se da embarcação reformista dos governos petistas e depois foram um dos principais articuladores do golpe que naufragou o partido da grande conciliação de classes quando essa fórmula perdeu validade após as convulsões de protestos e greves a partir de 2013. Fortaleceram-se grandemente e patrocinaram as medidas autoritárias e unilaterais de Eduardo Cunha enquanto presidente da Câmara dos Deputados e hoje formam a principal base de apoio do bonapartismo de Jair Bolsonaro.

A religião classicamente exerce o respaldo ideológico desse regime de necessária acumulação de poder e serve a base metafísica e axiomática das instituições deslocando-se dos dogmas para a legislação (fato que se comprova inclusive no preâmbulo da constituição federal). O ativismo da direita cristã busca se consolidar como hegemônico nas superestruturas da sociedade em decadência e degradada por seus próprios sócios e colaterais na totalidade capitalista. Ativismo que se faz ainda mais urgente no contexto de crise orgânica e, entre as ruínas de seus próprios passos, busca legitimação na passividade popular diante do aprofundamento das medidas de exploração do trabalho, privatização dos serviços e espaços públicos e repressão social.

O Distrito Federal, pela sua própria peculiaridade de convergência política, potencializa uma contradição típica de crise orgânica; por um lado, a parceria com a ofensiva reacionária cristã e por outro, uma onda de despolitização e adestramento da juventude. A Igreja Sara Nossa Terra (da qual Delmasso é pastor) chegou a dar dinheiro para fiéis que se mobilizassem nas eleições de 2018 em apoio à candidatura de Ibaneis Rocha. Logo após o resultado vitorioso, o novo governador anunciou um seleto grupo de representantes evangélicos que seriam privilegiados com o recebimento de cargos de destaque e postos estratégicos no primeiro escalão do governo. Vale lembrar que essa mesma entidade em 2018 recebeu R$800 mil das mãos de Michel Temer em retribuição ao apoio da tentativa de reforma da previdência.

A necessidade de garantir uma base de apoio firmado na alienação religiosa é flagrante na administração de Ibaneis e, obviamente, não se restringe apenas ao setor neopentecostal ou evangélico. Ainda na primeira semana de mandato, foi anunciada a criação da Coordenação de Assuntos Religiosos, chefiado por Kildare Meira, advogado representante de interesses católicos que atuava na assessoria jurídica da arquidiocese de Brasília. No dia 10 de junho, Ibaneis recebeu no Palácio do Buriti o arcebispo metropolitano de Brasília Dom Sérgio Rocha e o bispo auxiliar Marcony Ferreira. Trataram, sobretudo, questões de execução das políticas públicas e de editais habitacionais no DF. No encontro o governador também garantiu que apesar do projeto de privatização de espaços públicos tradicionais como o ginásio Nilson Nelson e o Parque da Cidade, todos os eventos católicos que lá estão agendados serão mantidos.

Em agosto, Kildare e Ibaneis lançaram o programa Igreja Legal para favorecer entidades critãs e bases de assistência social com terrenos da Terracap (empresa estatal de regulamentação imobiliária em Brasília). Os terrenos serão pagos com “moeda social” e na prática incorpora entidades e funções de assistência social à núcleos cristãos desviando o trabalho que deveria ser dos assistentes sociais e setores especializados do estado.

Uma ideia que fatalmente resume essa situação foi pronunciada por Delmasso em vídeo divulgado por ele mesmo: “a minha igreja, no Setor Sudoeste, tempos atrás fez uma grande ação e 47 pessoas deixaram de se suicidar. [...] Um líder de célula da minha igreja, que tem 17 anos de idade, já salvou mais vidas do que qualquer assistente social pago pelo governo. [...] Eu lanço um desafio: um obreiro, um diácono de qualquer igreja já salvou mais vidas do que um assistente psicossocial do CAPS, pago pelo governo! Eu desafio e coloco aqui em números!”. Com essa declaração, fica explícito duas coisas; a primeira é que Delmasso é absolutamente incompetente para tratar de uma questão tão delicada quanto o suicídio, já que o impedimento de um ato suicida não é de forma alguma contabilizável tal como ele supõe e mesmo que fosse essa conta jamais deveria ser usada como capital para fazer concorrência com assistentes sociais. A segunda coisa é a nítida intolerância aos que exercem trabalho humanitário de forma separada da crença religiosa da qual ele, Delmasso, se utiliza para extrair lucro, poder e votos.

Ao longo do primeiro ano de mandato, Ibaneis já avançou com a militarização das escolas e anunciou a privatização de setores estratégicos (fornecimento de água e energia elétrica, rodoviária e metrô). Em agosto de 2019, reafirmou sua aversão ao que deveria ser um Estado laico, mesmo nos moldes tipicamente republicanos, ao subir no palanque da Marcha para Jesus (diga-se de passagem, ao lado de Bolsonaro). Aos 29 dias do mesmo mês, Delmasso publicou um vídeo comemorando ao lado do governador a manutenção da imunidade tributária das igrejas, o que favorece distribuição de vantagens e lavagem de dinheiro.

Marx descreveu a religião como “ópio do povo”. Pelos mesmos motivos, Napoleão Bonaparte, jogando no time adversário, afirmara que a mesma é o fator que impede os pobres de matarem os ricos. A legitimidade inquestionável de qualquer monarca sempre foi a ordem divina e, como indica a frase do imperador corso, esse fenômeno tem caráter de classe. Seu pensamento aqui é tão brilhante — talvez pela habilidade do poder e manipulação de massas — que reconhece até mesmo a potência real dessa façanha tão temida se concretizar caso seja rompido o véu da mentalidade idealista induzida pela classe dominante.

Napoleão também dizia que uma sociedade sem religião é como um navio sem bússola. Para suprimir esse vácuo e com sagaz metodologia contra a alienação, Marx indicará como orientação motora da sociedade o próprio sujeito da transformação social (os trabalhadores e sua organização de base) e a necessária busca por emancipação (num processo que, de certa forma, envolve a ideia de matar os ricos).

Nota do autor: A necessidade de escrever um texto crítico às questões religiosas se deve unicamente ao caráter político de uma parcela dos agentes cristãos que se promovem através da manipulação espiritual de seus seguidores para atingir objetivos espúrios e particulares. Em nenhum momento foi denotado críticas ou censura à religião cristã em si (nem mesmo aos neopentecostais), mas sim os específicos oportunistas que dela fazem uso. O autor manifesta-se e luta pela total liberdade de crença religiosa, desde de que não se interfira no poder público e nas urgências sociais.




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