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Conheça o programa da chapa "Um Canto de Revolta" para as eleições do CAELL-USP

Apresentamos aqui o programa da chapa "Um Canto de Revolta", que disputa as eleições para o CAELL, centro acadêmico da Letras-USP. A chapa é composta pelo coletivo Faísca e por estudantes independentes. Uma chapa que se propõe a construir um movimento estudantil que fortaleça a luta dentro e fora da universidade, junto aos trabalhadores.

sábado 1º de maio| Edição do dia

Os dois últimos anos estão sendo bastante atípicos e difíceis em todo o mundo, com especial destaque pro Brasil que se transformou no epicentro da pandemia mundial fruto do negacionismo genocida do Bolsonaro. No nosso curso de Letras, que não passa por fora dessa realidade, as dificuldades também se apresentaram. Vários estudantes estão sendo afetados material e psicologicamente pela crise econômica e sanitária em curso.

Muitos alunos estão sendo colocados à margem, em decorrência do ensino remoto implementado às pressas sem consultar estudantes e professores, deixando muitos estudantes prejudicados por falta de acesso à internet, equipamentos, área adequada para estudo e questões psicológicas e familiares. Com disparidade entre as disciplinas, cada dia era uma novidade, cada professor era um modelo de aula, uma plataforma online diferente... um grande desafio.

Para caloures que entraram agora, as dificuldades também foram muitas. As condições da educação básica pública durante a pandemia, a recusa do governo Bolsonaro em adiar o ENEM e as determinações absurdas do governo Doria de negar o direito de estudantes com suspeita de Covid à prova substitutiva da Fuvest. Tudo isso ficou gráfico nos altíssimos e históricos níveis de abstenção das provas. E como se não bastasse os estudantes serem submetidos ao filtro social e racial do vestibular, no caso de provas como o ENEM, ainda enfrentaram problemas com a plataforma do SiSU, levando ao adiamento da data dos resultados. Enquanto isso, a USP, com todo seu elitismo, sequer se preocupou com esses ingressantes e já iniciou as aulas sem eles, que sequer puderam participar das calouradas de seus cursos. Frente a isso, desde a atual gestão do CAELL, buscamos organizar atividades de recepção que pudessem integrar todes calouros ao nosso curso, professores e colegas, assim como debater sobre os desafios dos estudantes no país. Assim como em 2020, quando ainda pudemos ocupar a Letras com uma semana de mesas, debates, festas, música e resistência, em 2021 organizamos uma calourada virtual que reuniu diariamente centenas de estudantes em lives, apresentações do curso e dos departamentos, aula magna com a presença de ativistas, professores e trabalhadores, sarau dos estudantes, show, espaços de jogos e integração entre veteranes e os recém-chegados beletristas.

Sabemos como está cada vez está mais difícil entrar e permanecer na Universidade. A cada dia, somos mais jovens que estamos em postos de trabalho e estágios precários, que ao longo do ano passado não deram nenhum suporte, às vezes sequer garantindo nossa segurança em meio à pandemia, nos obrigando pegar transportes lotados e colocar a nós e a nossas famílias em risco.

É nesse panorama que nós, estudantes do coletivo Faísca - Anticapitalista e Revolucionária e estudantes não organizados, estivemos na gestão Pulso Latino do CAELL ao longo do ano passado e na gestão provisória deste ano. Nosso desafio foi imenso.

Em 2019, o Centro Acadêmico da Letras vinha de anos de esvaziamento e inatividade, em que a maioria dos estudantes sequer sabia que existia e para que servia um CA em nosso curso. Após os três anos de gestão da juventude do PT e do Levante Popular da Juventude, que também estão atualmente no nosso DCE, o caixa da entidade (cujo dinheiro pertence a todos estudantes) foi entregue com um rombo financeiro de mais de 38 mil reais sem explicação.

Fomos eleitos com um chamado de unidade para unificar as demais chapas de oposição naquele momento, porque entendíamos os enormes desafios que viriam com dirigir a entidade. Infelizmente as outras chapas, dentre elas uma composta pelo PSTU, não aceitaram esse chamado. Entramos na gestão com o objetivo de tornar o centro acadêmico mais ativo e envolvido com as questões de dentro e fora da Universidade, nos aliando com os trabalhadores e professores. Dentro de todas as limitações e dificuldades, acreditamos que demos passos importantes para isso.

Quando a pandemia começou, as indefinições do semestre tomaram conta do nosso curso, sendo debatidas em reuniões abertas que promovemos mensalmente, em lives com professores, em abaixo assinados organizados pelos estudantes que incentivamos e impulsionamos conjuntamente, e na produção de uma cartilha de demandas dos alunos diante da autoritária imposição do ensino remoto. Fizemos formulários para saber mais o que os estudantes queriam e estavam pensando, contando com centenas de respostas que nos ajudaram a pensar iniciativas. Nos reunimos com outros centros acadêmicos da FFLCH exigindo uma reunião com a direção da Faculdade e apresentamos as demandas dos estudantes da Letras, sendo um fator na flexibilização de datas do primeiro semestre. Seguimos em diálogo constante com os professores do curso, realizando duas plenárias conjuntas, uma em outubro e outra em março deste ano, nas quais os docentes ressaltaram a importância de espaços entre alunos e docentes, que não ocorriam desta forma há anos na Letras.

Também regularizamos o caixa da entidade com prestações de contas periódicas, recuperando a saúde financeira do CAELL após termos assumido a gestão com menos de 300 reais em caixa, e tendo realizado desde então duas calouradas.

A fim de combater a fragmentação neste momento, seguimos o compromisso de cumprir o papel do CA em manter o curso vivo diante dos acontecimentos da realidade que nos rodeou dentro e fora da USP, discutindo com professores e convidados em memória dos mortos na ditadura militar no aniversário de 57 anos do golpe, num debate que reuniu centenas; assim como o levante negro nos EUA e a luta antifascista e antirracista no Brasil, com sistemáticos vídeos do CAELL Informa falando sobre temas do curso e do mundo; com atividades sobre o breque dos entregadores de APP; com uma live no mês do orgulho LGBTQI+ em parceria com o Coletivo Todas as Letras; com um importante debate virtual que convidou terceirizadas para falarem sobre a precarização do trabalho e ensino na USP em parceria com o Coletivo Negro Cláudia Silva Ferreira.

O que sentimos na pele só confirma como para enfrentar todos os distintos ataques, precisamos estar organizados em unidade, em aliança com professores e trabalhadores. Hoje, mais do que nunca, precisamos de um CAELL forte diante de um governo Bolsonaro que ri de nossas mortes, e de governadores como Doria, que congelou a contratação de funcionários em estatais até o final deste ano, golpeou frontalmente a educação nas Universidades, cortando inúmeras bolsas de pesquisa principalmente das humanidades.

Acreditamos que tivemos iniciativas importantes no sentido de manter vivo o centro acadêmico, mas sabemos que, principalmente num momento de tantos desafios no marco da pandemia e das atividades remotas, não somos suficientes para dirigir a entidade sozinhos e por isso seguimos defendendo uma gestão proporcional, que garantiria uma maior democracia no CAELL. A proporcionalidade significa que o CAELL seja dirigido por todas as chapas que participam das eleições, assumindo a gestão proporcionalmente ao número de votos que recebem e representando todas as opiniões, podendo, assim, chegar às melhores sínteses em conjunto com o curso. A participação dos estudantes não pode se resumir a votar uma vez por ano na nova gestão. É fundamental que haja mais participação, que o CA seja vivo, plural e composto pelo maior número de pessoas, iniciativas e ideias.

Frente à situação reacionária que vivemos, fica evidente como precisamos nos organizar em base a debates políticos e de ideias entre todes estudantes para fortalecer a entidade, prezando por um movimento estudantil mais democrático e vivo. Fomos uma gestão eleita democraticamente e somos uma chapa de maioria de mulheres e LGBTs que não abaixarão a cabeça diante de ataques pessoais por dizermos o que pensamos. Para nós, a unidade do conjunto dos estudantes ao lado dos professores e trabalhadores contra os ataques que estão colocados é muito fundamental, o que não significa que não tenhamos diferenças importantes com os demais setores políticos que atuam no curso, como com o PT, cuja política mantém paralisadas grandes entidades estudantis, como o nosso DCE e a UNE, as centrais de trabalhadores, como a CUT, numa espera passiva para as eleições de 2022 enquanto hoje a população e os jovens se vêem esmagados entre o desemprego, os impactos das reformas econômicas dos golpistas e as milhares de mortes diárias. Mas também com os companheiros do PSTU, organização que apoiou o golpe institucional no Brasil em 2016, a Lava-Jato e a prisão arbitrária de Lula - e que hoje compõem uma chapa que concorre ao CAELL com um programa que não enxerga nossa entidade como uma potente ferramenta de resistência e organização dos estudantes contra cada um dos ataques que sofremos na mão da extrema direita e dos golpistas, algo tão necessário na dura realidade política que vivemos hoje.

É preciso lutar pela democratização da estrutura de poder dentro da Universidade. Enquanto estudantes sofrem com a falta de permanência, com a crise econômica e sanitária, a Reitoria mantém seus supersalários e faz eventos para empresas privadas como o boat show do ano passado, aglomerando milionários em meio à pandemia, colocando em risco os moradores do CRUSP, já afetados pelo descaso da reitoria com a falta de estrutura, de internet, alimentação adequada, água, fogões e máquinas de lavar. Por tudo isso defendemos que o auxílio permanência seja de um salário mínimo, assim como lutamos pela ampliação das cotas étnico-raciais proporcionalmente ao número de negros de cada estado, pelo acesso diferenciado das populações indígenas, pela implementação das cotas para transsexuais e para acabar com o filtro racial e social do vestibular, que impede a população negra e os filhos da classe trabalhadora de poderem estudar e produzir conhecimento na universidade.

Dentro e fora da USP, fica evidente como são as mulheres e negros os que mais sofrem com os ataques do regime golpista e com a pandemia. Seja com a falta de permanência, seja com os ataques ao trabalho, quando vemos o governo Doria e a reitoria não garantindo condições dignas aos trabalhadores do Hospital Universitário, que por muito tempo trabalharam sem EPIs, sem liberação do grupo de risco e sem vacinas. Quando quiseram demitir trabalhadoras terceirizadas deixando famílias na rua em meio à pandemia. Ou quando tentaram neste ano expulsar as famílias do terreno do Buracanã, ao lado da Favela da São Remo, área pertencente à USP, mas abandonada há décadas, para deixar famílias, que construíram nossa universidade com seu trabalho, sem ter onde morar em meio à pandemia e à crise econômica.

Mas são também essas mulheres e negros aqueles que menos abaixam a cabeça diante de tantos ataques. As trabalhadoras do HU se mobilizaram para conseguir vacinas e melhores condições de trabalho e nós estivemos apoiando ativamente essa importante luta desde o começo. As terceirizadas da Odontologia da USP não aceitaram a ameaça de demissão e com o apoio de professores, estudantes e centros acadêmicos como nós do CAELL, CAPPF (Faculdade de Educação) e CAP (Oceanografia), conseguiram reverter a dura situação. As professoras, que como muitos de nós da Letras que trabalham em escolas, se posicionaram contrárias ao retorno inseguro, ganhando apoio da população diante dos ataques do governo. Sem contar com os levantes e mobilizações que incendiaram o mundo contra racismo estrutural e a violência policial que matou George Floyd e João Beto; o machismo que violentou Mari Ferrer e que mata milhares todos os dias dentro de casa ou pelos abortos clandestinos.

Enquanto estudantes da Letras, precisamos nos inspirar nessas mulheres, negros, jovens e trabalhadores que têm demonstrado a força pra lutar e resistir ao bolsonarismo e ao autoritarismo do regime político do golpe institucional de 2016. Queremos um CAELL que organize os estudantes para debater e enfrentar toda precarização do nosso curso, da USP e de nossas condições de vida, mas que também possa nos colocar ao lado, em solidariedade ativa, a todos os setores mais precarizados pelos governos e pelo regime golpista, e que hoje estão fora da Universidade, como as centenas de famílias que ocupam o terreno na São Remo pelo direito à moradia e os milhões de jovens em nosso país que são separados do ensino superior público pelo vestibular, ainda mais excludente e racista durante a pandemia. A Pulso Latino nasceu de querermos incendiar os estudantes com a força e a coragem dos processos de luta que ocorriam na América Latina em 2019. E hoje, nossa chapa Um Canto de Revolta quer se apoiar na força desses movimentos que vieram despontando para responder a toda a situação que vivemos hoje.

As universidades, diante da pandemia, têm um grande desafio a cumprir na sociedade, apesar de quererem limitá-las à fonte de lucro das empresas. Estudantes, professores e funcionários das Universidades estiveram à frente do combate ao projeto de educação de Bolsonaro em maio de 2019, arrancando vitórias e fazendo o governo recuar, assim como em muitos outros momentos da história, como vimos na mesa sobre os 57 anos da ditadura que fizemos há algumas semanas com professores e intelectuais de peso. Bolsonaro chama os CAs de ninhos de rato e as Universidades de balbúrdia, justamente porque sabe da potência que temos. O momento exige nossa unidade para construir entidades estudantis fortalecidas contra Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas!

Chamamos todes a fazerem parte desse projeto de fortalecer conosco uma concepção de entidade viva, cultural, política, democrática, proporcional e aliada aos trabalhadores.

PROPOSTAS:

• Manter o CAELL Informa com maior periodicidade
• Como proposta dos estudantes: construção da biblioteca virtual e coletiva do CAELL
• Aulão construído por todes para o ciclo básico e disciplinas obrigatórias
• Formulários mensais de opinião, para levantamento das demandas e necessidades dos estudantes
• Congresso dos Estudantes da Letras: passado um ano de pandemia, consideramos que é possível construir um forte espaço conjunto
• Aliança e apoio aos coletivos: mais lives e atividades conjuntas!
• Web rolês mensais: diante da falta de presença física, vamos nos apoiar
• Semana da Letras: com professores e rodas de conversa sobre o curso, visando o debate de estudos da língua e da literatura.
• Cinedebate todo fim de mês, como fizemos nas últimas duas calouradas!
• Continuidade das prestações de contas periódicas e transparência com as finanças da entidade.

BANDEIRAS:

• Em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, que seja controlada e esteja a serviço da população pobre e trabalhadora. Contra os ataques do Bolsonaro, de Doria e todos os golpistas.
• Contratação de funcionários e professores necessários, com reposição automática, sem contratos precários, em regime de dedicação exclusiva.
• Por permanência estudantil para toda a demanda: auxílio permanência de um salário mínimo. Ampliação do CRUSP, começando pelos blocos K e L e sua revitalização. Creches em todas as faculdades para as estudantes e trabalhadoras mães.
• Em defesa do Hospital Universitário: todo apoio à luta dos trabalhadores por direitos!
• Por um CAELL que organize a Letras junto aos jovens e trabalhadores precarizados, de dentro e fora da Universidade.
• Proporcionalidade na gestão!
• Unidade com os professores e trabalhadores: apenas juntos podemos defender a USP e a educação.
• Ampliação e defesa das cotas étnico-raciais e implementação das cotas trans rumo ao fim do vestibular, para que toda a juventude tenha direito à universidade pública, gratuita e qualidade
• Efetivação todas as terceirizadas sem a necessidade de concurso público
• Contra o “Estatuto de Conformidade de Condutas da USP”! Pelo direito à organização de todes contra as imposições da Reitoria machista e racista
• Atualização das plataformas virtuais (e-aulas e jupiterweb), mediante experimentação e aprovação da comunidade universitária: basta de problemas técnicos que só prejudicam!




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