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IV CONGRESSO DO MRT | Congresso do MRT debate balanços e perspectivas para a classe trabalhadora no país

2º dia do IV Congresso do MRT também foi marcado por debate rico em torno dos caminhos da luta de classes no país e como fazer para que os focos de resistência e lutas embrionárias possam se desenvolver em lutas maiores, a fim de impor maior resistência aos ataques de Bolsonaro, militares, congresso, STF e buscar uma saída à pandemia.

domingo 25 de abril | Edição do dia

Diana Assunção, dirigente do MRT, abriu o ponto de balanço e orientação de partido durante a tarde do último sábado (24) e pontuou alguns elementos da política do MRT do último período e apresentou caminhos para a luta de classes e o trabalho da organização no próximo período. No 1º dia, o Congresso se debruçou na situação internacional e as lições da luta de classes na França e na Argentina. No início do 2º dia, debatemos a complexa situação nacional de crise econômica e pandêmica no Brasil. Elencamos aqui alguns trechos apenas, como se pode ver abaixo:

"O ponto nacional sintetizou nossa análise da situação: uma situação reacionária com baixa luta de classes. Isso é fundamental pra pensar nossas tarefas. Ontem pudemos ver a nossa atuação como Fração Trotskista na França nos últimos anos, com uma alta intensidade de luta de classes, que permitiu uma construção dinâmica do nosso grupo lá. Mas a chave da construção foi também pensar a relação entre a situação política, a luta de classes e nossas tarefas. O ponto nacional também definiu nossa política diante do governo Bolsonaro e do regime do golpe, nosso programa diante da pandemia e da crise econômica e seus efeitos, como a fome. E abordou a tática de frente única operária e como temos que articular em discurso político.

(…)

Acho que devemos começar pela discussão sobre o ânimo da nossa classe e a situação da vanguarda. Creio que aqui há duas questões: estamos analisando que há uma baixa luta de classes na situação, também frente a pandemia, e que há nas massas desespero e baixas aspirações, construída pelas derrotas de lutas contidas, traídas e não dadas pelas burocracias, e na vanguarda um ceticismo profundo da nossa classe. E é preciso ressaltar que essas direções, essas burocracias traidoras que impedem que os setores mais atingidos realmente saiam a lutar, também temos que ver o papel que cumprem as igrejas e ong´s que atuam também como contenção permanente às explosões sociais. Isso reafirma as tarefas preparatórias por um lado, mas por outro, nos faz ter a leitura de que o nível de crise econômica, pandêmica e da situação de fome coloca muita instabilidade para o governo e pode abrir cenários mais disruptivos, que passe por cima da contenção que as burocracias estão tentando fazer para jogar todo descontentamento para a via eleitoral de 2022.

(…)

Em um cenário de baixa luta de classes, num cenário de tentativa permanente de divisão da nossa classe entre os que ficam em casa e os da linha de frente, nós somos os fanático dos processos embrionários da luta de classes, os focos de resistência da classe operária, dos setores mais explorados, os que passam fome. No último período, jogamos nossos corpos e energia para fortalecer os processos de luta em vários lugares do país, como a greve na Odontologia e no Hospital Universitário da USP, a luta dos operários da Ford de Taubaté, a ocupação do CCBB em Brasília, a greve das fornecedoras da LG em São José dos Campos, a paralisação parcial do Trensurb em Porto Alegre, a forte luta das merendeiras do Rio de Janeiro, para ficar em algumas. Devemos quebrar a cabeça para pensar possibilidades de coordenação entre todas as lutas.

O Esquerda Diário como organizador coletivo é um elemento central da nossa orientação também nesse sentido. Precisamos de um jornal que consiga dar uma "unidade de propósitos" das lutas parciais, ou seja, uma finalidade política para transmitir essas lutas e os pontos que defendemos como a unidade, a coordenação das lutas, auto-organização e hegemonia operária, ou seja, um jornal que busque uma estratégia para potencializar essas lutas.

(…)

Como sabemos a agitação é fundamental para escutar e entender o estado de ânimo de setores mais amplos do movimento de massas, medir como recebem nossas consignas, melhorar o diálogo, ver as tendências que começam a aparecer da realidade concreta da classe trabalhadora e dos setores populares etc. Como dizia Trótski "O funcionário de um partido revolucionário deve ter em primeiro lugar um bom ouvido, e somente em segundo uma boa língua”.

Após a fala inicial de Diana, uma série de intervenções foram feitas expressando reflexões do mundo operário, da juventude, da luta antirracista no país, das universidades e distintos estados a fim de preparar a política do MRT daqui pra frente. Destacamos alguns trechos.

Letícia Parks: Nós, enquanto MRT, buscamos disputar o conteúdo de uma fração proletária e revolucionária do movimento negro. Queria recuperar uma definição de que a luta contra a opressão racial não é somente um problema de hegemonia da classe operária em relação aos povos oprimidos, mas é também um problema de unidade da classe trabalhadora, dividida por essas separações que os capitalistas criam entre nós. Nesse sentido não existem dois mundos separados entre a luta negra e a luta da classe trabalhadora, esse é fundamentalmente o nosso conteúdo que é aliado ao marxismo e ao trotskismo. Imaginem a força que esse conteúdo proletário da luta negra, que nos EUA mostrou alguns desenhos do que poderia ser, o que poderia ser num país como o nosso frente a um processo de luta de classes mais profundo? É para isso que nos preparamos. Não para as eleições.

Sergio Estavan, professor da rede pública de São Paulo: “Na educação em nossa intervenção ao longo da pandemia até hoje buscamos expressar nossa política a partir de eixos que consideramos fundamentais na nossa política de conjunto. Nossa atuação em SP, em defesa da unidade da classe trabalhadora, impulsionamos um abaixo-assinado, convocando diversos setores da esquerda, em defesa das trabalhadoras terceirizadas das escolas demitidas por Doria, no início da pandemia. Assim como denunciamos o abandono dos mais de 35 mil professores categoria O e eventuais do Estado de São Paulo, sem salários por meses. Impulsionamos comitês virtuais do Esquerda Diário com educadores, dando voz a esses trabalhadores, apostando em todo o potencial da categoria como tribunos do povo. Também atuamos na antidemocrática eleição do SINPEEM, conformando uma chapa do Movimento Nossa Classe Educação, batalhando por uma perspectiva de unidade com independência de classe com os demais setores da oposição. E ao fim do processo levantamos um chamado pela conformação de um polo antiburocrático com os trabalhadores e os setores da oposição. Por fim, viemos atuando nos processos de luta e greve dos trabalhadores da educação estadual e municipal de São Paulo contra o retorno inseguro das aulas, sob mando de Doria e Covas, tendo como eixo de nossa atuação a centralidade da classe trabalhadora para responder a crise sanitária, econômica e da educação. Por isso defendemos que deve ser a comunidade escolar, junto aos trabalhadores da saúde a defender como e quando as aulas presencias voltarão, a partir comissões organizadas em cada bairro. Assim como, numa perspectiva de atuarmos como tribunos do povo e de unidade da nossa classe, se ligando às demandas mais elementares de toda a comunidade escolar e de todos os trabalhadores das escolas, efetivos e terceirizados, defendemos que também lutemos por demandas como auxílio emergencial de ao menos um salário-mínimo, vacinas para todos com a quebra das patentes e para que as famílias tenham acesso a equipamentos e internet para acessarem o ensino remoto.”

Bianca Rozalia: “Viemos atuando muito fortemente no conflito da LG, em especial da greve das trabalhadoras fornecedoras para a LG. Estivemos lá todos os dias com o Esquerda Diário, permitindo as trabalhadoras divulgarem suas denúncias e discutindo com elas quais os próximos passos para a greve. Viemos também discutindo com as trabalhadoras sobre a necessidade da união entre efetivos e terceirizados, uma união que não é discutida hoje pela direção do sindicato. Organizamos junto das trabalhadoras terceirizadas para os trabalhadores efetivos foi no sentido de buscar essa unidade, de disputar a consciência dos trabalhadores e buscar uma frente-única com o PSTU, que dirige o sindicato.”

Larissa Ribeiro, metroviária de São Paulo: " A gente vem dando exemplos no Metrô de SP, como a luta dos transportes e a possibilidade de unificação que se colocou no último dia 20 em torno das vacinas, e a luta política contra a traição das burocracias da UGT, CUT e CTB. Mas também com a esquerda que se negou a denunciar essa traição, em defender vacina para todos e uma coordenação de base dos trabalhadores dos transportes. Uma luta que teria o potencial de ter se ligado à batalha das fornecedoras da LG que o próprio PSTU dirige.

Por isso propomos fazer um resgate da história de luta da categoria, com um sentido preparatório de como os metroviários só podem confiar nos seus próprios métodos de luta pra vencer, e também em luta política com a burocracia, mas também com a esquerda que vem expressando esse ceticismo com a classe trabalhadora. Isso também ligado em como o Esquerda diário consegue expressar nossas batalhas com a unidade com os entregadores, a defesa das terceirizadas e o programa de efetivação e a defesa da paralisação dos serviços não essenciais, ligando com a superlotação do transporte. Por fim, todas essas batalhas precisam se ligar com uma resposta política de assembleia constituinte livre e soberana, porque os trabalhadores buscam uma resposta política e não podemos deixar nas mãos dos reformistas e dos centristas a saída do impeachment, que no final é expressão do mesmo ceticismo com a classe trabalhadora como sujeito."

Adailson Rodrigues, ex rodoviário de Porto Alegre: "Aqui no Brasil temos uma situação reacionária diferente da França e da Argentina, aqui temos uma pandemia em curso que está tirando a vida de milhares todos os dias, o bolsonarismo reacionário. Temos uma burocracia, PT, PCdoB e suas centrais jogando contra a classe trabalhadora, se fazendo uso de uma situação que está prejudicando a vida da classe trabalhadora pra frear as lutas, todas as lutas hoje se resumem à frente parlamentar ou ao judiciário. Boa parte das lutas hoje se encaminham pra frente parlamentar onde o PT joga confortavelmente. O próprio Lula agora saiu de uma enrascada que era injusta, mas isso não nos leva a defender a política petista que freia a classe trabalhadora, atrasa a classe trabalhadora. Se a gente girar nossas energias para o universo da esquerda brasileira, a gente vai se afundar. Estamos reunindo aqui, muitos precarizados, gastando nosso tempo durante o fim de semana, e não podemos fazer tudo isso pra no final das contas capitular pro PT ou suas adjacências e sua órbita. Defendo uma posição que leve ao fim e ao cabo a classe trabalhadora ao enfrentamento. Lula está fazendo acordos e construindo sua candidatura pra 2022 mostrando que o caminho é a continuidade do regime do golpe."

Odete, estudante da UFMG. O peso da situação reacionária se aprofunda na universidade através do EAD. Há uma divisão muito grande entre aqueles que são impedidos de entrar nas universidades por conta do vestibular e os que estão sofrendo com o ensino remoto. Uma parcela muito importante dessa juventude tá sendo expulsa pela política do governo federal do Bolsonaro que corta orçamento pra educação, mas também pelos golpistas que aprovam a PEC do fim do mundo de congelamento dos gastos, e também pelos políticos e governadores que fazem demagogia em relação às universidades mas junto com as burocracias universitárias não garantem a permanência para esses estudantes. Nossa política na universidade tem que ligar essas orientações, batalhar contra essa divisão que existe entre a juventude.

A pandemia criou duas grandes dificuldades para os revolucionários atuarem nas universidades: se afastar do trabalho de base (temos que dar um giro às bases). O Esquerda Diário é uma ferramenta que pode ajudar a se ligar aos estudantes. Outras grandes pressões existentes na universidade: o populismo e o anti-intelectualismo, como vemos em organizações da oposição de esquerda da UNE. Muito importante nos ligarmos aos processos de vanguarda de resistência da classe trabalhadora, e é muito importante também construírmos uma juventude profundamente ligada com esse setor da juventude que está vendo sua vida cada vez mais precarizada. Temos que buscar unificar os setores da juventude universitária com os setores mais precários e condenados ao telemarketing e ao trabalho precário. A sensibilidade que existe na juventude com relação aos temas das opressões, como o machismo e o racismo, pode ser um grande ativo para despertar a consciência da classe trabalhadora, que é majoritariamente negra e feminina, e ela avançar para que se reconheçam enquanto si. Isso é uma grande reflexão que devemos levar a frente.

Babi Delatorre, trabalhadora do Hospital Universitário da USP: "Esquerda Diário é uma superestrutura que ajuda aos revolucionários a fazerem política para diferentes categorias. Nesse sentido, nossos instrumentos operários ajudam bastante na atuação nossa enquanto tribunos do povo, de discutir com a classe trabalhadora mesmo sem ter luta de classes, debatendo o cotidiano, ajudando a moralizar e sair do senso comum, bem como apontar alternativas da classe para tirar conclusões dos grandes acontecimentos nacionais. Nossos instrumentos ajudam a orientar os conflitos em curso, como o da Ford e o da LG, fábricas cujos trabalhadores estão sendo ameaçados de perder tudo. Observando o conflito da Ford, começamos a observar uma mudança na subjetividade da classe trabalhadora. Muitos camaradas começaram a observar, semanas atrás, mudanças na subjetividade da classe operária. No início do conflito da Ford, a burocracia sindical tinha legitimidade entre a categoria e estava levando a categoria para trás da burguesia e resolver os problemas num embate entre Bolsonaro e Dória, na estratégia de frente ampla que o PT vem defendendo. O desenvolvimento desse processo gerou crises e levou à formação de um grupo de 200 trabalhadores que deram o nome para o grupo de Movimento Revolucionário de Trabalhadores da Ford, um exemplo brutal do avanço de consciência, ainda que embrionário, pode chegar. A classe operária é forte numericamente no país e a burocracia sindical ainda é um forte elemento de contenção de classes, mas processos como esses podem ajudar no questionamento da burocracia sindical. Daí a importância de lutar pela unidade da classe contra a política divisionista da burocracia, que divide efetivos e terceirizados, que leva os trabalhadores a uma política que não se enfrenta com o regime político."

Marcelo Tupinambá, dirigente do MRT, fechou o segundo dia expressando algumas das fortalezas que temos enquanto organização para pensar as perspectivas daqui pra frente. Confira trechos de sua fala:

"Estamos falando de uma situação de baixa luta de classes no país, com processos muito moleculares no movimento operário. Mas como Diana expressou, somos fanáticos da luta de classes. Cada processo que surgir temos que ir no limite, refletir bem se é possível encampar políticas de coordenação das lutas e focos de resistência em curso. A partir dos avanços teóricos que temos com elaborações da FT, do Manifesto da FT, em base às reflexões dos comitês de ação na França, como isso tudo nos permite pensar nossa orientação em outro patamar? Isso tudo não é fácil, inclusive porque parte da esquerda não cumpre nenhum papel na luta de classes, nesse momento boa parte da esquerda está fazendo live com a Joice Hasselman. Queremos ser um fator na esquerda que obrigue a esquerda a cumprir um papel na luta de classes. Queremos dialogar com setores que são sensíveis à luta de classes.

Muito importante fortalecermos o trabalho ideológico na universidade, em combate ao populismo e anti-intelectualismo. É fundamental o anseio por debater com alguns dos principais quadros intelectuais do país, bem como o debate da luta de ideias na universidade com outras correntes acadêmicas, colocar o marxismo revolucionário em combate de ideias do pós-capitalismo e outras tendências. Marxismo é uma ciência revolucionária da qual buscamos resgatar seus fios de continuidade. Ao mesmo tempo, buscamos ser a voz dos setores mais oprimidos dentro das universidades, tentar sensibilizar os estudantes com a realidade dos trabalhadores que não possuem direito à quarentena, sabendo dialogar com todos os setores.

O Esquerda Diário foi visto durante um bom tempo como o setor mais consequente na luta contra o golpe, então crescemos muito nesse período. Nesse momento, estamos cavando um espaço para dar visibilidade às denúncias operárias, ao combate dos setores bonapartistas do regime golpista (que boa parte das organizações de esquerda não combatem), e ao tema das opressões e avançando com muita qualidade no nosso instrumento. Queremos fazer do Diário também uma ferramenta para fazer grandes debates na esquerda sobre os problemas de independência de classe fundamentais no país. Queremos avançar ainda mais no público dos setores mais golpeados pela crise, dos mais precarizados, constituindo nosso Diário mais como tribuno do povo, ocupar um espaço mais social. Viemos avançando nesse sentido com as denúncias operárias, e devemos ligar mais essas elaborações com uma estratégia de auto-organização, de unidade contra as burocracias sindicais e para que esses setores se imponham, dar vazão ao diálogo com os setores mais oprimidos da classe localizando no marco da nossa batalha contra o regime de conjunto. Por último, todo o debate do Congresso veio para confirmar a ideia de que os quadros são a espinha dorsal da organização, que a experiência de debater a perspectiva internacional da FT, os debates pré-congressuais e o próprio Congresso é um avanço nesse sentido. Mais ainda numa situação reacionária em que estamos, onde as oportunidades da luta de classes são muito poucas, esses debates também são fundamentais para formação de quadros e avançar nas tarefas preparatórias."




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