Cultura

LANÇAMENTO

Companhia do Latão lança filme e CD de Ópera dos Vivos

No dia 27 de maio, a Companhia do Latão fez a primeira exibição pública do filme feito com base em sua peça Ópera dos Vivos, ao lançar o DVD e também um CD com as músicas da peça, na Maria Antonia. O evento contou com a partipação do diretor Sérgio de Carvalho, diversos atores da companhia e do músico Martin Eikmeier, que apresentou o CD.

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 4 de junho de 2015| Edição do dia

A Companhia do Latão é, hoje, um dos mais importantes grupos do cenário do teatro de grupos em São Paulo, que há cerca de duas décadas vem colocando um teatro político e desafiador em pé. Foi uma espécie de “precursora” do movimento, tendo à frente o diretor e professor da USP Sérgio de Carvalho, e colocando em cena um teatro de forte inspiração brechtiana e que se propõe a trazer temas políticos de relevância e atualidade para o público.

Conforme disse Carvalho no lançamento realizado, “Ópera dos Vivos” é uma das mais importantes peças que o grupo realizou até hoje, tendo envolvido um trabalho de pesquisa e elaboração teatral de muitos anos, que se iniciou em 2007. O lançamento do filme e do CD, bem como do livro em dezembro do ano passado, são um esforço para deixar registrado esse trabalho que, segundo o diretor, provavelmente não será mais encenado. A peça, um ambicioso estudo teatral em quatro atos, reúne temas abrangentes e fundamentais que têm pautado a produção não apenas da Cia. do Latão, mas de diversos grupos de seu entorno. O que predomina é o da ditadura civil-militar que assolou o país, e que é abordado pelo grupo por diferentes aspectos.

O primeiro ato trata do movimento poderoso das Ligas Camponesas de início dos anos 1960, que representou um grande avanço da luta de classes no campo brasileiro. Retratando uma propriedade rural, traz como personagens trabalhadores agrícolas, uma militante comunista que se muda para a comunidade sob o disfarce de professora, os proprietários rurais e uma jovem estudante americana que faz parte dos “Peace Corps”, uma missão civil patrocinada pelo governo americano que enviou cerca de 40 mil “missionários” ao Brasil com o propósito de combater a "influência comunista" atuando das mais diversas formas. Em sua passagem para a tela, o que há de mais rico nesse ato é a mistura dos atores profissionais do grupo com os habitantes do assentamento onde realizaram a filmagem, que participaram atuando e na produção técnica do filme. O contraste que se faz na tela lembra os dilemas colocados por Augusto Boal em suas narrativas sobre as origens do Teatro do Oprimido, em que camponeses questionavam os atores sobre porque não usavam armas de verdade para combater o latifúndio ao invés daquelas armas cenográficas. Também é difícil deixar de lembrar de “Cabra Marcado para Morrer”, cujo projeto original era justamente o de retratar nas telas a história do lutador camponês João Pedro Teixeira com os próprios moradores do Engenho da Galiléia. Assim, em mais de um sentido a Cia. do Latão resgatada as fabulosas experiências estéticas e políticas dos artistas dos anos 1960, tão brutalmente dilaceradas pelo golpe.

E é essa interrupção sangrenta, consequência da contrarrevolução de 1964 no campoe da arte, o outro grande tema de Ópera dos Vivos. O segundo ato foi o único que se manteve, pois, já na peça ele era em formato de filme. O centro aí está numa alusão à história de Roberto Marinho e da criação do império da Globo, e, ainda mais, num romance entre uma atriz de esquerda e um burguês, que constitui uma interessante alegoria à estratégia política do PCB. Esse partido, com uma influência de massas no período pré-golpe, apostava na estratégia da conciliação de classes, na formação de uma “frente popular e nacional” com setores supostamente progressistas da burguesia. Tinha uma relação ambígua com o governo nacional desenvolvimentista de João Goulart, mas terminava colocando seu tremendo peso social a reboque do presidente e seu projeto político, o que deixou os trabalhadores de mãos atadas para resistir ao golpe. Há ainda uma alusão crítica a Glauber Rocha, como um artista que procurava financiar sua “arte revolucionária” com “burgueses traidores de classe”. Um ridículo que prenuncia o que virá no próximo ato...

O terceiro ato da peça também é retratado de forma bastante fiel à peça (ainda que com algumas inserções novas que tornam a discussão política mais clara, explícita), e expressa, por meio de um show, a decadência política dos artistas. O alvo da paródia são os tropicalistas e sua postura “rebelde” anti-política, relativista e “descolada”. Aí vemos o tom da discussão sobre a arte no período da ditadura que é feita magistralmente pela professora Iná Camargo, pesquisadora teatral que remonta em seu livro “A hora do teatro épico no Brasil” a forma como o retrocesso político seguido ao golpe foi acompanhado de perto por um recuo imenso no campo estético. A tropicália é uma representação disso, e aparece retratada mordazmente pela Ópera dos Vivos.

Por fim, o último ato é o retrato das heranças da ditadura, não apenas no campo artístico, com a industrialização e esterilização completa da arte, a hegemonização do pensamento novelístico global, mas também na subjetividade dos artistas. O discurso de que a ditadura é um passado que não precisa ser lembrado é o que dá o tom das conversas, além dos que, impregnados do espírito relativista pós-moderno, recheiam de histórias de amor e sofrimento humano o mito preferido da burguesia de que “todos estavam errados”: militares, burgueses, torturadores de um lado, e guerrilheiros, combatentes, militantes de outro. O triste retrato do ator que, num lampejo de nostalgia, se apega a um passado com convicções é derrubado pelo trator da realidade, onde o indivíduo se mostra pouco capaz de resistir às engrenagens. Mas ainda há esperança. E, brilhantemente, o Latão não coloca essa em um ator idealista, mas sim na cozinha, na trabalhadora que, ainda que de maneira defensiva, diz um sonoro “não”: não servirei de enfeite, de penduricalho, a essa novela ridícula do mundo.

Felizmente, nesses documentos produzidos em livro, CD e DVD, temos preservada uma obra que reúne em si um panorama político e estético, um balanço lúcido de quem está de pé e não desiste da luta, mas encara com sobriedade as derrotas do passado e os desafios de um presente que ainda nos esmaga. Que eles possam ser difundidos, divulgados, assistidos, comentados, debatidos, porque essa história é nossa e precisamos nos apropriar dela criticamente para podermos seguir adiante sem cometer os erros do passado e sem esmorecer.




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