Opinião

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Como o coronavírus afetará a economia global?

Ariel Slipak, economista e docente, conversou com La Izquierda Diario (edição argentina da rede internacional de jornais da qual o Esquerda Diário faz parte) sobre os efeitos do COVID 19 no cenário mundial. Opiniões dos especialistas Nouriel Roubini e Michael Roberts.

sexta-feira 28 de fevereiro| Edição do dia

O coronavírus ou COVID-19 surgiu no final do ano passado na China, expandiu-se e já afeta 50 países do mundo, com novos casos de contágio e mortes na Ásia, Europa e o primeiro paciente confirmado no Brasil.

Nesta semana, as bolsas de valores do mundo entraram em colapso diante dos temores da epidemia e de seu possível impacto na economia mundial.

La Izquierda Diario conversou com Ariel Slipak, economista e professor, sobre os efeitos do COVID-19 na economia. Slipak integra a Sociedade de Economia Crítica (SEC), o Instituto Argentino de Desenvolvimento Econômico (IADE) e o Grupo de Geopolítica e Ativos Naturais da IEALC-UBA.

Além disso, reproduzimos trechos do economista marxista Michael Roberts, publicado em seu blog, e do economista Nouriel Roubini, publicado no Financial Times.

“Os impactos são diferenciais de acordo com as classes sociais”

Ariel Slipak sustenta que "em primeiro lugar você precisa avaliar se o vírus continuará se espalhando ou se vai estagnar para poder fazer grandes projeções". A partir dessa consideração, o economista explicou que “existem vários efeitos que já podem ser encontrados. A República Popular da China é o primeiro emissor global de turistas, alguns dos países que recebem mais turismo da República Popular da China são a Austrália, Nova Zelândia, mas também a Europa e os fluxos turísticos do país asiático são vistos na América Latina, então isso tem impacto sobre o ingresso de dívisas".

Por outro lado, Slipak disse que se pode observar "a suspensão de espetáculos esportivos na Europa, o fluxo global de turismo também está freando".

"Também é importante ter em mente que o consumo na China está desacelerando, além da produção, portanto, na medida que o consumo diminua, é provável que se possa esperar uma demanda menor por alguns produtos primários extrativos", acrescentou o especialista.

Slipak alertou que “o estancamento da produção em diferentes partes da China faz com que algumas cadeias de suprimentos sejam cortadas. Hoje, a China é um fornecedor global para a economia norte-americana e alemã e são produtos de alta complexidade tecnológica”, isso implica que, a curto prazo “se busquem fornecedores alternativos, o preço desse tipo de produtos também poderá subir ”. O economista disse que "poderia haver uma mudança pelo menos em curto prazo nos preços relativos que prejudicaria alguns países da América Latina".

Slipak alertou que é importante ter em mente que "os impactos são diferenciais de acordo com as classes sociais". O economista disse que é popular o ditado "cada crise é uma oportunidade", a economia global vai desacelerar e enfatizou que "a classe trabalhadora deve estar organizada, pensar com quais estratégias como classe nos vamos plantear diante das pressões de diferentes formas capital para continuar a precarizar as condições de trabalho”, já que esse tipo de situação de pânico poderia gerar “a capacidade de determinados atores relacionados ao capital a fim de aumentar a taxa de lucro e prejudicar as condições de trabalho da classe trabalhadora”.

Coronavírus: "Um dos choques negativos que afetarão a economia mundial este ano"

Por sua vez, o economista Nouriel Roubini publicou no Financial Times que a previsão de que "o impacto econômico atingirá seu pico antes do final do primeiro trimestre agora parece muito instável".

Roubini disse que “os danos à China são graves e as cadeias de suprimentos globais são seriamente afetadas, num momento em que a China representa aproximadamente 20% do Produto Interno Bruto Global, e não os pequenos 4% que tinha o país no momento do Sars em 2003”. Além disso, devemos acrescentar o "choque econômico para grandes economias como Japão, Coréia do Sul e Itália. Quando a doença se espalhar para outros mercados desenvolvidos e emergentes, esse dano aumentará”, acrescentou o economista.

Segundo Roubini, "esse surto de coronavírus é principalmente um choque negativo na oferta que reduz o crescimento e aumenta os custos e a inflação, com alguns efeitos secundários para a demanda agregada".

Em conclusão, o economista alertou que "é provável que o surto de coronavírus seja apenas um dos muitos choques negativos que afetarão a economia mundial este ano". Há também outros fatores que acrescentam ruído ao cenário internacional, como “uma guerra entre os Estados Unidos e o Irã que aumente os preços do petróleo; caos político nos EUA a medida que são rivais estrangeiros interfiram nas próximas eleições; e uma escalada nas tensões entre os Estados Unidos e a China”, acrescentou Roubini.

"Pode ser um gatilho para uma nova recessão econômica"

O economista Michael Roberts observou que "se o crescimento da China desacelerar acentuadamente por alguns trimestres, isso apenas aumentará os problemas das principais economias".

Roberts alertou que o COVID-19 "poderia ser um gatilho para uma nova recessão econômica porque a economia capitalista mundial desacelerou para quase uma "velocidade crítica". Estados Unidos estão crescendo apenas 2% ao ano, Europa e Japão apenas 1%; e as principais economias emergentes do Brasil, México, Turquia, Argentina, África do Sul e Rússia são basicamente estáticas. As enormes economias da Índia e da China também desaceleraram significativamente no ano passado e, se a China sofre um impacto econômico pela interrupção causada pelo COVID-19, isso poderá ser um ponto de inflexão.”

O economista disse que “até agora, as bolsas de valores do mundo ignoraram esse risco, convencidas de que as taxas de juros zero ou negativas para empréstimos e especulações continuarão, graças ao Federal Reserve dos Estados Unidos, e também esperando que a epidemia se dissipe até o final deste trimestre, para que se possa retomar "negócios habitual"".

Roberts alertou que "com o surto que é desencadeado fora da China e a provável recuperação econômica lenta da China, os fantasiosos das ações podem ser demasiado otimistas" e acrescentou que "os lucros corporativos globais estão estagnados junto com o investimento das empresas, a principal causa da desaceleração global ”.




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