Mundo Operário

SAÚDE DO TRABALHADOR

Comentário sobre o livro “A medicina dos sintomas”

terça-feira 16 de junho de 2015| Edição do dia

José Carlos, trabalhador da indústria de alimentos

Achei esse livro do Gilson Dantas*, lançado esse ano, muito bom e fácil de ler. Para nós, que trabalhamos na indústria da carne, que é recordista em doenças do trabalho, esse livro é uma boa ferramenta para entender o tamanho do problema que devemos enfrentar, porque mostra muito claramente como a medicina atual está falida e enquanto dependermos dela estamos perdidos.

A primeira crítica geral que faz é como a medicina se tornou artigo de luxo, quem pode pagar mais se trata melhor. Isso não é novidade, um colega do trabalho esses dias comentou revoltado como Angélica e Luciano Huck passaram na frente de um monte de paciente após sofrerem acidente, por exemplo.

Qual medicina? E para quê?

A segunda crítica é sobre a qualidade dessa medicina atual. Todo mundo que é acostumado a passar no SUS ou em clínica barata (de convênio caro) sabe como é, o médico mal olha na sua cara, você entra e ele já começa a preencher um papel, faz umas três perguntas, carimba o papel, assina, te manda tomar um remédio e voltar ao trabalho. É consulta por minuto, igual na fábrica, um produto atrás do outro, no caso, o paciente. O livro chama esse médico de alienado. Explica que como nossa sociedade é dominada pela busca do lucro (que fica para poucos), a medicina também foi corrompida por essa lógica, deixando o verdadeiro objetivo de curar as doenças no segundo plano – assim como na produção, sabemos que a qualidade do produto está em segundo plano também.

O médico alienado trabalha com uma visão reducionista, que reduz o tratamento das doenças ao âmbito individual e ainda mais, fatia o paciente, tornando-se apenas especialista em alguma coisa muito específica. Quantas vezes ao passar em um ortopedista, por exemplo, ele perguntou sobre a sua condição de trabalho, se fica numa postura inadequada, se é muito repetitivo ou se movimenta muito peso? Nada, ele pergunta onde dói, receita o anti-inflamatório e pronto, bora trabalhar. Quer dizer, para essa medicina atual, reducionista, a dinâmica geral do seu corpo, seu trabalho, alimentação, histórico familiar etc. não importam nada, só importa combater aquele sintoma (uma dor no ombro, por exemplo), por meio de uma droga química que causa dependência. Nunca se importam em resolver o problema por trás do sintoma, que em boa parte dos casos, são as péssimas condições de trabalho.

Essa medicina estaria falida se seu objetivo real fosse a cura das doenças. Ela é eficiente para outra coisa, para ajudar a “acumulação do capital”, quer dizer, é eficiente para que os ricos continuem cada vez mais ricos e os trabalhadores sem muita chance de melhorar de vida. As grandes marcas de remédios, por exemplo, se beneficiam muito com essa forma de tratamento, muito mais interessante para eles que você fique tomando anti-inflamatório e analgésico a vida inteira (e se aposente inválido) do que buscar as verdadeiras curas, que precisariam passar por questionar o modo como estão organizadas as fábricas, por exemplo.

O verdadeiro papel da medicina (e da Segurança do Trabalho e das CIPA’s)
Depois dessas críticas, o livro fala de um outro ponto de vista, iniciado por um médico e pesquisador de 1800 e pouco, chamado Rudolf Virchow. Ele já falava que a medicina, na verdade, tem que tratar as doenças como “entes coletivos” e não combatê-las somente em âmbito individual. Isso faz muito sentido como vemos casos como essa epidemia de dengue, que contaminou tanta gente. Sem combate aos focos de procriação do mosquito não adianta ficar tratando cada contaminado isoladamente. No caso de uma fábrica, vemos a mesma coisa, de que adianta cada trabalhador sozinho passar num ortopedista e tomar remédios se todos continuam trabalhando (e ficando doentes) da mesma forma? Nunca serão eliminados os casos de doenças do trabalho ali, vai só empurrando com a barriga. O livro cita uma frase desse pesquisador, que parece que resume bem o seu pensamento, “Se a medicina quer exercer plenamente seu papel, deve participar da vida política e social do país, deve assinalar os obstáculos que se opõem ao desenvolvimento normal dos processos vitais e tentar obter a sua eliminação.” Ou seja, a medicina, para ser séria com seu objetivo de nos curar das doenças, deveria lutar por profundas mudanças sociais, políticas e econômicas.

A mesma coisa podemos pensar para a segurança do trabalho e para nosso papel dentro das CIPA’s. Não adianta querer resolver os problemas sem pegar as verdadeiras causas por trás dos sintomas. A única maneira de ter saúde e segurança no trabalho é com os próprios trabalhadores revendo e reorganizando as coisas, com a ajuda de especialistas, mas principalmente, rompendo a lógica de priorizar a lucratividade da produção. Coisas como a redução da jornada e a rotatividade dos postos de trabalho são básicas para um combate sério às doenças como tendinite, artrose, artrite, fascite plantar etc. Até quando vamos naturalizar dor no pulso, dor no ombro, dor nas costas etc.? Até quando vamos intercalar horas de trabalho com cartelas de remédios e pensar que “depois passa”?

Esse livro é muito bom para ver melhor esse problema todo e no final ele fala que os trabalhadores da saúde, junto com alguns médicos que se solidarizam e junto aos doentes, devem organizar uma luta para democratizar os postos de saúde, evitando que o acesso aos tratamentos de mais qualidade seja privilégio de quem pode pagar mais e buscando recolocar a medicina de volta em seu real objetivo, que é a cura das doenças.

*Gilson Dantas é médico e doutor em Sociologia pela UnB, autor de vários livros, além de colaborador do Esquerda Diário.




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