Opinião

OPINIÃO

Combater o impeachment e não apoiar um governo de ajustes de Lula-Dilma

Seja com a direita, seja com o governo milhões tomaram as ruas nos últimos dias. A politização se expressa em cada canto da vida do país. Estes atos eram de composições sociais muito diferentes. Com a direita predominou uma classe média alta, conservadora, sedenta por privatizações e não à toa reúne-se na frente do pato da FIESP e muitos ali querem a “mão dura” de Sérgio Moro ou de Bolsonaro. Em ato convocado pelo PT foram muitos jovens e trabalhadores, junto a uma classe média e a militância mais ativa do PT sob o lema da defesa da democracia. Compartilhamos o sentimento dos jovens e trabalhadores que foram aos atos de sexta contra o golpe institucional que a direita busca implementar, com o impeachment no Congresso ou pelas arbitrariedades do poder judiciário. Porém, alertamos que o PT quer utilizar este sentimento para fortalecer um governo Lula-Dilma que utilizará o capital político de Lula para implementar os ajustes contra os trabalhadores por outros caminhos que os tentados até agora, combinando demagogia e algumas alterações na economia.

Leandro Lanfredi, petroleiro

São Paulo | @leandrolanfrdi

domingo 20 de março de 2016| Edição do dia

A situação política nacional não para de mudar. Isto gera muitas dúvidas sobre como se posicionar. Uma hora parece que Lula vai preso sem condenação e então se fortaleceriam os abusos sistemáticos aos direitos civis que já ocorrem nos morros e favelas, inclusive naquelas com UPPs que o PT tanto apoiou a se instalarem. Em outro dia o PT mostra força e tenta conduzir o justo anseio de opor-se aos abusos do judiciário, da mídia, da direita para calar a necessária luta contra os ajustes que ele já implementa e que com Lula como superministro seriam implementados por outros caminhos usando seu capital político.

Dia a dia os cenários mudam. Para se guiar nestas mudanças é preciso clareza do que querem os inimigos e quem são. Os interesses dos trabalhadores e da juventude são radicalmente opostos a qualquer alternativa que fortaleça a FIESP, tucanos, Temer e seus aliados que querem o impeachment. Mas também é igualmente necessária a luta contra o governo e os ajustes de Dilma e Lula.

Depois de 13 anos de governo do PT como que esta direita se sentiu forte? Quem é ela e o que ela quer?

Para governar o PT assimilou os métodos corruptos do PMDB, PSDB e todos partidos do regime. Fortaleceu uma bancada conservadora, da bala, do agronegócio e reacionária nos direitos humanos. Deu intermináveis benefícios para os empresários. E mais, orientou os sindicatos através da CUT a não lutarem seriamente contra nenhum ataque de “seu” governo nem das patronais. Vendo isto e uma eleição apertada, que acontecia ao mesmo tempo que representantes mais claros da direita assumiam melhores posições em países vizinhos (como a Argentina e a Venezuela) a direita se sentiu com coragem de querer mais.

O PT entregou primeiro os anéis, depois os dedos. Agora a FIESP, a maior federação de patrões do país, se sentiu com coragem de pedir o braço todo. Junto da FIESP se organizam vários setores do PMDB e do PSDB. Eles querem ou o impeachment ou a renúncia.

A FIESP não poupa nem gastos com “marmitas” com filé mignon para tentar financiar aqueles que querem o impeachment. A FIESP é presidida pelo ex-candidato a governador do PMDB em São Paulo, Paulo Skaf. Ele é muito ligado a outro importante membro do PMDB, ninguém menos que o vice-presidente da República, Michel Temer. A trama é de dar inveja a roteirista de novela. Os tucanos também se alinham atrás deste interesse.

O que querem? Ter um governo mais forte para implementar muito mais ajustes. Implementar uma “agenda Brasil” como formulou Renan ou “uma ponte para o futuro” como disse Temer. Uma série de proposta que privatizam as estatais, cortam salários, aumentam a idade de aposentadoria e chegam até o extremo de acabar com a saúde pública extinguindo o SUS.

Eles serão os principais ganhadores de um impeachment ou de uma renúncia. Formariam um governo cheio de empresários da FIESP e tucanos para implementar estes ataques. Este é o principal motivo porque temos que ser contrários ao impeachment.

Outro motivo para se opor ao impeachment é porque não reconhecemos que uma casta de juízes que ninguém votou ou um congresso notoriamente corrupto tem autoridade para destituir quem o povo elegeu. Só o próprio voto popular poderia revogar os mandatos de políticos que não cumprem o que prometeram, como é o caso de Dilma

O judiciário é arma auxiliar das classes dominantes

Esta crise tem mostrado um lado oculto do Estado brasileiro. Um monte de privilegiados com supersalários e superprivilégios, que ninguém nunca elegeu, que se acham verdadeiros deuses, como vemos em várias denúncias toda semana chegando até o cúmulo de dar voz de prisão a quem lhe parar em uma blitz, estão se achando acima do bem e do mal para determinar quem punir, quem deixar impune. O que seguir ou não seguir da Constituição. É isto que a Lava Jato está fazendo. Mão dura com o PT e os empresários ligados a este partido e nenhum grampo, punição, investigação dos tucanos, do PMDB e outros partidos do regime e outros empresários amigos destes. O mais novo absurdo do judiciário é impedir Lula, que nem condenado foi, assumir um cargo de ministro. Collor, Maluf, e mil e um tucanos podem ter cem mil condenações e ainda gozam de cargos públicos. Ou seja, o judiciário está escolhendo quem atacar para favorecer a formação de um novo governo mais forte. Mais forte a nos atacar.

Com o embalo de setores mais conservadores das classes médias que tomam as ruas o judiciário também ensaia uma outra resposta que seria se mostrar “acima do bem e do mal” e que também atacasse o PSDB, PMDB para erguer ele mesmo um novo “regime” que fizesse exatamente o mesmo que propõe os defensores do impeachment, mais e mais ataques aos trabalhadores.

O PT e Lula querem seu apoio para ter um governo que também implementará ataques

O PT conseguiu colocar centenas de milhares nas ruas. Foi uma demonstração de forças como nunca tinha feito. E fez isto em meio a estas intermináveis denúncias de corrupção e com um governo que nos ataca diariamente. Conseguiu fazer isto porque muitos jovens e trabalhadores estão vendo todos desmandos do judiciário, da Globo, da Veja, dos tucanos, de Temer... Compartilhamos do sentimento de ódio à direita que muitos jovens e trabalhadores expressaram nesta última sexta-feira, indo ou não ao ato convocado pelo PT. Entretanto, queremos dialogar com todos estes sobre a necessidade de buscar uma posição independente frente ao PT, já que seus planos na prática vão no sentido de recompor um governo com Lula à frente que possa recompor certa unidade da burguesia nacional para seguir implementando os ajustes.

Ou seja, para do alto da popularidade que ele ainda goza e com sua oratória imbatível fazer muita demagogia, fazer uma ou outra alteração na economia para dar mais crédito para o consumo nos bancos públicos por exemplo, mas seguir ao mesmo tempo ataques como a reforma da Previdência para aumentar a idade de aposentadoria. É preciso ser contra o impeachment, contra os desmandos do judiciário, mas também somos contrário a um novo governo ajustador com Lula à frente.

Como combater o impeachment sem fortalecer um governo dos ajustes de Lula-Dilma?

Não podemos nos confundir em hipótese alguma com propostas que levarão FIESP, tucanos, Bolsonaro, MBL e etc estarem mais fortalecidos. Os grupos políticos da esquerda que defendem “fora todos”, “eleições gerais” e variantes podem fazer formulações diferentes da direita, mas na prática atuam fortalecendo-a. Não existe nenhum “fora todos” ganhando as ruas que não um fora Dilma, e este pode-se dar pela ação do parlamento ou do judiciário hoje, e em resumo esta posição é de fato um “assuma Temer-FIESP-tucanos”. Se existe um “fora todos” que vai as ruas ele é capitalizado pela classe média alta, cheio de ilusões na justiça e anti-político não em um "sentido social", acaba sendo entendido como na verdade um pró-Bolsonaro, pró-Moro. Por isto dizemos claramente não ao impeachment. Por outro lado, não podemos lutar contra o impeachment e fechar os olhos aos ataques do governo Dilma e as tentativas de recompor o governo com Lula, que como alertamos implementaria, ainda que com alterações e demagogia, os ajustes contra os trabalhadores. Por isto o MRT insiste que os sindicatos, centrais sindicais precisam romper imediatamente com o governo Dilma para organizar um movimento nacional contra os ajustes de Lula-Dilma e a impunidade.

Todos estão carecas de saber que o PT, os tucanos, o PMDB e vários outros políticos e juízes estão metidos até o pescoço na corrupção. Não será das mãos de um juiz que ganha R$80mil por mês e fez treinamento no Departamento de Estado dos EUA, como é o caso de Sérgio Moro, que teremos nenhum combate à corrupção.

Para acabar com um Estado intrinsecamente corrupto, herdeiro da escravidão, do latifúndio, do massacre dos povos indígenas, fundado na exploração do trabalho e que protege a propriedade e o lucro, nós, socialistas revolucionários do MRT, defendemos um outro tipo de democracia, radicalmente diferente desta democracia dos subornos, Lava Jato, trensalão, Merendão que temos.

Defendemos um governo dos trabalhadores que rompa com o capitalismo e o imperialismo e que os trabalhadores através de sua organização por local de trabalho controlem todas riquezas e rumos do país. Sabemos que a maioria dos trabalhadores não defende esta perspectiva, e muitos estão tocados com os abusos do judiciário, da mídia, da FIESP e estão querendo “defender a democracia”. Por isto, nós propomos que junto a nós não defendam uma democracia da Lava Jato, mas uma democracia onde sejam os próprios trabalhadores e todo o povo que decida os rumos do país de como combater a corrupção a como acabar com os ajustes de uma crise que não fomos nós que criamos. Propomos uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana baseada na mobilização independente dos trabalhadores e da juventude contra os ajustes e a impunidade dos poderosos. Numa assembleia como esta, baseada no voto popular, poderia-se impor que todo caso de corrupção fosse julgado por júri popular, que cada cargo público dos juízes aos parlamentares fossem eleitos e revogáveis e não tivessem privilégios, ou seja, ganhassem todos como uma professora. Numa assembleia como esta o MRT buscaria que toda esquerda também lutasse para impor o fim da sangria dos recursos do país para o imperialismo pela via do pagamento da dívida e entrega do petróleo, que lutássemos pela reestatização sob controle dos trabalhadores da Petrobras, Vale e de todas empresas privatizadas nesta democracia da Lava Jato. Estes vastos recursos poderiam fazer acabar com os ajustes e assim garantirmos nossos interesses como saúde, educação, emprego e salário.




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