Teoria

ECONOMIA MUNDIAL

Com Trump, China será nova Meca do comércio mundial?

André Acier

Natal | @AcierAndy

domingo 5 de fevereiro de 2017| Edição do dia

(Ilustração: Ingram Pinn)

No mesmo dia em que Donald Trump emitiu decreto banindo a entrada nos Estados Unidos de muçulmanos oriundos da Ásia e do norte da África, reafirmou a iminência da construção do muro na fronteira norteamericana com o México (que deveria ser pago pelos mexicanos). Apesar de apresentar déficits comerciais com o México desde 1995, os monopólios norteamericanos se beneficiam largamente da mão de obra barata na região da fronteira, exportam mais de US$200 milhões por ano e o governo mantém férreo controle sobre a política e as forças armadas mexicanas.

Alguns dias antes, havia cancelado com uma canetada o chamado Acordo TransPacífico, um tratado que prometia reafirmar a preponderância comercial norteamericana na Ásia-Pacífico (detida desde o fim da Segunda Guerra Mundial), isolar Pequim e ser o primeiro grande golpe na intenção da China de apoderar-se dos mercados locais.

A “nova era” Trump começa, ao contrário da retórica, facilitando a influência econômica da China na região da Ásia-Pacífico. Mais que isso, pode estar alterando o eixo do comércio mundial para o Oriente.

Naturalmente, nao se trata da vontade de Trump, que não quer nem pode governar à revelia dos grandes capitalistas ianques; mas algo representa da decadência hegemônica do imperialismo norteamericano.

Os tweets de Trump não causam apenas abalos acidentais nas redes sociais (e suas ligações telefônicas também, já que desligou na cara do Primeiro Ministro australiano Malcolm Turnbull, um aliado próximo, depois que este perguntou se honraria o acordo feito por Obama de aceitar imigrantes recebidos pela Austrália). Sua política isolacionista e nacionalista vem alterando a percepção geopolítica com não menos agressividade com que promete alterar a economia que “permite ao mundo roubar os Estados Unidos”.

Protetores da nova Commonwealth mundial

Pela primeira vez, o presidente da China, Xi Jinping, representou o papel de portavoz do “livre comércio mundial” num evento tão prestigiado pelos monopólios como o Fórum Mundial de Davos. Este papel sempre foi dos Estados Unidos, e de Obama na última década.

O Acordo TransPacífico havia sido assinado por 12 países (Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura, Estados Unidos e Vietnã), que representam 40% da economia mundial e um terço do comércio global. Visava reduzir barreiras comerciais em algumas das economias com o crescimento mais rápido da Ásia e Oceania, sob a tutela inconteste dos Estados Unidos, isolando a China.

A anulação do acordo trouxe grande benefício à China. Alguns dos países que haviam assinado o TPP (como a Austrália) agora estão migrando para a versão chinesa desse acordo comercial na Ásia-Pacífico: chamado de Parceria Abrangente Econômica Regional (RCEP, na sigla em inglês), ele exclui os Estados Unidos e cria uma área de livre comércio de 16 nações, incluindo a Índia, o maior bloco do mundo nesse âmbito, abrangendo 3,4 bilhões de pessoas.

A China vai emergindo como um parceiro comercial mais confiável que os Estados Unidos, algo que pode compensar em larga medida o fato de não ser uma economia de “completo livre mercado” como gostariam os capitalistas e financistas ao redor do globo. Isso é de per si uma grande mudança de perspectiva que pode conviver com a preponderância econômica norteamericana.

Acresça-se a isso que Trump teria inúmeros inconvenientes para declarar uma guerra comercial com a China, ou pretender taxar as exportações chinesas como prometeu em campanha. Em primeiro lugar, pelo peso comercial que a China tem para a saúde econômica dos Estados Unidos. Em segundo lugar, porque as exportações chinesas aos EUA são majoritariamente compostas por capitais dos próprios monopólios ianques, que produzem a baixos custos para revender no país.

Segundo o informe “China-US Trade Issues”, do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, de janeiro deste ano, os laços econômicos entre os EUA e China cresceram surpreendentemente nas últimas três décadas. O comércio entre os dois países cresceu de US$2 bilhões em 1979 (com as reformas de Deng Xiaoping e a reaproximação na administração Nixon) para US$600 bilhões em 2015. Neste ano, a China se tornou o segundo maior parceiro comercial dos EUA, o terceiro mercado exportador, e sua principal fonte de importações. A China equivale a um mercado de US$400 bilhões para as companhias ianques. Muitas empresas enxergam a participação na China como crucial para manter qualquer nível de competitividade. Por exemplo, a General Motors, que investiu pesadamente na China durante a última década, vendeu mais carros no gigante asiático do que nos EUA em todos os anos que vão de 2010 a 2015. Dificilmente aceitaria diminuir seus pacotes de negócio no país.

É notório como os monopólios no país de Trump ainda utilizam a China (mesmo com o aumento salarial dos últimos anos) como ponto final na cadeia de montagem de seus produtos ou insumos chineses para produção em território americano, para redução de custos. Como se não bastasse, a China é o segundo maior detentor de papéis do Tesouro norteamericano (US$1,1 trilhão) e suas compra constante de dívida pública dos EUA ajuda a manter as taxas de juros controladas em Washington.

Enquanto os EUA se preparam para renegociar restritivamente antigos pactos comerciais, a caderneta de negócios chineses com os principais centros industriais e financeiros do mundo se expande exponencialmente. As relações com a Alemanha são um exemplo. De acordo com a Câmara do Comércio Alemã, o comércio bilateral atingiu 154 bilhões de euros (US$169 bilhões) em 2014. Mais de 5.200 companhias alemãs operam na China segundo dados de 2015. Segundo o Departamento de Estatísticas Federais da Alemanha, a China foi o país de quem a Alemanha mais exportou em 2016, e o quinto a quem mais exportou, numa relação bilateral que cresce 14,2% anualmente em média, dobrando a cada cinco anos.

Observando-se a “grande figura”, a China é a maior fonte de importação para a União Europeia (280 bilhões de euros em 2014), e cresce como o mais dinâmico destino de exportações (assim como a UE é hoje a maior fonte de importações por parte da China). A relação comercial entre China e UE atinge 1 bilhão de euros por dia.

Esta situação permite que Pequim tenha boa margem de manobra para esquivar as ameaças de Trump frente a desvalorização do yuan e a reivindicação de possessões territoriais e marítimas estratégicas no sudeste asiático.

É na arena da política externa que se dará a escalada contra a China para que não assuma este papel. O Secretário de Estado de Trump, Rex Tillerson, comparou a construção de ilhas artificiais no disputado Mar do Sul da China com a anexação da Criméia pela Rússia em 2014. “Enviaremos à China um claro sinal para que, primeiramente, a construção de ilhas cesse, de depois que o acesso a estas ilhas não será permitido”. Uma declaração violenta contra a principal política militar de Pequim no sudeste asiático.

Anteriormente, Trump havia telefonado sem prévio aviso para a presidente de Taiwan, violando o reconhecimento da política de “Uma só China” defendida por Pequim. Foi o primeiro contato entre um presidente estadunidense e um líder taiwanês desde que Washington trocou suas relações com a ilha pela China continental em 1979, que já então começava a ganhar peso no cenário internacional.

“Se Trump estiver determinado a usar esta jogada quando tomar posse, um período de interações ferrenhas e nocivas será inevitável, à medida que Pequim não terá escolha a não ser tirar suas luvas”, disse o jornal China Daily, publicado em inglês.

A agressividade com a China aumentará na mesma medida em que se mostrem ineficazes as ameaças econômicas. E a burocracia de Pequim certamente utilizará o isolacionismo belicoso da nova administração ianque para ir se adaptando a uma posição que lhe caiu no colo em meio às profundas contradições da economia chinesa.

Estas enormes contradições, capitaneadas por uma burocracia anacrônica à frente de uma economia que desacelera e não pode mais crescer a duplos dígitos – disputando espaços de valorização de capital com os grandes centros – se dão no marco das expectativas de recuo dos Estados Unidos de uma posição de defensor inconteste do livre mercado mundial (o que não significa que deixe de ser a principal potência imperialista). É certo que nenhuma mudança nesta arena virá sem grandes abalos geopolíticos.




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