Cultura

Redução da maioridade penal

Cidade Alerta na frequência policial

sábado 4 de julho de 2015| Edição do dia

O programa "Cidade Alerta" (TV Record), estreou no dia 03 de abril de 1995. Teve como apresentadores Ney Gonçalves Dias, João Leite Neto, José Luiz Datena e hoje, de novo, é apresentado por Marcelo Resende, uma mistura de William Bonner com Jacinto Figueira Júnior, "O Homem do Sapato Branco", famoso "jornalista policial" da TV brasileira.

Assim como outros "programas policiais", como "Brasil Urgente" (Band), "Cidade Alerta" também apresenta o "mundo cão”. Cheio de gírias, piadas e palavrões, Marcelo Resende aparece em rede nacional no papel do "cronista do Brasil precário", suposto mensageiro da verdade nua e crua dos fatos mais sangrentos. Segundo seus realizadores é prestação de serviços públicos.

Com uma retorica estúpida, antioperária, machista, racista e homofóbica, Marcelo Resende se coloca como "autoridade" e faz pose de "porta-voz e "guardião" da ordem e dos "bons costumes" patriarcal-capitalistas. Defende a propriedade privada, governos corruptos, pena de morte, redução da maioridade penal, linchamento e "para quebrar o clima pesado do programa" faz piada com os crimes homofóbicos e explora de forma sensacionalista e erotizada os crimes feminicidas. E como bom "papagaio" e "cão de guarda", assim como Gil Gomes, outro famoso "jornalista policial" que dizia ter dois escritórios, a Delegacia de Homicídios e a Seccional de Santo Amaro, Marcelo Resende também é o "amigão" de delegados e policiais.

As fontes de informações são fundamentais e "valem ouro", por isso cada "jornalista policial", cada "programa policial", possui relações com as Polícias. Alguns com relações mais estreitas com a Polícia Civil, outros com a Polícia Militar. Cada qual com sua “fonte”. As entradas ao vivo com perseguições policiais são frutos destas relações. A Polícia avisa o programa e o Comandante Hamilton acompanha com exclusividade, ou não, o "trabalho" da Polícia. Sintonizados nas frequências policiais, recebem informações privilegiadas que se transformam em "furos jornalísticos".

No dia 23 de Junho deste ano, a TV Record (Cidade Alerta) e Band (Brasil Urgente), transmitiram ao vivouma perseguição policial na zona sul de São Paulo que resultou em dois jovens baleados a queima-roupa por um policial da Rocam (Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas). Transcrevi um trecho desta “cobertura” realizada pelo programa “Cidade Alerta” com narração eufórica e cínica de Marcelo Resende, que, junto com José Luiz Datena (Band) e Rachel Sheherazade (SBT), foi convidado pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados para debater a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

Marcelo Resende
- Caiu, caiu, caiu, caiu, caiu, caiu (neste momento o policial efetua quatro disparos contra os adolescentes). Ah meu Deus, uma árvore! (o helicóptero da Record muda de ângulo para não mostrar todo o desenrolar da cena). Você vai vendo aqui. Você vai acompanhando nesse momento, o homem (o adolescente), a hora que ele joga o capacete e ele cai. Vai vendo. Vamo lá minha gente! Você vai vendo a hora.
O homem, o homem da Rocam já pega no revólver. Não sei se ele atirou, porque pareceu que ele atirou (a imagem é clara), porque se ele atirou é porque o bandido tava armado e ele fez muito bem, ele tem que defender, repara, ele tem que defender a vida dele. Olha o momento. Repara que esse é o momento, o momento final. Me dá, repara que é a hora que ele vai jogar o capacete. Você vai acompanhando de todos os lados. Essa é a hora, quando ele, ele vai pra cima, posiciona outra lente do Hamilton. Você vai vendo do home da Rocam. A sensação que eu tive é que ele atirou e se ele atirou é porque o bandido estava armado. Põe no ponto certo aí Edu, porque esse garoto põe em qualquer lugar. Repara. Eu perce, eu percebi que ele atirou. Não foi Hamilton?

(Comandante Hamilton)
- Olha Marcelo, não deu para perceber direito (todos nós vimos em rede nacional), mas é um momento muito tenso. Você que ele fugiu, a informação (de quem? da polícia?) é que eles estavam armados, o policial estava sozinho Marcelo, então é realmente um momento muita tensão, não tinha ninguém pra fazer, pra dar cobertura pra ele, então seria normal que se apontasse a arma para ele...

Marcelo Resende
- Estabiliza aí Hamilton, estabiliza aí!

Comandante Hamilton
- Pois não Marcelo

Marcelo Resende
Repara. Sensacional o homem, o policial militar da Rocam. Sensacional. Ele, com todo o cuidado, pra não atropelar ninguém, pra não subir na calçada e aí você vê como um policial militar, né, bem treinado. Ele foi, desviou de tudo, foi e eu quero o pedaço que ele joga o capacete sim! Me dá o pedaço que joga o capacete (exige a cena dos disparos). Ele vai e não se tem certeza se ele atirou (todos nós vimos). Vamo lá o Clóvis. Repara, você vai vendo. Hamilton, tenta dar uma estabilizadinha pra dar uma fechada lá um pouco. Porque não há nenhuma confirmação nenhuma de que ele atirou (neste momento o helicóptero se afasta da cena do crime).

Comandante Hamilton
- Marcelo!

Marcelo Resende
- Eu tô te ouvindo Hamilton.

Comandante Hamilton
- É que eu tô seguindo, é que tão passando a orientação para manter esse ângulo (a direção do programa ou a própria policia orientou o helicóptero da Record a não filmar o desenrolar do crime cometido pelo policial da Rocam). Marcelo, mas um detalhe, esse policial realmente merece uma medalha, você vê que várias vezes, tentaram inclusive Marcelo, tacar o capacete no policial e ele está sozinho ainda, os outros perderam o acompanhamento, é um policial que merece elogios e até uma medalha do Governador.

Marcelo Resende
- Hamilton, Hamilton!

Comandante Hamilton
- Pois não Marcelo.

Marcelo Resende
- Vamos falar na notícia por favor. Olha, eu sei, não, não, deixa que o Governador vai dar medalha, tá tudo certinho, o problema, a minha dúvida é se atirou ou não atirou. Porque pra mim, agora olhando melhor, eu, foi o reflexo, do, dali ó, da, do farol da moto. Você teve a mesma sensação meu irmão? (Primeiro diz que o policial atirou por legítima defesa, agora diz que foi o reflexo do farol da moto).

O Comandante Hamilton disse que teve a mesma “sensação”. Marcelo Resende continua com sua narração mórbida. Também teve a "impressão" de que um dos jovens atirou no policial.

Marcelo Resende
- Ele atirou. O policial se defendeu. O policial se defendeu. Porque eu tinha a impressão que o policial não tinha atirado. O policial reagiu ao ataque do criminoso. Eu espero já de antemão (porque sabia que o fato iria causar indignação), que não me venham com história de Corregedoria pro policial, Comissão de Direitos Humanos. Segundo Marcelo Resende, “resolveu como um policial tem que resolver”, ou seja, cumpriu seu “serviço”.

Espetacularização da violência, sensacionalismo criminoso, propagação de ódio, apatia e pânico tudo num clima eufórico para embalar as noites brasileiras de um setor importante da classe trabalhadora. Segundo o apresentador, o público chega junto com a polícia e acompanha a vida como se fosse um filme de Hollywood. "Cidade Alerta" transforma perseguição policial em “filme de ação” com direito a “herói” e “bandidos”. Desta vez o policial da Rocam assumiu o papel de "Stallone Cobra" do Governo Alckmin e a juventude pobre e negra é o "lado podre" da sociedade que precisa ser presa e morta. Marcelo Resende também é a cara do Eduardo Cunha! A violência e a rotina assassina da polícia vira um "espetáculo" para uma audiência que assiste em desespero anestesiado a própria morte.




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