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Chega ao fim a II Feira Antropofágica de Opinião

Em 32 horas de evento, foram centenas de artistas que passaram pelo Memorial da América Latina, aceitando o desafio proposto pela Cia. Antropofágica de tentar responder, com suas intervenções, à pergunta: O que pensa você do Brasil de hoje?

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 8 de junho de 2015| Edição do dia

No último dia da Feira ficou claro que o diálogo da Antropofágica quer ser cada vez mais abrangente e não falar somente entre os “seus”. Quem esteve lá pôde ver respostas muito diferentes da perspectiva da maior parte dos grupos. Isso se evidenciou, por exemplo, pela presença da companhia Os Satyros, um grupo notoriamente conhecido pela sua ligação com o PSDB, e particularmente José Serra, que lhes “presenteou” com a SP Escola de Teatro, localizada do lado de seu espaço na Praça Roosevelt e dirigida artisticamente por Ivam Cabral, fundador d’Os Satyros.


Os Satyros

Assim, é evidente que a resposta desse grupo não passaria pelo que dissemos ver na produção das companhias dos dias anteriores, que falavam da reforma agrária, violência policial, terceirização, mobilizações da direita etc. E não apenas seus temas, mas sua estética, sua postura, são frontalmente distoantes. Apresentando uma afetada e grandiloquente leitura de Marquês de Sade (autor preferido da companhia, que consegue lhe castrar todo espírito subversivo e transformá-lo em um artigo de consumo para a classe média), os Satyros quiseram demonstrar que o problema do Brasil é “como o mal nasce dentro de cada um de nós”, ou algo assim. Foi isso, pelo menos, que colocou o seu diretor Rodolfo Garcia Vázquez, que fez questão de “explicar” ao público a cena antes de sua apresentação. O problema então, não é social: é da maldade inerente do ser humano, de sua corruptibilidade, sua propensão ao individualismo.

E não apenas Os Satyros nos apresentaram essa visão cética, conservadora. Grupos que talvez até se considerem de “esquerda” trouxeram cenas igualmente reacionárias. Um deles foi a Cia. Artehúmus de Teatro, que chocou o público com uma cena em que a “pátria mãe gentil” é humilhada, aviltada e xingada. E só. É apenas isso que tem esse grupo a nos dizer do Brasil. Por fim, seguindo a mesma linha, mas aí explicitamente com um “verniz de esquerda”, está o Teatro Documentário, que apresentou “Maria”. Mostrando a vida de uma empregada, ex-metalúrgica, de setenta anos, essa produção, basicamente, afirma o mesmo que os Satyros: que o ser humano é essencialmente ruim, corruptível e egoísta. Maria não consegue participar dos grandes momentos da história porque está ocupada trabalhando, mas, segundo o narrador, o que ela sonha é ser a patroa, a classe dominante, e por isso aguenta a vida dura que leva. Assim, no fim das contas, é de Maria mesmo a culpa pela sua miséria, pois se estivesse no lugar de sua patroa faria o mesmo.

Essas companhias, que marcaram o último dia como o das opiniões mais conservadoras, foram vivamente contrapostas pelo encerramento feito pela Cia. Antropofágica. Com trechos retrabalhados de sua trilogia “Terror e Miséria no Novo Mundo”, costurados com novas cenas, a Antropofágica mostrou de onde vem a energia capaz de fazer seus membros, dispondo de tão poucos recursos, conseguirem colocar em pé um projeto como a Feira. Não há neles ilusões de falsas vitórias, mas a esperança firme e convicta da luta. Sabem que não é a arte que responderá aos problemas do Brasil sozinha, mas não deixam de fincar pé em suas posições e fazer sua trincheira nessa guerra de classes. Essa disposição de luta, executada brilhantemente pela companhia em suas apresentações, compõe um desses momentos em que sabemos que, com todas as dificuldades, vale a pena seguir lutando.

Pautados em um longo e extensivo estudo de vários anos que embasou "Terror e Miséria no Novo Mundo", a Cia. Antropofágica partiu de mostrar com suas alegorias ("hipérboles que se transformam em eufemismos", como eles mesmos colocam) como funciona o capital em escala mundial. Para isso, valeram-se dos personagens de vampiros e monstros, e um texto retirado diretamente do Manifesto Comunista. Como história de nosso país, colocam os padres, juízes e ditadores como uma continuidade, um desfile de mortos que segue impondo a miséria sobre os trabalhadores. De branco, com suas faixas, colocaram os que pedem pela manutenção da "era de ouro". A sucessão de mortos permanece, vivendo do trabalho dos vivos.

A Antropofágica é uma companhia que consegue ver os acontecimentos históricos e retratá-los com profundidade, sem deixar de perceber o fio de continuidade que há entre os diferentes momentos da história brasileira; sem deixar de ver que é o capital o fio condutor desse desfile de mortos. Mas, com outras alegorias, como a noiva da revolução, com suas músicas e poemas, trazendo textos de Maiakóvski e Brecht, usando o melhor do arsenal da arte revolucionária e acrescentando a isso sua própria criação estética, sua determinação de luta, mostram que o futuro nos pertence, que essa resposta virá pelas mãos dos trabalhadores, e que artistas comprometidos com a luta de classes e a revolução podem fazer parte dessa resposta.


Cia. Antropofágica

A Feira foi apresentada como “uma tentativa de método” pela Antropofágica, um método dos que sabem, dialeticamente, que “o todo não é meramente a soma das partes”. Por isso, é fundamental vermos o que respondem Os Satyros e sua visão adesista ao poder dominante, somada a tantas visões de luta. A Feira, um estrondoso sucesso em praticamente todos os aspectos, não é uma resposta em si. É um método, uma tática de luta para procurar caminhos, para tentar avançar em meio às dificuldades que nos sufocam. Vejamos, daqui para frente, como podemos, todos nós, utilizar esse método da Antropofágica para criar novas ferramentas de batalha.




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