Sociedade

CENSURA POLÍTICA

Carol Solberg, seu "fora Bolsonaro" e a autoritária censura pela justiça

No início desta semana, a jogadora de vôlei de praia Carol Solber foi atingida por mais uma censura em uma ação autoritária do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) do vôlei, que a denunciou por ter expressado sua opinião política em entrevista após um jogo do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2020/2021. A denúncia vem após a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) repudiar a atitude da atleta.

quarta-feira 30 de setembro| Edição do dia

Foto: Wander Roberto/CBV

Carol Solberg falou “fora, Bolsonaro” em uma entrevista ao SporTv após o término da partida pelo bronze da etapa de Saquarema (RJ) do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia. Por isso, por essa frase, essas duas palavras pelas quais expressou sua nada mais que coerente opinião política em uma entrevista na televisão, a atleta está não apenas sendo denunciada, como a denúncia ainda pede penalidade máxima: multa de R$ 100 mil e 6 torneios de suspensão. Essa censura pode custar à atleta a soma que ela recebeu ao longo de 2 anos de jogos e torneios, acumulandos vitórias, segundo levantamento feito pelo Uol.

A denúncia foi feita com base em dois artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva: o 191 - deixar de cumprir o regulamento da competição - e o 258 - assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras do código. O regulamento que a jogadora teria deixado de cumprir trata-se de um anexo que diz que os jogadores se comprometem “a não divulgar, através dos meios de comunicações, sua opinião pessoal ou informação que reflita críticas ou possa, direta ou indiretamente, prejudicar ou denegrir a imagem da CBV e/ou os patrocinadores e parceiros comerciais das competições”.

O que se tem aqui nesse caso é uma ação completamente autoritária baseada em um anexo que quer regulamentar nada menos do que a censura, já que coloca desde o contrato a impossibilidade do atleta manifestar suas próprias opiniões publicamente, por trás de um discurso abstrato sobre poder prejudicar ainda que indiretamente as parcerias e patrocínios, questão inclusive que, até onde se sabe, não aconteceu. Trata-se então da tentativa de praticar a censura que se anteciparam para garantir a regularidade.

E o que é esse Superior Tribunal de Justiça Desportiva que quer tanto silenciar uma voz de resistência que se fez ouvida no esporte? Uma entidade de direito privada, que em teoria deve arbitrar sobre questões referentes às regras dos jogos - literalmente -, mas que atua para garantir a censura política dos atletas. Esse é o STJD, órgão máximo da justiça desportiva brasileira que está diretamente ligado à entidade máxima do esporte em questão, no caso, a Confederação Brasileira de Vôlei. Ou seja, o tribunal superior que está denunciando Carol Solber, e do qual faz parte aqueles que irão julgar a atleta, é ligado justamente aos que primeiro a repudiaram.

Tratamento diferente tiverem Wallace e Maurício Souza, que fizeram campanha para Bolsonaro fazendo o 17 em uma foto após um jogo em 2018, em período eleitoral, e ganharam até mesmo foto no conta de Instagram da CBV. A foto foi apagada depois, mas acompanhada de uma nota que dizia respeitar a liberdade de expressão de cada um. Nenhuma punição ocorreu nesse caso.

O reacionário STJD ultrapassou os limites que lhe cabem dentro da justiça esportiva e sentiu-se livre para julgar e punir como forma de censura política, de maneira totalmente autoritária. Surfa na mesma onda do autoritarismo do poder Judiciário, o qual vem atuando nas mais importantes esferas políticas, como foi com o golpe institucional em 2016 e a manipulação das eleições de 2018, um poder que arbitra e decide os rumos do país, sempre sob os interesses dos capitalistas e atacando os direitos dos trabalhadores. É o mesmo autoritarismo também da Polícia Federal, que atua conforme os interesses de Bolsonaro e, a seu mando, intimou Guilherme Boulos por criticar o presidente em suas redes sociais.

Querem calar Carol Solberg sob a justificativa de que esporte e política não podem andar juntos. Mas a realidade é que esporte e política sempre caminharam lado a lado, seja pela direita, diretamente com a ação das confederações, como a reacionária CBV que repudia Carol mas vangloria Wallace e Maurício ou a CBF e todos seus já conhecidos escândalos; seja pela esquerda com seus atletas expressando suas opiniões publicamente, como a jogadora brasileira de vôlei e seu grito de “fora Bolsonaro” e também os jogadores de basquete de baseball dos Estados Unidos, que paralisaram seus campeonatos para lutar contra o racismo e gritar que as vidas negras importam. É com esses atletas que estamos!

O Esquerda Diário manifesta aqui nossa solidariedade com Carol Solberg e repudiamos a absurda censura que a jogadora está sofrendo, uma verdadeira perseguição política por uma justiça autoritária e reacionária, e nos somamos ao seu grito: fora Bolsonaro e Mourão, é preciso derrubar esse regime e suas instituições já apodrecidas.




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