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China | Burocracia chinesa e política zero COVID: entre a ineficiência e a irracionalidade

Este ano Xi Jinping planeja garantir um terceiro mandato como líder do Partido Comunista Chinês. Para conseguir isso, Xi deve demonstrar sua eficácia em duas áreas: que sua política contra a COVID19 está funcionando bem e que a maior economia da Ásia ainda é resiliente.

Juan ChingoParis | @JuanChingoFT

terça-feira 10 de maio | Edição do dia

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A autoridade do principal líder chinês é posta à prova como nunca antes. Até agora a China conseguiu escapar de ser culpado pelo surto da pandemia de Covid-19 em Wuhan, enquanto o desastre que sua expansão gerou em todo o mundo contrasta com o número oficial de mortos relativamente pequeno dado por Pequim, e o país conseguiu também dar continuidade ao crescimento econômico. Sua política de zero COVID permitiu que Xi proclamasse, já em setembro de 2020, sua vitória na batalha contra a pandemia. Tanto o governo quanto o povo sentiram que seu sistema tinha vantagens únicas sobre o Ocidente, mostrando que a China estava no topo e as coisas estavam indo bem. Tudo isso desmorona antes da eclosão da variante Omicron e seus derivados, muito mais contagiosa que as anteriores. O aumento sem precedentes no número de casos e mortes – ou talvez sua maior visibilidade – foram suficientes para que as ineficiências e irracionalidades do funcionamento do poder chinês fossem subitamente expostas ao mundo.

A ineficiência e o caráter ditatorial da burocracia na realidade

Os sucessivos e draconianos fechamentos que estão ocorrendo na China diante da nova onda de COVID19 superam qualquer filme distópico de qualquer série de ficção. Dezenas de cidades, grandes e pequenas, estão enfrentando bloqueios totais ou parciais devido à covid-19. No entanto, o ponto central é Xangai, a maior e mais cosmopolita cidade da China, com cerca de 26 milhões de habitantes. Xangai foi a cidade mais bem administrada da China durante os dois anos da pandemia, apresentando um modelo em que as autoridades locais impuseram restrições mínimas e garantiram a contenção de surtos. Esta megalópole já está em sua quinta semana de confinamento rígido, assim como nos piores momentos de Hunan. Tudo indica que Pequim terá o mesmo destino.

Dois moradores descrevem a cidade no auge da loucura:

"… à medida que os casos aumentaram em março, os moradores e funcionários do governo ficaram preocupados. Um funcionário que chefia o departamento de saúde mental de Xangai foi à televisão para dizer aos moradores que "reprimam o anseio da alma por liberdade". Os cidadãos prontamente criaram memes satirizando o giro espiritual na linguagem oficial do partido. Dez dias depois, Xangai declarou um bloqueio temporário e escalonado que rapidamente se tornou indefinido e global. Nosso bloqueio rivalizou com dois dos mais difíceis do país: Wuhan no início de 2020 e Xi’an no final de 2021. Os moradores só podiam deixar seus apartamentos para testes de PCR. Poucas empresas podiam abrir. As pessoas lutavam para conseguir coisas básicas, como suprimentos médicos, ajuda aos idosos e comida. A maioria dos restaurantes e supermercados não podia mais fazer entregas. As autoridades locais então assumiram a distribuição de alimentos, tornando os moradores dependentes de pacotes de alimentos organizados pelo governo. Não demorou muito para as pessoas ficarem com raiva. Quando começaram a cantar canções nas varandas das casas, o governo enviou um drone com um megafone repetindo: "Por favor, suprima o anseio de liberdade da alma". A segunda vez não foi tão engraçada. O impacto imediato do fechamento foi um achatamento social da cidade. Algumas famílias conseguiram estocar alimentos melhor do que outras, mas a maior parte da cidade – ricos e pobres, jovens e idosos, locais e estrangeiros – estão no mesmo barco: presos em casa com acesso mínimo aos abundantes recursos de Xangai. Kathy Xu, uma das maiores capitalistas do país implorou por pão e leite nas redes sociais. Surgiram muitas piadas de que a China alcançou a "prosperidade comum", a principal iniciativa de Xi apresentada em 2021 para combater a desigualdade, uma década antes do previsto.

Esse humor foi uma das poucas maneiras de se escapar das medidas surreais do governo. As autoridades de Xangai instalaram cercas de metal para evitar que as pessoas deixem os edifícios onde o contágio foi registrado. Há alguns dias, em Qianan, província de Hebei, no norte da China, os moradores receberam ordens de entregar as chaves de suas casas às autoridades para garantir que não saiam de suas casas. Os moradores que se recusarem a cooperar terão suas portas vedadas por fora e isoladas com arame farpado. Estas medidas criaram um clima de terror comparável aos piores momentos do regime maoísta. Vídeos virais mostraram policiais espancando e prendendo quem não obedecia e trabalhadores da saúde batendo até a morte em cachorros abandonados por pessoas em quarentena.

No entanto, apesar da crescente raiva contra Xi e essa política, em sua reunião de 05/05, o Comitê Permanente do Partido deixou claro que decidiu continuar com a política "zero-Covid". "Persistência é vitória" declarou o Comitê. O referido conclave advertiu que não se deve vacilar na luta: "A prática mostrou que nossa política de prevenção e controle é determinada pela natureza e propósito do Partido, nossas políticas irão resistir à prova da história e são científicas e eficazes. Vencemos a batalha para defender Wuhan e certamente podemos vencer a batalha para defender Xangai."

Por meio dessas medidas draconianas no gerenciamento da crise do COVID19, a fragilidade do regime chinês é revelada mais uma vez. Devido à suposta infalibilidade do secretário-geral do PCCh nenhuma crítica pode ser feita em relação às suas decisões políticas cada vez mais controversas e que hoje as massas chinesas estão pagando com um confinamento ditatorial e escandaloso. A especialista Valérie Niquet tem razão quando afirma que:

"Longe do pragmatismo, o único fator que orientou a tomada de decisão foi a imagem e o poder do Partido Comunista e de seu líder Xi Jinping, que não podiam ser questionados de forma alguma; mesmo a um custo considerável, cuja extensão ainda não é totalmente conhecida […] A China comprou a licença de distribuição das vacinas da Pfizer, recusando-se a produzi-las por conta de seu nacionalismo tecnológico, para melhor impor seu controle a Taiwan, que não pode fornecer livremente as vacinas. Segundo vários estudos, as vacinas chinesas são muito menos eficazes que as vacinas de RNA mensageiro, mas Pequim não dá o braço a torcer, tudo isso em nome da suposta superioridade de seu sistema, como sustenta a propaganda oficial. Acima de tudo, embora imaginássemos que as campanhas de vacinação seriam perfeitamente organizadas, agora sabemos que pouco mais de 50% da população chinesa foi totalmente vacinada. E que neste cenário, os mais velhos e os que não se deslocam são os menos vacinados."

As falhas da alta cúpula do PCCh levaram a China ao seu atual impasse:

"E, de fato, devido a más decisões sobre as vacinas, renunciar a essa política exporia a China a centenas de milhares de infecções, dezenas de milhares de mortes, mesmo que a Omicron pareça ser menos letal do que as variantes anteriores. Todo o argumento da superioridade do regime entraria em colapso. Isso é tão verdade que o sistema de saúde também revela suas fragilidades. Por trás dos hospitais modelo, dos quais Xangai está bem equipada, reconhece-se que a cadeia assistencial - mesmo na cidade, e mais ainda no campo - não conseguia absorver pacientes."

Tudo isso confirma a análise realizada no início da pandemia na China, de que a burocracia sufoca a economia e a vida social e cultural, e que o controle da COVID era destoante do desastre no resto do mundo, incluindo os principais países imperialistas, especialmente os Estados Unidos. As decisões de Xi Jinping, além do alto custo social que a população está pagando, podem ter um alto custo político, pois elas não atingem apenas os setores mais precários como o campo, mas afetam também as bases centrais de apoio do Partido: os setores sociais que assumiram o pacto implícito de aceitar a falta de liberdades políticas em troca dos benefícios da sociedade de consumo.

Risco ao papel da China como a principal produtora do mundo

Esses erros na política sanitária podem não apenas quebrar o consenso com os setores beneficiados pelas reformas capitalistas, mas também abrir um precedente para que se questione o papel da China como a principal produtora do mundo.

Pessoas altamente influentes que se beneficiaram dessa globalização produtiva e que não foram caracterizadas como inimigas de Pequim começam a soar o alarme. É o caso do alemão Jörg Wuttke, presidente da Câmara de Comércio Europeia na China, e da subsidiária chinesa da empresa química BASF. Em entrevista publicada em 28 de abril no jornal suíço The Market, ele afirma que o crescimento não será de 5,5% em 2022 como esperado, mas será de 4%. Segundo ele, por causa da política de zero Covid, "a China está a caminho de perder a credibilidade como a melhor fonte de abastecimento do mundo". Da mesma forma, ele aponta que as políticas econômicas e sanitárias atualmente realizadas estão erradas, mas que devido à proximidade do 20º Congresso que será no outono, qualquer questionamento é impossível. “A China não sai da encruzilhada em que o presidente a colocou. Os líderes são prisioneiros de sua própria narrativa. É trágico."

Isso não significa que haverá fuga de investidores estrangeiros. Mas as dúvidas e incertezas de longo prazo sobre o papel da China na cadeia de suprimentos global estão crescendo, enquanto as multinacionais ali presentes estão se tornando mais cautelosas. Estas, por um lado, estão obtendo grandes lucros e ainda esperam crescer. A maior parte das empresas multinacionais ganhou muito dinheiro com suas operações na China em 2020 e 2021, quando o crescimento da China ultrapassou o da maioria dos países do mundo. Mas o bloqueio de Xangai e a agitação mais ampla das duras políticas de Covid da China estão impondo grandes custos econômicos em 2022, e as empresas estão lutando para decidir como ajustar suas estratégias. Conforme relatado pelo Financial Times, a General Electric disse que há "restrições significativas da cadeia de produção". O mesmo jornal informa que executivos da Apple alertaram que o grupo pode sofrer uma queda de até 8 bilhões de dólares no trimestre atual devido a ventos contrários que incluem desabastecimento da cadeia de produção e fechamento de fábricas na China, ressaltando que os desafios colocados pela pandemia estão longe do fim para a empresa mais valiosa do mundo. "Restrições de fornecimento causadas por interrupções relacionadas ao vírus da Covid e escassez de silício em todo o setor estão afetando nossa capacidade de atender à demanda dos clientes por nossos produtos", disse Luca Maestri, diretor financeiro da Apple . Por fim, também de acordo com o Financial Times, os bloqueios de coronavírus na China estão consumindo as receitas de grandes redes globais de varejo, com centenas de milhões de moradores confinados em suas casas no maior mercado consumidor do mundo. A Starbucks e a Yum China, proprietária local das marcas KFC e Pizza Hut, estão entre os grupos multinacionais que alertam sobre a queda nas vendas, já que a política inabalável de zero COVID do presidente Xi Jinping corrói a confiança do consumidor e sufoca as cadeias de produção na China .

As multinacionais também têm preocupações de longo prazo com o aumento das tensões geopolíticas. Empresas americanas com operações na China sofreram golpe após golpe desde que Donald Trump entrou na Casa Branca. Políticos nas administrações Trump e Biden, bem como no Congresso, pressionaram para se desvincular da China, usando instrumentos de política, incluindo tarifas, restrições de exportação, bloqueio de sanções, proibições de importação e ordens de desinvestimento para cortar os laços econômicos entre os dois países. Em sua maioria, as multinacionais resistiram porque a China continua sendo um mercado lucrativo. Mas, assim como as questões sociais no ativismo de esquerda, no atual clima tenso nos EUA, não se pode esquecer que os formuladores de políticas dos EUA têm criado um clima de vergonha moral ao fazer negócios na China, o que pode levar a mais sanções no futuro. Um Congresso mais beligerante poderia criar um mecanismo de revisão dos investimentos de saída nos próximos anos. E com a incerteza estratégica que paira sobre a globalização os executivos estão mais abertos a pensar sobre o que foram considerados eventos de baixa probabilidade. Em particular, a invasão russa da Ucrânia está gerando reflexões sobre o que pode acontecer se Pequim iniciar um conflito com Taiwan. Uma repetição das sanções impostas à Rússia provavelmente significaria o fim da China como uma opção de crescimento para as multinacionais.

2008 chinês?

Quem fala assim da situação atual não sou eu, mas um dos empresários mais amigo da China dos últimos tempos. O fundador e presidente de um dos maiores grupos de investimento de capital de risco da Ásia criticou o governo chinês por políticas que, segundo ele, causaram uma "profunda crise econômica" comparável à crise financeira global de 2008. Weijian Shan, cujo grupo PAG administra mais de 50 bilhões de dólares, disse que seu fundo se diversificou fora da China e está sendo "extremamente cuidadoso" com seu portfólio no país. "Acreditamos que a economia chinesa está agora na pior forma dos últimos 30 anos", disse ele em um vídeo de uma reunião visto pelo Financial Times. "O sentimento do mercado em relação às ações chinesas também está na mínima desde 30 anos”.

Seu julgamento é provavelmente exagerado, mas ele fala da mudança de opinião de executivos de grandes empresas, fundos de investimento e analistas econômicos fanáticos e grandes defensores da China, que sempre falaram contra todos os anunciadores de catástrofes do modelo chinês em todos esses anos, e até décadas. Outra reviravolta surpreendente é a de Stephen Roach, ex-presidente do Morgan Stanley Asia que ganhou muito dinheiro com a China. Em entrevista ao SupChina, um meio de uma entrevista online ,este economista especialista em China, que é ouvido tanto em Wall Street como em Pequim, afirmou que os principais problemas da China – a política de zero Covid, a proximidade com a Rússia, o desenvolvimento da tecnologia, etc. – são devidos a "um processo de tomada de decisão surpreendentemente rígido, que, em primeiro lugar, é incapaz de reconhecer seus erros e, em segundo lugar, não é suficientemente flexível para adotar uma estratégia diferente” Para ele, “mesmo um partido único e um Estado autoritário devem ter debates e serem capazes de se olhar no espelho” .

E como exemplo dessa falta de pensamento crítico dentro do regime burocrático, ele citou que hoje, devido ao poder absoluto de Xi, não há ninguém que possa fazer um comentário como o que o ex-primeiro-ministro Wēn Jiābǎo fez em março de 2007, em uma reunião conferência de imprensa após o Congresso Nacional do Povo, na qual disse: "A economia chinesa é forte na superfície, mas abaixo da superfície é instável, desequilibrada, descoordenada e, em última análise, insustentável" . Na mesma entrevista, ele sustenta que há uma percepção clara de que o déficit de crescimento é significativo e provavelmente duradouro, questão que analisei em relação à crise do gigante imobiliário Evergrande e a difícil passagem do “crescimento fictício” para o “crescimento genuíno” na China. Ele também fala da angústia do mercado de trabalho, raramente capturada pelos dados oficiais do desemprego chinês, que em suas palavras “… pode ser uma indicação de que a cadeia de suprimentos e as consequências do COVID são mais graves do que o esperado”.

No quadro do difícil equilíbrio a nível internacional, como assinalamos a respeito da guerra na Ucrânia, onde se transita entre a aliança com a Rússia e a dependência do Ocidente, todas essas frentes de nuvens internas pintam um quadro altamente complexo alguns meses antes de uma reunião decisiva para o futuro do secretário-geral do PCCh e da China. A ideia dele de acalmar os ânimos este ano para que esse encontro decisivo corra bem indo por água abaixo. A China encontra-se, assim, numa situação de dificuldades internas e externas. Isso cria um momento perigoso para Xi e a consolidação de seu salto bonapartista, que pode ser questionado no próximo Congresso do Partido, na realidade econômica, social e de luta de classes que se avizinha. A burocracia do PCCh corre o risco de se tornar cada vez mais disfuncional se os pontos fortes do milagre chinês derem lugar às suas vulnerabilidades.




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