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Breves apontamentos sobre a geopolítica da vacina

Simone Ishibashi

Ilustração: Juan Chirioca.

Breves apontamentos sobre a geopolítica da vacina

Simone Ishibashi

Nas últimas semanas o país viu-se mergulhado em meio à explosão de mortes pelo coronavírus. Manaus, cujos hospitais se transformaram em “câmaras de asfixia”, está sendo o epicentro de uma crise sem precedentes. Os relatos de familiares desesperados, de médicos e trabalhadores da área da Saúde absolutamente traumatizados, e claro, das circunstâncias das mortes que escalaram enormemente, são duros e difíceis de esquecer. “A Amazônia é o pulmão do mundo, só que os amazônidas, o povo da terra, estão morrendo por falta de oxigênio", resumiu Osmir Bindá de Magalhães, filho de um aposentado que está enfrentando a Covid-19 em casa, pelo colapso da Saúde.

Em meio a essa situação, as disputas inter-burguesas dentro do país acirraram-se. Bolsonaro que havia mantido seu apoio durante a pandemia em base ao auxílio, agora enfrenta um debilitamento significativo, com a taxa de desaprovação de 45%. Isso se aprofundou após Doria, em uma ação absolutamente midiática e tendo em vista as disputas presidenciais de 2022, ter iniciado a vacinação. Ação demagógica já que Doria, e todos os setores golpistas que hoje se colocam contra Bolsonaro visando seus interesses próprios, também são responsáveis pelo recorde de mortes no país, e que apesar da intensa propaganda, a quantidade de vacinas disponíveis não chega sequer para 4% do grupo prioritário, incluindo os trabalhadores da saúde.

Um dos efeitos da crise aberta é o golpe ao que restou da “ala ideológica” do governo. Ernesto Araújo é uma das figuras mais abjetas que compõem o governo de Bolsonaro. Fundamentalista evangélico que busca fundar um Estado teocrático no Brasil, antimarxista declarado, muito embora não seja capaz de compreender o que é realmente marxismo, e um dos porta-vozes da debilitada “ala ideológica” do governo, Ernesto Araújo em 2017 expressou sua visão de mundo fundada em reacionarismos em igualmente execrável artigo.

Naquela ocasião, Araújo afirmou que Donald Trump seria “o defensor do ocidente”, que estaria ameaçado pelo “marxismo ocidental”. Para tentar levar à prática suas crenças que beiram as superstições, Araújo tentou fundar uma espécie de corrente própria de diplomatas. Sua forma de levar esse objetivo foi a criação e nomeação de cargos, para os quais nomeia fundamentalistas como ele próprio, e impondo mudanças nos cursos para formação de diplomatas.

O aspecto internacional da presente crise veio à tona. A derrota de Trump deixou Bolsonaro e Ernesto Araújo órfãos do principal pilar para suas plataformas reacionárias. Muito embora mesmo durante todo o seu governo Trump jamais tenha dado concessões dignas de nota a Bolsonaro, tendo taxado o aço brasileiro, a sua derrota configura um golpe, inclusive com grande peso simbólico. Neste marco disputas e tensões com a China sobre o fornecimento de insumos para a fabricação da vacina Coronavac, trouxeram à tona novamente a “geopolítica da vacina”.

A natureza das disputas internacionais em torno da vacina

A crise em torno das vacinas está tornando ainda mais evidente as contradições, disputas e irracionalidades do sistema capitalista internacional. A linha indelével que separa os imperialismos das semicolônias e países dependentes agora se traduz também pelo acesso à vacina. Se por um lado as populações de diversos países se sentiram aliviadas com a notícia da aprovação em caráter emergencial das vacinas, por outro a realidade segue ainda marcada em grande parte pela incerteza sobre as perspectivas.

Como já foi citado aqui “de acordo com estudos internacionais cerca de 70 países periféricos do sistema só poderão vacinar em 2021 uma de cada dez pessoas, em contraste com as potências imperialistas da União Europeia e dos Estados Unidos já têm doses para vacinar uma média ao menos três sua população. Estima-se que cerca de 82% da produção da produção da Pfizer e 78% da Moderna já foram vendidas para aqueles países”. Dessa forma, os países pobres teriam que esperar até 2024 para vacinar a sua população. A escassez das vacinas não deriva de qualquer dificuldade técnica para sua fabricação, mas simplesmente das ações que os grandes monopólios farmacêuticos adotam para garantir seus enormes lucros, mantendo as patentes das vacinas em um momento em que milhares de pessoas estão morrendo a cada dia.

Neste contexto, a China tem buscado se localizar como uma espécie de contraponto das potências imperialistas ocidentais, tendo anunciado que integraria um consórcio da Organização Mundial da Saúde para prover insumos e vacinas aos países pobres. Parte dos analistas interpreta essa ação como uma via de consolidar sua posição internacionalmente, buscando ampliar dessa forma sua localização como potência. A China é responsável por produzir o ingrediente farmacêutico ativo para a vacina Oxford-AstraZeneca, fabricada no Brasil.

Ademais, com essa iniciativa a China busca galgar posições como detentora de monopólios nos ramos da biotecnologia, que já vinha sendo um terreno chave de investimento e disputa com os países imperialistas, em especial na área de genética. Muito embora seja preciso notar que nesse terreno a China não seja equiparável aos Estados Unidos e à Alemanha, como pretendem alguns analistas impressionistas com a entrada chinesa nesses setores, a exportação de capital nessas áreas já se faz presente no Brasil. Parte das máquinas dos centros de testagem da Fiocruz no Rio de Janeiro, por exemplo, são da empresa chinesa BGI/MGI, uma das mais importantes do “Vale do Silício” chinês em Shenzhen.

Em meio e esses elementos, eis que após passar grande parte do seu governo desde que se iniciou a pandemia negando a vacina, disseminando afirmações tresloucadas que iam desde a possibilidade de “virar jacaré” após tomá-la, até deixar correr a lenda urbana de que essa seria uma estratégia para “implantar chip”, agora Bolsonaro se viu em uma corrida desesperada para obtê-la. A percepção de que a política externa absolutamente reacionária de Bolsonaro foi um dos fatores responsáveis pelos enormes índices de morte pelo Covid-19 se aprofundou ainda mais, conforme este dava passos desmoralizantes. Ridiculamente Bolsonaro fretou um avião para supostamente buscar doses de vacina na Índia, enquanto o governo daquele país declarava via imprensa que não realizaria o fornecimento. E como é sabido neste meio tempo a China igualmente tem tardado a fornecer os insumos para a fabricação da vacina no Brasil.

Rapidamente os grandes meios passaram a disseminar a interpretação de que a demora é produto da crise gerada pela política externa de Bolsonaro, materializada em seu infame ministro das relações exteriores Ernesto Araújo. Alguns meios chegaram a noticiar que a China, através de Yang Wanmig seu embaixador em Brasília, teria exigido a saída de Ernesto Araújo do governo como condição para o fornecimento dos insumos. Até o momento a possibilidade de que ele efetivamente se retire ainda não está completamente descartada.

Ainda que as tensões que o governo Bolsonaro acumulou com a China cumpram um papel importante na demora do fornecimento dos insumos, se colocando como um fator que torna a geopolítica das vacinas um reflexo da geopolítica da crise internacional, outros analistas apontam para elementos distintos. De acordo com essas análises, uma espécie de sanção chinesa à política de Bolsonaro teria um limite de não se alongar demasiadamente, já que isso poderia comprometer a imagem que busca projetar internacionalmente de que priorizaria o fornecimento aos países da periferia do sistema.

Mas o fator mais importante para colocar contrapeso à noção de que a China busca retaliar em profundidade o Brasil, deriva de que apesar da retórica, Bolsonaro não feriu os interesses estratégicos de Xi Jinping. Muito pelo contrário, nesse terreno Bolsonaro tem retrocedido nas tensões com a China cada vez mais. No mundo pós-Trump, Bolsonaro além de se disciplinar em relação à Biden e aos Estados Unidos, acaba de anunciar que seu governo não criará qualquer empecilho para a participação da Huawei nos leilões de 5G, programados para ocorrer em junho. E o fornecimento do 5G é um dos pilares dos interesses estratégicos da China hoje.

Superar a irracionalidade capitalista

A queda de braços em torno da vacina desnuda as disputas de interesse das distintas potências e seus monopólios, e a ganância capitalista mesmo em momentos como o atual, nos quais milhares de pessoas perdem suas vidas pela irracionalidade desse sistema. O uso dos avanços e descobertas científicas que poderiam estar salvando vidas é calculado de modo a garantir a taxa de lucro de investidores. Os Estados, a despeito de diferenças de retórica, buscam reservar para si uma localização privilegiada no sistema internacional, atuando “umas em detrimento de outras”, como Lênin bem descreveu há pouco mais de cem anos ser a essência das nações capitalistas na época imperialista.

Portanto, uma saída de fundo deve ser dada a partir da ruptura com essa lógica e a geopolítica da vacina, o que implica na superação do sistema capitalista e toda a sua irracionalidade, que custa vidas. Há que garantir o acesso aos imunizantes que foram produzidos, combatendo seu monopólio por parte da “big pharma” para as populações de todos os países, e em especial para os setores mais vulneráveis, compostos justamente pelos trabalhadores e pela população, na maioria negra, dos países da periferia do sistema. A geopolítica da vacina precisa ser combatida para dar lugar à unidade internacional dos trabalhadores, que devem quebrar as patentes e produzir os insumos para as vacinas e os estudos de sua eficácia. É a partir disso, e ao contrário do que fazem os governos e os monopólios farmacêuticos, que a população poderá ter acesso às informações sobre os imunizantes existentes, de modo a aperfeiçoá-los. É a partir de uma perspectiva anticapitalista que as vidas podem passar a valer mais que os lucros.

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Simone Ishibashi

Rio de Janeiro
Editora da revista Ideias de Esquerda e Doutora em Economia Política Internacional pela UFRJ.
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