Opinião

CRISE AMBIENTAL

Bolsonaro protege Ricardo Salles com troca na PF: nos limites da “destrumpização” do governo?

Nos marcos da pressão diplomática do imperialista democrata Biden para refundar o governo Bolsonaro e eliminar dos ministérios figuras ligadas ao trumpismo, como Ernesto Araújo que já encontrou seu destino, Ricardo Salles do Meio Ambiente é o alvo da vez. Às vésperas da cúpula de líderes sobre as mudanças climáticas, o delegado Alexandre Saraiva apresentou notícia-crime ao STF acusando Salles de crime ambiental e pedindo sua investigação, logo depois veio a público a decisão de retirar Saraiva do comando da PF no Amazonas, em um claro movimento de blindar o Ministro de maiores ataques.

sexta-feira 16 de abril| Edição do dia

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Que o Ministro da destruição do meio ambiente, Ricardo Salles, é envolvido em todo tipo de esquema criminoso ligado aos interesses dos madeireiros, dos latifundiários agroexportadores e garimpeiros é evidente para qualquer um que possa ver. Lembremos de sua declaração cínica e absurda falando em “passar a boiada” da flexibilização nas leis ambientais, essa é a parte constitutiva fundamental da política bolsonarista no país: a reprimarização acelerada da economia, a expansão agressiva da fronteira agrícola no interior do país e o extrativismo desenfreado.

Mas é importante notarmos as razões pelas quais, somente agora, essa questão ganha os holofotes da grande mídia e reverbera nas disputas políticas do regime. Apesar das turbulências anteriores, como na queimada do Pantanal ano passado, o contexto geral no qual se inscreve o embate entre o delegado da PF Alexandre Saraiva e Ricardo Salles é qualitativamente diferente, afinal estamos ainda vendo os efeitos da reforma ministerial de Bolsonaro e da crise com a cúpula dos militares se desdobrar em novos fatos políticos a cada semana.

A crise se dá em torno de uma apreensão recorde em quantidade de madeira ilegal realizada no final do ano passado pela PF na fronteira entre o Amazonas e o Pará. Na Operação Handroanthus foi apreendido um valor estimado em R$ 129.176.101,60 de extração ilegal. A partir desse momento Salles, como bom advogado dos madeireiros que é, passou a atravancar o andamento do processo e pressionar a PF para uma resolução que garantisse a legalidade das remessas apreendidas. As rusgas em torno dessa questão tem se arrastado meses, então porque só agora que vemos estourar a denúncia que ainda engloba o Presidente do Ibama, Eduardo Abim, e o senador Telmário Mota (PROS-RR)?

Um aspecto inegável do ponto de vista da correlação de forças do governo (apesar do que tentam alentar setores da mídia com o discurso de “auto-golpe”) é de que Bolsonaro hoje, ainda que esteja sustentado pelo regime político; por setores peso pesado do empresariado brasileiro e uma base social dura de 30% da população, se encontra condicionado cada vez mais aos interesses do Centrão no Congresso e sofre pressão pelo STF golpista para “dançar no ritmo” que ditam os violinos capitalistas.

Há um acordo comum, agora englobando também o presidente de extrema-direita a contra gosto, para estancar o desgaste da imagem do Brasil no exterior, fato que atrapalha nas negociações e no comércio exterior. Bem como de evitar que seu negacionismo descarado junto a uma ala dos militares acabe por se tornar um catalisador de radicalização dos protestos e das lutas de resistência que começam a "pipocar" pelo país.

Veja também: Unificar os focos de resistência: que as centrais sindicais construam um dia nacional de lutas no 20 de abril

É nesse sentido que devemos encarar o “tiro de aviso” de Arthur Lira (PP-AL) ao declarar que “aperta um sinal amarelo a quem quiser enxergar”. Dentro dessas disputas podemos dizer que se iniciou um processo de “destrumpização” do governo, com figuras expoentes da ala mais obscurantista ficando na mira de ataques diretos via declarações e de uma pressão para destituição por parte do próprio Presidente, evitando maiores desgastes de processos e trâmites entre os poderes da República do Golpe. Além de Ernesto Araújo, estão na berlinda Ricardo Salles, Milton Ribeiro, entre outros ministros.

As impressões digitais do imperialismo democrata de Biden estão por todos os lados nesse processo, que abre canais de diálogo com Bolsonaro, mas também faz suas exigências dos termos em que se dá. Diferentemente da linha extrativista agressiva e predatória - mas não menos devastadora ao meio ambiente - uma marca registrada de Biden em seus poucos meses de mandato é o “capitalismo verde” e sua demagogia de preservação ambiental. Parte disso a iniciativa de convidar 40 líderes mundiais para a Cúpula do Clima em Washington nos dias 22 e 23 de Abril, reunião a qual Bolsonaro foi convidado.

Tudo parece confluir nesse sentido, na esteira dessa reunião foram dadas declarações de um membro do departamento de Estado sinalizando claramente que o imperialismo estadunidense tem como um de seus principais objetivos impor uma derrota ao avanço do agronegócio brasileiro que disputa diretamente o mercado chinês com os ruralistas dos EUA que tiveram seus produtos taxados pela China e veem no avanço desses setores do agronegócio e do extrativismo no Brasil um risco aos seus lucros, como desenvolvemos nesse texto:

Amazônia: a demagogia verde de Biden e o negacionismo de Bolsonaro

Tudo isso mascarado, é claro, de um combate às ações ilegais de queimadas, grilagem de terras e tudo de mais podre no universo do latifúndio. E que mesmo sem a ameaça direta de sanções econômicas fala com tranquilidade que “o mercado cuidará de fazê-lo". Se por um lado Bolsonaro sente essa pressão e envia carta a Biden se comprometendo a acabar com o desmatamento ilegal até 2030 a Casa Branca quer resultados e compromissos para agora, um aspecto urgente da política para o imperialismo dos EUA.

É notório que recentemente tenha acontecido uma reunião virtual entre Helder Barbalho (DEM-PA) Governador do Pará e Todd Chapman, embaixador dos EUA no Brasil. Os pontos centrais da discussão foram acordos para facilitar vacinas entre os lados e a apresentação do Plano Amazônia Agora para o “desenvolvimento sustentável" da Amazônia. Um sinal de alinhamentos mais profundos entre o imperialismo de Biden e forças do Centrão no que tange a Amazônia?

Por outro lado, a decisão de trocar o comando da PF no Amazonas, que ainda não se sabe ao certo se é uma retaliação a denúncia crime ou o contrário, claramente sinaliza uma disposição de Bolsonaro de manter essa peça chave de seu governo a custos políticos que ainda estamos por ver. Em um cenário de debilitamento de Bolsonaro, queda de popularidade e queda nas intenções de voto das pesquisas eleitorais, o agronegócio e o extrativismo predatório ligados a Ricardo Salles são base importantíssima para que o atual Presidente não se torne uma espécie de fantoche no regime, com pouco poder de decisão sobre os rumos da política.

Manter o Ministro está na ordem do dia, e para isso se vale de uma intervenção descarada, estaríamos diante de um limite à “destrumpização” imposta por Biden? Há que se ver no desenrolar das próximas semanas.

Mas uma coisa é certa, para nos opormos à devastação ambiental causada por Bolsonaro, Salles e o agronegócio, não podemos confiar ou ter ilusões de que o “capitalismo verde” de Biden é uma opção. A destruição do planeta pela sede de lucro é um ponto comum em ambos projetos. Precisamos levantar e batalhar por um programa independente dos trabalhadores, das comunidades locais, povos originários, quilombolas e camponeses pobres que hoje sofrem com a devastação ambiental. Um programa operário e anticapitalista que busque varrer as heranças escravista e colonial do latifúndio.

Lutemos pela suspensão dos repasses bilionários aos capitalistas do agronegócio e o repasse de verbas em planos de reflorestamento e gestão das florestas, bem como uma reforma agrária radical que desmantele o latifúndio e garanta autonomia e integridade às terras indígenas e quilombolas. Por uma empresa estatal e com monopólio na produção e comercialização de soja, milho e outros grãos controlada e gerida pelos trabalhadores para que os elementos da técnica e do avanço científico permitam uma relação harmoniosa com a natureza, entendendo que para que vislumbremos tal simbiose entre humanidade e natureza é preciso superar a lógica de acumulação capitalista e construir uma nova sociedade, socialista, pautada em outros valores.




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