Internacional

DEBATE NA FIT ARGENTINA

Argentina: Debate na Frente de Esquerda (FIT): frente única e frente eleitoral

Matías Maiello

Buenos Aires

Fredy Lizarrague

Dirigente Nacional do PTS da Argentina

quinta-feira 18 de junho de 2015| Edição do dia

FOTO: Enfoque Rojo

O Partido Obrero (PO) tem criado uma grande confusão a respeito do conceito de Frente Única. Primeiro, Jorge Altamira em seu discurso no ato de lançamento da pré-candidatura [presidencial] Altamira-Giordano, com o qual polemizamos num artigo anterior. Agora, Gabriel Solano aprofunda este confusionismo como “resposta” à nova proposta global que fizemos para uma lista de candidaturas comum nas PASO [eleições primárias].

Diferenças reais e desculpas para negar uma lista de unidade

Entre seus argumentos afirma que na realidade o problema para que se vá às PASO é que o PTS está sendo “arbitrário” ao discutir a possibilidade de uma candidatura de “Perro” Santillán, na medida que este “assinou um acordo que vai longe na defesa de princípios socialistas”.

No entanto, nunca defendemos como método para a integração à FIT nenhum tipo de juramento pelos “princípios socialistas”. Nossa posição sempre foi cristalina. Começando pelo fato de saudar que correntes como a de “Perro” Santillán, Pueblo en Marcha e outras organizações se proponham a apoiar a FIT nas eleições, defendemos que para uma integração à FIT é necessário “iniciar uma prática comum e um debate profundo e sério sobre o programa da frente”.

Isso, segundo o PO, seria uma “arbitrariedade” (para nós se chama seriedade), na realidade tem a ver com desacordos programáticos reais – não de “princípios socialistas” genéricos. O PO chega ao absurdo de afirmar sistematicamente que estas organizações têm acordo completo com o programa da FIT, o que elas não confirmam.

Por exemplo, desde sua fundação a FIT se delimitou cabalmente dos governos chamados “pós-neoliberais”, destacando a necessidade de desmascarar governos como o de Evo Morales, na Bolívia, ou o chavismo, na Venezuela, que, diga-se de passagem, também falam em socialismo.

“Perro” Santillán e sua corrente criticamente têm como referência estes governos, como já demonstramos em outra oportunidade, e nas plenárias de delegados do SEOM [sindicato dos servidores municipais da cidade de Jujuy] Santillán anunciava o lançamento do seu “Partido do Povo” com o lema “fazer igual a Evo”.

“Pueblo en Marcha” também tem colocado a discussão nitidamente. Caracterizando que se trata “de experiências avançadas de lutas em outras regiões, como o processo bolivariano, Podemos ou Syriza”, afirmam que é necessário uma “delimitação” a respeito de “uma caracterização sectária de parcela das diferentes forças da FIT”. Segundo eles, seríamos “sectários” por determinar cabalmente o caráter destes governos, e dizem: a FIT “tende a interpretá-los como subjugados a direções bonapartistas que na prática freiam a organização autônoma da classe trabalhadora e dos setores populares, atrasando a sua maturidade política, gerando confusão e criando falsas expectativas em torno de alianças políticas incapazes, em virtude da sua composição de classe, de conduzir ao socialismo”. Exatamente isso é o que define o programa da FIT.

Por sua vez, não por casualidade, o PO também oculta que integrantes de “Pueblo en Marcha” apoiam na cidade de Rosário a chapa “Ciudad Futura”, concorrente da FIT e com um perfil político que nada tem a ver com a independêmncia política dos trabajadores.

Nem falar da corrente Comunismo Revolucionário que declara explicitamente: “Nós adotamos a postura tática de apoiar a FIT nestas eleições, não em base ao programa constituinte da FIT – que logicamente é de caráter trotskista –,mas ao programa de campanha...”

Não parece ser muito “arbitrário” dizer que temos diferenças programáticas sobre as quais devemos fazer um debate profundo, assim como uma prática comum, antes da incorporação à FIT. O realmente arbitrário é o PO querer unir esta discussão à necessidade de ir às PASO com listas [de candidatos] separadas [uma do PO com Izquierda Socialista (IS), outra do Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS)], já que justamente o que temos avançado na FIT nos últimos dias é em nos colocarmos de acordo com um método comum a respeito das possíveis candidaturas de grupos ou indivíduos que apoiam a FIT.

Como está no regulamento para as PASO, em seu artigo 7º, aprovado por todos os partidos da FIT antes da publicação do artigo de Gabriel Solano: “Nenhuma lista [de candidatos] poderá apresentar em cargos possíveis de ser eleitos, nem nos primeros lugares, candidatos que pertençam a outras organizações políticas não integrantes da Frente de Izquierda y de los Trabajadores [FIT], salvo se houver acordo de todos os partidos integrantes da aliança.”

Tendo alcançado um método comum a esse respeito, o argumento do PO apenas pode representar uma nova desculpa para rechaçar, de pronto, as propostas que temos feito para formar uma lista de unidade da FIT para as PASO.

Outra desculpa é o ataque à revista Ideas de Izquierda [IdZ], a única publicação ideológica de circulação massiva de debate marxista que tem referência na FIT, reconhecida publicamente por aliados, adversários e inimigos. Segiundo Solano, “no único terreno que o PTS pratica a frente única é onde é inadmissível: no terreno teórico e ideológico, onde é necessário esclarecer posições e não confundi-las em alianças com setores alheios à luta de clsasses e ao socialismo. Ou Ideas de Izquierda não é, em inúmeros casos, uma frente única ideológica com intelectuais democratistas e até liberais e socialistas de cátedra da academia?”

Lembramos Solano que o comitê editorial de IdZ está formado, além de militantes do PTS, por intelectuais que subscrevem o programa da FIT desde sua fundação. Por outro lado, faria bem em ler a revista para constatar que traz importantes debates, e quem escreve, além do comitê editorial, sempre o faz em seu nome como “tribuna aberta”, o que obviamente não implica nenhuma “frente única”.

Frente única e frente político-eleitoral

O PO se desvia cada vez mais para uma interpretação abertamente oportunista da tática de frente única elaborada pela III Internacional, o que nos obriga a esclarecer a questão. Aqui vamos concentrar nos erros fundamentais da proposição de Solano.

Primeiro erro: o PO afirma que “segundo o PTS, as frentes únicas são válidas para a ’luta de classes’, mas não para eleições, anunciando a possibilidade de uma política socialista que não se assente na luta de classes. Trata-se de um disparate, por um lado, e de uma concessão ao anarquismo, por outro”.

Que a frente única é uma tática pensada para intervenção na luta de classes não é invenção do PTS, pois essa foi sua origem e significado para a III Internacional, assim como para Trotsky, quem afirma, a respeito da frente única na Alemanha no princípio dos anos 30: “Os acordos eleitorais, os compromissos parlamentares feitos entre o partido revolucionário e a social-democracia [reformistas], costuma servir, em regra geral, a esses últimos. Um acordo prático para ações de massas, por objetivos de luta, faz-se sempre em proveito do partido revolucionário.”

Se isso fosse pouco, em continuidade realçava: “Nenhuma plataforma comum com a social-democracia ou os dirigentes dos sindicatos alemães, nenhuma publicação, nenhuma bandeira, nenhum cartaz comum! Marchar separados, golpear juntos! Colocar-se de acordo unicamente sobre a maneira de golpear, sobre quem e quando golpear!” (Ler “Por uma frente única operária contra o fascismo”, 1931.)

Ou seja, para Trotsky, o terreno propício para a frente única não são os acordos eleitorais, mas as “ações de massas por objetivos de luta”. Diferencia ambos terrenos, e por isso assinala nitidamente, seguindo a tradição da III Internacional: “golpear juntos” e “marchar separados”. Não como parece ser a sugestão do PO: “(não) golpear juntos” e “marchar juntos”.

Segundo erro: conforme o PO “Trotsky propunha constituir comitês de ação de frente única na campanha eleitoral (livro Aonde vai a França). Nisso consiste a política socialista no terreno eleitoral.” Neste ponto a confusão chega ao nível máximo. Cabe esclarecer para o leitor que a campanha eleitoral a que se refere o PO é a da Frente Popular francesa de 1936, na qual o Partido Comunista estava aliado com os reformistas do Partido Socialista e uma fração do Partido Radical, que historicamente havia sido o defensor da opressão francesa contra suas colônias. No artigo do PO faz-se referência a este fato,mas sem levá-lo em conta minimamente.

O que têm a ver os comitês de ação da Frente Popular francesa, os quais Trotsky considerava “uma coalizão do proletariado com a burguesia imperialista representada pelo Partido Radical e outras porcarias da mesma espécie e de menor envergadura”, com a FIT, que é uma frente de partidos pela independência de classe? Trotsky ressalta o pronunciamento dos stalinistas a favor do desenvolvimento de “comitês de ação eleitos como apoio de massas da ’Frente Popular’” como a “única ideia progressista de toda a resolução” sobre a Frente Popular. E esclarece: “Mas é justamente por isso que os stalinistas não fazem nada pela sua concretização. Não podem se decidir a fazê-lo sem romper a colaboração com a burguesia.” (Aonde vai a França).

Se, como citamos antes, Trotsky era muito preciso a respeito dos contornos da frente única na Alemanha nos anos 30 (“marchar separados, golpear juntos”), justamente quando lutava contra o stalinismo que se negava a qualquer frente única, e foi ainda mais preciso na França anos depois quando o stalinismo fomentava, em nome da frente única, a colaboração escancarada com a burguesia imperialista.[1]

Sem dúvida, se trata de uma discussão tirada do seu contexto para uma utilização “de momento” que, no mínimo, mostra a total leviandade de Solano na hora de introduzir-se na discussão teórica.

Ao contrário do que afirma Gabriel Solano, não se tratava, para Trotsky, de “construir comitês de ação de frente única na campanha eleitoral” como forma de intervenção no “terreno eleitoral”; os comitês de ação eram justamente para romper a paralisia na luta de classes que a Frente Popular impunha. Tratava-se de formar os “comitês de ação” que levasse a frente única ao terreno da ação na luta de classes contra a orientação da Frente Popular de paralisação dos trabalhadores, subordinando-os à burguesia e, mediante ilusões, no desenvolvimento eleitoral. A questão consistia em mudar o terreno da intervenção da frente única das eleições para o da luta de classes, com a mesma lógica que mencionamos no primeiro ponto, para derrotar a Frente Popular.

O próprio Trotsky disse: “Seria errôneo acredigtar que basta chamar as massas para as eleições dos comitês de ação, para um dia e hora fixados e sobre a base de estatutos determinados. Semelhante maneira de abordar a questão seria puramente burocrática e, em consequência, estéril. […] Não se trata de uma representação democrática de todas, e não importa quais, massas, mas de uma representação revolucionária das massas em luta. O comitê de ação é o aparato da luta.” (Aonde vai a França?)

Diante disso, Solano poderia repetir que a intervenção nas eleições é uma luta política. Claro, mas quando Trotsky, no texto citado por Solano, fala de “comitês de ação” como “aparatos da luta” não se refere a que sejam “aparatos” para a luta eleitoral, mas para lutar contra o fascismo. Se, mesmo que não agrade a Solano, está falando de “ação direta”.

Os “comitês de ação” não tem nada a ver com meros comitês para intervir na campaña eleitoral de 1936. Quais eram as tarefas destes “comitês”, segundo Trotsky? “Em qualquer caso – diz – o movimento de massas que atualmente se choca com o obstáculo da ’Frente Popular’ não avançará sem os comitês de ação. Tarefas como a criação da milícia operária, o armaamento dos operários, a preparação da greve geral, ficarão no papel se a própria massa não se empenha na luta por meio de seus órgãos responsáveis. Somente esses comitês de ação surgidos daluta podem assegurar a verdadeira milícia, contando não mais com milhares, mas com dezenas de milhares de combatentes.” (Aonde vai a França?)

Nada mais distante da interpretação (eleitoral e) disparatada sugerida por Solano, quem, diga-se de passagem, faria bem se lesse previamente os textos que cita.

Esclarecidos estes erros, por que o terreno da frente única é a ação na luta de classes e não as campanhas eleitorais? Não se trata de um capricho de Trotsky, nem do PTS, pois ocorre que a tática de frente única (que não é uma estratégia, como Altamira parece sustentar) consiste justamente na unidade da classe operária para enfrentar a burguesia, acima das divisões impostas pela burocracia (política e sindical) e, desta forma, os trabalhadores podem fazer uma experiência na ação com suas direções reformistas e burocráticas, na qual os revolucionários podem se mostrar como os mais consequentes e decididos, avançando em sua influência, como produto desta experiência comum. É por isso que Trotsky demarca que no terreno dos acordos eleitorais os favorecidos são os reformistas, e na ação, são os revolucionários quem têm “a ganhar”.

Na FIT não há reformistas, e tem um programa de independência de classe, de governo dos trabalhadores, que se delimita das correntes burguesas como o evomoralismo, o chavismo etc., por isso é uma frente progressista. Por isso é que o PTS defende com unhas e dentes o programa da FIT diante de qualquer tenttiva de dilui-lo, ao mesmo tempo em que está disposto a desenvolver todos os acordos pontuais que possa na luta de classes e que impliquem em ações precisas com setores ou direções a quem não exige estar de acodo com o programa da FIT para realizar esses acordos.

Confundir a frente única com um bloco político-eleitoral é despir de todo fundamento tanto a frente única, cuja essência é a ação comum por objetivos determinados na luta de classes, como o bloco político-eleitoral, que se diferencia justamente por seu programa. A consequência disso é transformar ambas em políticas oportunistas.

[1] Tanto é assim que Perry Anderson, e com ele muitos dos que defendem a luta de Trotsky na Alemanha, opina que na França (e na Espanha) Trotsky foi sectário e abandonou sua defesa da frente única. Estas opiniões se baseiam justamente na incompreensão da frente única e em igualá-la aos blocos político-eleitorais. Assim, Anderson diz, sobre Trotsky: “Enquanto em seus ensaios sobre a Alemanha sublinava a imperativa necessidade de ganhar a pequena burguesia local para uma aliança com a classe operária (citando o exemplo do bloco contra Kornilov, na Rússia), em seus ensaios sobre a Frente Popular descartava a organização tradicional da pequena burguesia local, o Partido Radical, por considerá-la meramente um partido do ’imperialismo democrático’ que em princípio deveria ser excluído de toda aliança antifascista.” (Consideraciones sobre el marxismo occidental.)

Tradução: Val Lisboa




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