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Apostamos na organização da classe trabalhadora para enfrentar a pandemia

A pandemia do coronavírus escancarou toda a irracionalidade do sistema capitalista mas também mostrou como é a classe trabalhadora aquela que move o mundo. Diante do caos e da anarquia de um sistema incapaz de se reorganizar para combater um vírus, apostamos na organização das e dos trabalhadores como resposta para superar essa crise.

Flavia Valle

Professora, Minas Gerais

quinta-feira 9 de abril| Edição do dia

Os impactos da Covid-19 vêm atingindo milhares de pessoas em todo mundo. Os sistemas de saúde entram em colapso, cenas bárbaras como as imagens de corpos nas ruas da Itália e do Equador chocam o mundo. Anos de neoliberalismo desenfreado fez com que chegássemos totalmente despreparados para enfrentar uma pandemia como vivemos agora. Em meio a esse cenário, chama atenção as rápidas demonstrações de como a classe trabalhadora é capaz de dar uma resposta profunda para enfrentar essa pandemia e superar a crise que o capitalismo gerou.

Se, por um lado, falta máscaras, álcool gel, equipamentos básicos de segurança e testes massivos, por outro, na linha de frente do combate ao coronavírus, encontramos milhares de trabalhadores da saúde que colocam seus corpos na luta contra essa doença. Como afirmou a enfermeira socialista do Left Voice, Tre Kwon, em entrevista para a rede Globo, são esses trabalhadores, e não os grandes empresários ou os políticos burgueses os que estão realmente preocupados em resolver essa crise, arriscando inclusive as suas vidas para salvar milhares de pessoas.

Internacionalmente, a crise mostra a falência das teorias anticiência e negacionistas da extrema direita, tendo inclusive um dos seus principais representantes, Boris Johnson, internado na UTI vítima do coronavírus. No Brasil, Bolsonaro segue sua linha assassina de não se importar com os impactos da doença, mostrando seu total desprezo com a vida das pessoas, fingindo que existe uma oposição na manutenção dos empregos e no cuidado com a saúde quando, na realidade, a única coisa que importa para ele é manter os altos lucros dos seus aliados empresários e se rastejar diante dos interesses do imperialismo, especialmente de Trump. É nesse contexto que os militares ganham cada vez mais protagonismo na política brasileira, com o general Braga Netto assumindo a condução da crise, moderando as conturbadas disputas entre Bolsonaro e Maia, STF e os governadores. Somos partes daqueles milhares de brasileiros que lutam pelo Fora Bolsonaro, mas essa nossa luta jamais vai significar aceitar que entre Mourão ou os militares.

Tentar combater o vírus somente com a estratégia isolamento social e a tentativa de atrasar o momento em que o sistema de saúde vai colapsar, como defendem os governadores e os militares, se opondo ao negacionismo de Bolsonaro, é uma estratégia que vai levar a morte de milhares de pessoas. Mortes que poderiam ser evitadas se não fosse justamente a lógica capitalista, que coloca em primeiro lugar os lucros. Foram justamente esses governadores, como Dória e Witzel, que, juntamente com Maia e o STF, defenderam ferrenhamente o golpe institucional e todos os nefastos ataques contra a classe trabalhadora, como o congelamento do orçamento da saúde e a precarização do SUS, a reforma trabalhista, a reforma da previdência, entre tantos outros. Ou seja, foram parte de nos fazer chegar até aqui numa situação que agrava muito os impactos da doença. Por isso, não temos nenhuma confiança em Maia, nos governadores ou no STF. E muito menos no Ministro da Saúde, pois o mesmo Mandetta, que hoje aparece em todas as suas entrevistas com o casaco do SUS, foi aquele que sempre defendeu a saúde como um mercadoria e atuou a favor dos grandes monopólios privados do ramo.

Uma resposta de fundo para essa grave crise só pode vir da organização da classe trabalhadora. A greve geral dos trabalhadores italianos diante da situação extrema que os capitalista levaram o país; a luta dos trabalhadores da saúde e dos trabalhadores informais nos EUA – país que hoje é o epicentro da pandemia chegando a registrar 2 mil mortos em um dia –; e os trabalhadores da Airbus na França se recusando a trabalhar para garantir os lucros dos patrões, mas se propondo a trabalhar se fosse para reconverter a produção e fabricar respiradores que podem salvar milhares de vidas são alguns dos inspiradores exemplos internacionais da organização dos trabalhadores que apontam de fato um caminho para responder a essa grave crise.

Em nosso país, temos, por um lado, quase 700 empresas que obrigam os funcionários a trabalharem com suspeita da COVID-19, por outro, vimos expressões ainda moleculares, mas muito importantes de organização dos trabalhadores. Como a revolta dos trabalhadores de telemarketing, da qual temos orgulho de ter sido o principal meio difusor com centenas de denúncias que chegavam todos os dias. Além da organização ainda inicial em algumas fábricas e empresas, com os trabalhadores defendendo testes massivos e equipamentos básicos de proteção individual ou o seu direito de não seguir trabalhando, já que não se trata de serviços essenciais. Os panelaços quase diários daqueles que estão em quarentena, e a organização de uma ampla rede de solidariedade para as famílias das favelas e das comunidades pobres são algumas demonstrações bastante importantes. Apostar numa estratégia que busque fazer com que os trabalhadores se coloquem em cena como sujeitos de uma resposta de fundo para crise sanitária e política deveria ser a prioridade número um dos sindicatos e organizações das classe trabalhadora, movimentos sociais e dos partidos políticos que se colocam no campo da esquerda.

Mas o que vimos foram as centrais sindicais primeiro se restringirem a chamar o congresso para assumir as medidas de resposta a crise – apoiando as iniciativas dos governadores –, o mesmo congresso que votou cada um dos ataques que hoje nos deixam em condições muito mais difíceis para enfrentar a pandemia. Depois, assinaram um documento em que classificam as medidas aprovadas na MP da Morte de Bolsonaro como insuficientes, quando, na verdade, são ataques profundos e parte da tentativa de reestruturar ainda mais as relações trabalhistas, favorecendo totalmente os patrões. Enquanto figuras como Ciro Gomes, Flávio Dino, Fernando Haddad e Roberto Requião (MDB), assinam juntamente com a maioria do PSOL e o PCB um manifesto pedindo a renúncia de Bolsonaro, outros defendem a política do impeachment, como a corrente do PSOL de Sâmia Bomfim, o MES, com apoio do PSTU. Duas variantes de uma política que termina por colocar Maia, Alcolumbre e o parlamento na liderança do “Fora Bolsonaro” para dar lugar a um governo de Mourão.

Nesse momento, deveria ser papel de todos os sindicatos e partidos de esquerda organizar os trabalhadores para dar uma saída de fundo para a crise sanitária e política. Começando pela defesa de medidas elementares diante da pandemia, como a exigência a garantia de testes massivos e fornecimento de equipamentos básicos de proteção individual para todos os trabalhadores que seguem exercendo as suas funções. Defendendo que sejam os trabalhadores os que possam articular o plano de guerra necessário para combater a pandemia, debatendo o que é necessário para reorganizar da produção e garantir máscaras, álcool em gel, respiradores e os leitos de UTIs que forem necessários. Centralizando todo sistema de saúde sob controle dos trabalhadores, garantindo o pagamento de uma renda mínima de 2 mil reais para todas as famílias desamparadas com a crise e os impactos do coronavírus, pensando um plano de emergência para o combate dos efeitos da pandemia nas favelas, proibindo as demissões e dividindo as horas de trabalho nos serviços essenciais entre todos aqueles trabalhadores saudáveis. Se articulando com os estudantes universitários e os pesquisadores para pensar todos os níveis necessários de resposta a crise, seja no âmbito da saúde mas também as questões sociais, habitacionais etc. Suspendendo a EC do teto de gastos, revogando as reformas golpistas e deixando de pagar o roubo da dívida pública, para que o orçamento possa ser usado na implementação dessas medidas fundamentais de combate à pandemia. E como uma resposta de fundo para crise política, que o povo decida os rumos do país, por meio de uma assembleia constituinte livre e soberana, como forma de dar uma saída a altura das grandes mudanças em curso, com a classe trabalhadora na linha de frente da luta por colocar em primeiro lugar nossas vidas e não os lucros dos capitalistas.

Essa é perspectiva que defendemos desde o Esquerda Diário e o MRT. São por essas ideias que lutamos, impulsionando a Rede Internacional La Izquierda Diario, em 12 países e 8 idiomas. Chamamos todos que desejam construir essa saída a fazer parte dos nosso comitês virtuais em diversas cidades e estados do país.




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