SEMANÁRIO

Apogeu e queda do ambientalismo na nascente União Soviética

Roberto Andrés

Foto: delegados do Primeiro Congresso Panrusso pela Conservação da Natureza (1929)
Tradução: Lara Zaramella e Maria Eliza

Apogeu e queda do ambientalismo na nascente União Soviética

Roberto Andrés

Parte 2

Publicamos a segunda parte do artigo de Roberto Andrés sobre a tragédia em que resultou a relação soviética com o meio ambiente e que tendeu a obscurecer o dinamismo da nascente ecologia soviética. Diante dos debates que se colocam com questão da Amazônia, oferecemos uma reflexão de por que recuperar esse legado.

Queda do jovem ecologismo soviético

Todas essas colaborações à ecologia foram produto da primeira época soviética e das formas de pensar dialéticas, revolucionárias ali engendradas. A tragédia em que, finalmente, desembocou na relação soviética com o meio ambiente, que acabou adotando a forma que se caracterizou como “ecocídio” (Feshbach e Friendly) tendeu a obscurecer o enorme dinamismo da jovem ecologia soviética da década de 1920, bem como o papel que Lênin pessoalmente desempenhou na promoção da conservação.

De fato, o movimento conservacionista soviético prosperou na primeira década da Revolução Russa sob a proteção de Lênin. Segundo o historiador norte-americano Douglas Weiner em Modelos da natureza: ecologia, conservação e revolução cultural na Rússia soviética (1988), Lênin se viu comovido depois de ler Os Pântanos: sua formação, desenvolvimento e propriedades (1914), de Vladímir Sukatchov. Weiner aponta:

É sabido que Lênin exclamou com assombro a [Margarita] Fofánova ao saber, através desse livro, o quanto a Rússia estava sobre pântanos e que se entusiasmou com a perspectiva de uma fonte tão grande de combustível barato para a eletrificação, poderíamos especular que Lênin também se viu afetado pelo espírito ecológico holístico do texto pioneiro de Sukatchov em ecologia comunitária.

O sociólogo marxista norte-americano John Bellamy Foster aponta em sua obra A Ecologia de Marx: Materialismo e natureza (2000), que

em seus escritos e em seus pronunciamentos políticos, Lênin insistia que o trabalho humano não podia substituir as forças da natureza, em que era essencial, a “exploração racional do meio ambiente” ou a gestão científica dos recursos naturais de acordo com os princípios da conservação, e em sua qualidade de líder do jovem Estado soviético, argumentou a favor da “preservação dos monumentos da natureza”.


Da esquerda para a direita: Lênin, Sverdlov, Vladimírski e Piotr Smidovitch

Enormes passos se deram nesse sentido na União Soviética dos primeiros anos. A responsabilidade da conservação ficou sob a direção do Comissariado do Povo para a Educação, com o mecenato de Anatóli Lunatchárski e Piotr Smidovitch, um veterano bolchevique bielorruso que se converteu rapidamente na figura central das políticas conservacionistas. Em 1924, o ativismo deu um salto e surgiu a Sociedade para a Conservação da Natureza de toda a Rússia (VOOP, na sigla em russo), que em 1928 lançou com muito êxito sua revista bimestral Okhrana Prirody (Proteção da Natureza), e começou uma campanha de propaganda nas fábricas, no Exército Vermelho, nos clubes de trabalhadores, entre os Jovens Pioneiros e entre os camponeses.

Em setembro de 1929, realiza-se o primeiro Congresso pela Conservação da Natureza de toda a Rússia, elogiado por Smidovitch (em representação do Governo), ao declarar que “o Poder Soviético não pode se não se esforçar por criar condições favoráveis para o desenvolvimento da causa conservacionista”. Além disso, o Comissariado de Educação e os conservacionistas estabeleceram as célebres reservas ecológicas conhecidas como zapoviédnik (santuários), de natureza relativamente primigênia, destinadas à investigação científica, e que, em 1933, chegaram a ser trinta e três, abarcando um total de 2,7 milhões de hectares.

Segundo levantado por Weiner e Foster, Lênin tinha abraçado fortemente os valores ecológicos, em parte por influência de Marx e Engels, e estava profundamente preocupado com a conservação. Mas com sua prematura morte em 1924, o estancamento da revolução internacional, o isolamento da Rússia (com o triunfo, em seguida, do stalinismo) e o giro de 1928 para a industrialização acelerada e a coletivização forçada no campo, se desatou um conflito profundo no qual os conservacionistas foram objeto de crescentes ataques e taxados de “burgueses”, algo promovido pela orientação ultraesquerdista do “terceiro período” do stalinismo. Muitos de seus membros, como Vernadski, Vavílov, Shmalgauzen, entre outros, provinham efetivamente de famílias acomodadas da era pré-revolucionária e tinham se formado academicamente nas instituições elitistas do regime tsarista. Entretanto, seu espírito progressista tinha feito com que vissem com bons olhos a Revolução de Fevereiro, ainda que com relativa desconfiança a de Outubro (com exceção de alguns casos como Vavílov, firmemente comprometido com a revolução operária). Depois da insurreição bolchevique, grande parte se manteve com posições políticas independentes, focados nas tarefas do novo regime soviético e sua contribuição na área das ciências e da conservação.

Mas com o primeiro Plano Quinquenal, baseado na exploração acelerada dos ricos fornecimentos de energia, minerais e outras matérias-primas do país e, em sua grande fonte de trabalho, que significou um giro de 180º em relação à política econômica dos últimos sete anos, e sobre a base da resistência do campesinato à coletivização forçada, os conservacionistas passaram a ser vistos como “inimigos da revolução”. Em uma tentativa por parte do stalinismo de “transformar a natureza” com fins produtivistas em 1927, tinha surgido na biologia soviética a questão do uso dos zapoviédniki para investigar a “aclimatação” de espécies, ou seja, a eliminação de animais e plantas silvestres de seu habitat original, relocalizando-os. Sukatchov e Stanchínski se opuseram taxativamente a essa orientação, argumentando que estas reservas ecológicas deveriam permanecer invioladas, o que levou a Stanchínski a entrar diretamente em conflito com o stalinista Trofim Lysenko e seu principal aliado Isaak Izraílovitch Prezent, que mais tarde liderou a destruição da genética na União Soviética.

Para piorar ainda mais as coisas, o ascenso de Lysenko à condição de árbitro da ciência biológica, significou que se lançassem ataques “científicos” contra a ecologia, a genética, aos geobotânicos e aos conservacionistas. O ataque foi iniciado por Prezent, que, em 1930, no quarto Congresso da União de Zoologia, questionou os argumentos teóricos de Stanchínski sobre dinâmica trófica pondo em dúvida inclusive a validez da ecologia como ciência, para declarar, posteriormente, junto a Lysenko que seu trabalho não tinha “nenhum valor prático”. Mas, em 1931, Stanchínski assume como editor da Revista Ecologia e biocenologia e começa a desenvolver argumentos científicos contra a aclimatização.

É irônico que no momento em que a ecologia soviética estava fazendo grandes avanços, formando um novo enfoque para as comunidades biológicas, começou a ser atacada pelos políticos e cientistas stalinistas, um grupo que dizia representar a geração criada e educada desde a Revolução de 1917, mas que adoecia de um enfoque utilitarista da relação com a natureza e que se opunha a qualquer ciência que indicasse que a natureza pudesse ter propriedades que limitassem a manipulação humana sobre ela. Dessa forma, os conservacionistas começaram a ser vistos como um grupo que, de alguma maneira, se dedicava a colocar obstruções no processo de construção do socialismo por seu compromisso com a “proteção da natureza pelo bem da natureza em si”.


Okhrana Prirody (Proteção da Natureza), revista da Sociedade pela Conservação da Natureza de Toda a Rússia, com imagens de V. Lenin e F. Engels em sua capa (1930).

No começo de 1930, o periódico Proteção da Natureza assumiu uma posição mais arriscada e apontou diretamente contra a industrialização acelerada e a coletivização forçada. Fez soar o alarme com valentia sobre os perigos ecológicos da coletivização em grande escala, através de uma coluna de A. Teodórovitch, que ameaçou: “Desde um extremo a outro de nossa União, um incessante grito de guerra está soando contra o Plano [Quinquenal] e seu aumento da colheita em 35%”, ao que acrescenta: “Entretanto, sem conservação, sem uso racional dos recursos naturais, não se poderá falar de aumentar a colheita”. E para dar mais solidez a suas advertências sobre “a destruição do equilíbrio nos reinos animal, vegetal e mineral”, invocou as palavras de Friedrich Engels de Dialética da Natureza sobre o verdadeiro significado do conceito de dominação da natureza. Mas o peso do aparato stalinista começou a ser sentido também no interior da Sociedade para a Conservação da Natureza. Exatamente um ano depois da denúncia de Teodórovitch, a revista mudou seu nome para Natureza e economia socialista, e agora aparecia como organismo responsável de sua publicação, uma Sociedade para a Conservação e a Promoção do Crescimento dos Recursos Naturais.

A repressão física também chegou. Tchaiánov foi preso pela primeira vez em 1930 e processado sob a acusação de pertencer a um suposto Partido dos Camponeses e Operários (que só existia literariamente em sua novela Eutopia, de 1920). Em 1932, voltou a ser preso, dessa vez, julgado em segredo e condenado a cinco anos de trabalhos forçados no Cazaquistão. No dia 3 de outubro de 1937 foi preso de novo e imediatamente executado em segredo. Em fevereiro de 1934 Stanchínski foi preso, torturado e condenado a 5 anos de trabalho forçado. Em 1940, seria novamente preso, acusado de espionagem e agitação antissoviética. Depois de ser condenado a 8 anos de trabalho forçado, morreu em 1942 de miocardite na prisão de Vologoda, tendo o lugar de enterro desconhecido.

Segundo comentam os biólogos marxistas norte-americanos Richard Levins e Richard Lewontin em O biólogo dialético (1985):

O episódio mais notório foi a prisão de Nikolai Vavílov em agosto de 1940. Vavílov, pioneiro em genética de plantas e na evolução das plantas de cultivos, foi capturado durante uma viagem de campo no oeste da Ucrânia, acusado de atividades de destruição. Os cargos incluíam que pertencia a uma conspiração direitista, espião para a Inglaterra, liderar o partido camponês, sabotagens na agricultura e vínculos com imigrantes antissoviéticos. Foi sentenciado à morte pela corte militar e apesar de a condenação ter sido reduzida a dez anos de prisão, Vavílov morreu [de desnutrição] na prisão em 1943.

Foi, em seguida, enterrado em uma tumba sem nome. Estritamente ligados a Vavílov, foram Hessen e Bukhárin.

No dia 22 de agosto de 1936, o físico Boris Hessen foi preso e acusado de “trotskista”. Julgado em segredo por um tribunal militar, foi encontrado culpável em 20 de dezembro de 1936 e executado no mesmo dia. Bukhárin, depois de passar 13 meses na prisão, foi condenado à morte no dia 13 de março e executado no dia seguinte. Uranóvski tinha sido identificado por Prezent como “seguidor da linha de demolição no campo da política científica”. Em 1936, sob a falsa acusação de terrorismo contrarrevolucionário e espionagem, foi preso e executado. Dos seis autores de Marxismo e pensamento moderno, três seriam eliminados. Riazánov foi preso em fevereiro de 1931, e depois de viver na miséria nas margens do rio Volga por alguns anos, voltaria a ser preso em julho de 1937 sob a acusação de formar parte de uma célula trotskista terrorista, sendo julgado e condenado à morte em 21 de janeiro de 1938. Smidovitch morreria no dia 16 de abril de 1935 em Moscou sob circunstâncias suspeitas, depois de um enfrentamento com o Comissariado de Economia pelo controle dos zapovedniki.

Como resultado, a URSS nesse período perdeu muitos de seus pensadores ecológicos mais criativos. Alguns, como Schmalgauzen e Sukatchov, resistiram temerariamente a tormenta Iysenkoísta (para semear um novo movimento a finais dos anos 1960). Outros, como Oparin, Komarov e Williams, optaram pela subordinação. Inclusive esse último passou a ser um ativo colaborador de Lysenko. Se em 1924 tinha sido criada a Sociedade para a Conservação da Natureza com somente mil membros, alcançando no ano de 1932 mais de 15 mil, em 1940 o número de membros tinha diminuído abruptamente para 2.500 pessoas, e sua publicação Proteção da Natureza deixaria de existir no ano seguinte. Naquele momento, o movimento conservacionista soviético já estava praticamente aniquilado.

Ecocídio na URSS

Segundo Foster, a ironia em que culminou esse processo foi que os fatores ecológicos acabaram por desempenhar um papel principal no declive do crescimento econômico soviético e na aparição do estancamento na década de 1970. Em sua obra Planeta vulnerável: uma breve história econômica do meio ambiente, Foster recupera o indicado pelo assessor econômico de Gorbatchov, Abel Aganbegyan (Harry Magdoff, Perestroika and the Future of Socialism). Sintetizando, Foster nos indica:

A União Soviética foi particularmente esbanjadora no uso de seus insumos materiais. Com uma produção industrial total muito menor do que a dos Estados Unidos, suas indústrias produziram duas vezes mais aço e consumiram 10% mais de eletricidade. Pior ainda, apesar de um menor nível de produção agrícola, sua agricultura usou aproximadamente 80% a mais de fertilizantes minerais. No lugar de gastar uma proporção cada vez maior de sua inversão de capital em substituir as velhas e desgastadas plantas e maquinarias (como a avançada economia capitalista fez), a União Soviética dedicou a maior parte de sua inversão para ampliar a capacidade produtiva, substituindo somente 2% de suas plantas e equipes a cada ano. O resultado foi uma ineficiência crescente na produção. Construído nesse modelo de desenvolvimento, além disso, tinha uma devoção à indústria pesada como chave do rápido crescimento econômico.


Restos de um navio cargueiro abandonado no leito descoberto do extinto Mar de Aral, entre Cazaquistão e Uzbequistão.

Em 1990, Aleksei Iáblokov, um distinguido biólogo que foi crítico ambiental mais respeitado no parlamento soviético durante o período de Gorbatchov e que depois se converteu no assessor ambiental de Boris Iéltsin, citou dois casos para indicar o desastroso efeito contaminante do modelo econômico soviético sobre a saúde da população soviética:

Nos Urais, na cidade de Karabash (região de Tcheliábink), onde as prejudiciais emissões das chaminés do centro de fundição de cobre alcançam as nove toneladas per capita por ano, a metade dos jovens não pode realizar o serviço militar obrigatório, porque o estado de sua saúde os impede. No distrito de Krasnodar, ao norte do Cáucaso, há áreas de produção de arroz onde o uso intensivo de pesticidas teve tal efeito na saúde que nem um só jovem poderia ser aceito para o serviço militar. Em algumas aldeias agrícolas do distrito, o câncer é a única causa de morte.


O mar de Aral teve anteriormente 68.000 km² de superfície. Hoje se encontra reduzido a 10%.

A agricultura soviética tinha se tornado fortemente dependente de petróleo. A princípios dos anos oitenta, a tonelagem de agroquímicos aumentou. Em 1987, segundo Iáblokov, “30% de todos os alimentos, aproximadamente, continha uma concentração de pesticidas perigoso para a saúde humana”. A produção de algodão na Ásia Central (que dependia em grande medida da aplicação intensiva de pesticidas e herbicidas, e da irrigação) contaminou e secou os rios que conduziam ao mar de Aral, então um dos quatro maiores lagos do mundo, com 68.000 km² (e que hoje possui menos de 10% de seu tamanho original):

À medida que seu volume se reduziu em dois terços, as tormentas levaram os sais tóxicos de seu leito exposto a campos férteis localizados a mais de mil milhas de distância. Tanto foi a contaminação vertida de resíduos químicos no abastecimento de água potável que as mães na região de Aral não podem amamentar seus bebês sem correr o risco de envenená-los.


A cidade de Pripiat teve que ser abandonada depois da catástrofe nuclear de Chernobyl.

O pior de tudo foi o nível de contaminação radioativa do ambiente. A catástrofe nuclear de abril de 1986 em Chernobyl emitiu 500 vezes mais material radioativo à atmosfera do que a bomba de Hiroshima, e sua cidade, Pripiat, teve que ser completamente evacuada, tendo seus animais, tanto domésticos como selvagens, sacrificados. Por outra parte, em abril de 1993 um informe de 46 especialistas sob a direção de Yablokov revelou que a União Soviética tinha descartado 2,5 milhões curies de resíduos radioativos no oceano. “Colocamos 17 reatores nucleares de submarinos no fundo do mar”, informou Yablokov. “Sete deles ainda continham combustível”.

Outros elementos se somavam ao lamentável diagnóstico: o modelo de desenvolvimento levou ao descuido da conservação do solo. A perda de preciosa terra vegetal, devido às forças do vento e da água, atacou a uns 135 milhões de acres de terras agrícolas soviéticas entre 1975 e 1990. As emissões de dióxido de enxofre por unidade do Produto Nacional Bruto (PNB) em 1988 foram 2,5 vezes maiores do que as do Estados Unidos.

Na RDA, Tchecoslováquia e Polônia, o triângulo negro do Leste Europeu, as coisas iam também muito mal, com os níveis mais altos de contaminação industrial da Europa. Segundo o recolhido por Brown, Lester e Russell, no Informe anual de Worldwatch Institute sobre progresso a uma sociedade sustentável, de 1922, na região conformada pela Alemanha Oriental, o norte da Boêmia e Silésia (particularmente em torno dos povoados de Most na Tchecoslováquia e Katowice na Polônia), residia uma grande concentração de indústrias siderúrgicas, metalúrgicas e plantas químicas que utilizavam carvão de baixa qualidade (o que gerava grandes quantidades de impurezas e contaminantes). Até o governo da Checoslováquia teve que admitir que a zona dos arredores de Praga era “zona catastrófica”. Em Most se registraram emissões de dióxido sulfúrico vinte vezes superiores ao nível máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e os escolares tinham que usar máscaras portáteis.

O governo polonês, por sua parte, descreveu a Silésia como uma “zona de desastre ambiental”, onde os níveis de dióxido sulfúrico da atmosfera eram várias vezes superiores aos níveis de segurança oficiais. No que diz respeito à Cracóvia, a cada ano caiam da atmosfera 170 toneladas de chumbo, 7 toneladas de cádmio, 470 toneladas de zinco e 18 toneladas de ferro. Durante mais de um terço dos dias do ano havia névoa, quase dois terços dos alimentos produzidos na zona estavam contaminados e não eram apropriados para o consumo humano, e 70% da água não podia ser bebida. Um terço dos rios estava absolutamente desprovido de vida, o Vístula era inapropriado até para o uso industrial ao longo de mais de dois terços de seu curso porque era demasiado corrosivo, e na costa do Báltico, uma zona de mais de 100.000 quilômetros quadrados, estava biologicamente morta devido os produtos tóxicos que os rios vertiam nele.

Nos últimos anos da URSS surgiu um vasto novo movimento ecologista que se propôs a abordar alguns dos piores aspectos do desenvolvimento soviético. Entretanto, o declive social, econômico e ecológico da sociedade soviética foi tão severo, que o Governo já não estava em condições de levar a cabo nenhuma reforma progressiva. Pelo contrário, preparava o caminho para a restauração do capitalismo. No momento das revolução no Leste Europeu em 1989, os movimentos em alça foram capitalizados politicamente por forças restauracionistas, incluindo frações da própria burocracia do Estado. O colapso era eminente. No dia 9 de novembro de 1989 caiu o Muro de Berlim e no dia 25 de dezembro de 1991 finalmente a URSS anunciaria sua dissolução oficial.

Ecologia, socialismo e revolução

Mas no mesmo momento em que a queda do Muro de Berlim anunciava uma ofensiva colossal do capitalismo contra o trabalho e a natureza (as duas fontes de onde emana toda a riqueza social), outro fenômeno de vital importância ocorria. NA década de 1980 um número crescente de cientistas se preocupou de que a atividade humana afetara, mais que os entornos locais e os ecossistemas específicos, ao mundo de conjunto. Essa preocupações levaram ao lançamento do programa de cooperação científica internacional maior e mais completo jamais empreendido: o Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP), que coordenou os esforços de milhões de cientistas de todo o mundo desde 1990 até 2015.

Enquanto o marxismo vivia a pior crise de toda sua história e os revolucionários viam como suas forças se debilitavam na resistência contra o neoliberalismo e a ideologia triunfalista do capitalismo (com suas teorias do fim do trabalho e do fim da história), os cientistas naturais agrupados no IGBP produziram um grande avanço na compreensão científica do sistema terrestre.

Isso levou à inquietante confirmação de que a atividade humana, que na realidade não é mais que um eufemismo para se referir à economia capitalista (e os aspectos regressivos da economia de transição da URSS) não apenas estava perturbando o sistema terrestre, como o fazia de uma forma mais profunda e estendida que ninguém havia imaginado. No ano 2000, em uma reunião do IGBP para revisar sua primeira década de investigação, o químico ganhador do Prêmio Nobel Paul Crutzen argumentou convincentemente que já haviam desaparecido as características determinantes do Holoceno, o breve período geológico dos últimos dez mil anos que possibilitou o surgimento e desenvolvimento da civilização humana. O período geológico prévio, o Pleistoceno, se caracterizava por uma temperatura média global de seis graus a menos do que atualmente. Era a famosa era do gelo que contou com mais de dois milhões de anos. Mas o holoceno, caracterizado por um clima relativamente estável e quente, permitiu a aparição da agricultura e, com ela, da cultura. Agora, segundo Crutzen, a Terra havia entrado em uma nova época, obscura e incerta, marcada pela “atividade humana”, o Antropoceno. Obscura e incerta, porque tal como diz Johan Rockström, do Centro de Resiliência de Estocolmo, as condições do Holoceno têm sido as únicas que sabemos com certeza serem compatíveis com as sociedades humanas complexas.

Como se explica isso? O capital havia se tornado uma força social de alcance geológico. Sua economia (e também em parte os aspectos regressivos da economia de transição da URSS) levou à interrupção de um complexo ciclo natural que tardou milhões de anos para evoluir e se estabilizar, “uma fratura irreparável no processo interdependente entre o metabolismo social e o natural prescrito pelas leis naturais”, como descreveu Marx em O Capital. Essa perturbação, que tem se globalizado depois de um século do momento da aparição do Capital, está mudando rapidamente o estado do planeta. Por exemplo, durante ao menos 800 mil anos a concentração de dióxido de carbono atmosférico (que retém parte do calor recebido do sol) tem variado dentro de um alcance estritamente limitado: nunca menos que 180 partículas por milhão (ppm) em tempos frios, nunca mais que 300 ppm em tempos quentes.

Desta forma, o CO2 tem circulado entre a atmosfera e os oceanos durante longos períodos de tempo, mantendo as temperaturas da Terra dentro de limites surpreendentemente bem definidos. Mas agora após décadas de uma irracional exploração dos hidrocarbonetos, a concentração de CO2 atmosférico tem aumentado. Segundo os registros captados pela NASA, o NOAA e outros organismo, podemos concluir que a superação dos 320 ppm se corresponde com o boom do pós-guerra (ou grande aceleração), a superação dos 360 ppm com a queda do Muro de Berlin e hoje, nos limites da restauração burguesa, temos superado os 400 ppm; e segue crescendo rapidamente. Isso é o qe está levando a uma concentração cada vez maior do calor que recebemos do sol, e em consequência um aumento da temperatura média global que, segundo algumas agências como Global Carbon Project e Copenhague Diagnosis, poderia chegar a se elevar até os 6 ou 7 ºC até 2100, maior que a temperatura que o planeta conheceu no século XX, o que implicaria quase certamente em uma extinção de nossa espécie.

A este panorama se somam outras perturbações dos ciclos naturais, resumidas no estudo Limites planetários: guiar o desenvolvimento humano em um planeta mudando (2015), de Johan Rockström, Will Steffen e outros cientistas: a perda da biodiversidade, a acidificação dos oceanos, a perturbação dos ciclos biogeoquímicos do nitrogênio e o fósforo, a depleção do ozônio estratosférico, a crise no ciclo hidrológico mundial, a contaminação química com substâncias tóxicas, as mudanças nos padrões de uso da terra e no uso de aerossóis atmosféricos. Alguns desses limites ecológicos do planeta tem sido transpassados, outros ainda não e outros mais ainda não tem sido quantificados. Cmo Crutzen e o químico Will Steffen apontaram: “O sistema terrestre tem se movido recentemente fora do alcance de variabilidade natural exibido durante ao menos o último meio milhão de anos. A natureza das mudanças que se produzem simultaneamente no sistema terrestre, suas magnitudes e as taxas de mudança não têm precedentes e são insustentáveis”.


Os limites ecológicos do planeta. Fonte: Centro de Resiliência de Estocolmo.

A humanidade atravessa atualmente uma crise sem precedentes. Depois da política e da econômica (que começou com a queda do Lehman Brothers em 2007), a terceira dimensão desta crise é evidentemente ecológica: a contínua tendência rumo à decomposição das condições naturais de produção da humanidade. É onde mais claramente se manifesta o caráter inédito do período histórico que atravessamos. Há séculos o capitalismo tem prosperado mediante a exploração de uma natureza gratuita ou barata, quer seja como fonte “inesgotável” de recursos (convertidos em mercadorias), quer seja como repositório de desperdícios e subprodutos da atividade econômica (as famosas “externalidades negativas” da acumulação capitalista). Porém, como demonstram as diversas perturbações ecológicas, a natureza já não está em condições de exercer essa dupla função. Como pontuou Engels em Dialética da Natureza, esta toma “sua vingança”, com “consequências muito diferentes, totalmente imprevisíveis”.

Para poder criar as condições favoráveis que permitam restabelecer o intercâmbio metabólico entre a sociedade e a natureza, é necessário derrotar em primeiro lugar os capitalistas através da tomada do poder pelo povo trabalhador, o único habilitado materialmente para poder empreender essa titânica tarefa. Isso permitira a apropriação coletiva do aparato produtivo e tecnológico, e a possibilidade de o modificar, eliminando seus aspectos retrógrados e desenvolvendo seus aspectos progressistas, reorientando a produção, a indústria, a ciência e a tecnologia rumo ao restabelecimento do metabolismo entre a sociedade e a natureza, “condição primordial da vida” como apontava Engels. Ou como disse Marx, “que o homem socializado, os produtores associados, governem o metabolismo humano com a natureza de uma forma racional, o realizando com o menor gasto de energia e nas condições mais dignas”.

Mas, o restabelecimento do metabolismo entre a sociedade e a natureza já não pode ser a tarefa de uma futura sociedade ideal, como se pode haver pensado há cem anos atrás, mas, pelas atuais contradições da sociedade capitalista e de sua relação com a natureza (que podemos resumir como a crise do sistema terrestre), a recomposição metabólica só pode ser a tarefa de “um movimento real que anula e supera o estado atual das coisas”. Pelo que, a transição no século XXI rumo à sociedade sem classes, o comunismo, que na URSS foi estragada pela traição à revolução mundial e a imposição de interesses privilegiados da casta política dominante, será ecológica ou já não será nada.

No último número da revista Ideas de Izquierda o sociólogo marxista da Universidade de Buenos Aires e dirigente nacional do PTS (na FIT), Christian Castillo, apontou: “A revolução vai dar o que falar no século XXI. E será permanente ou não será nada. Se a humanidade tem algum futuro que não seja este presente miserável ou a perspectiva de uma crise civilizatória e ecológica a grande escala, teremos que passar por uma série de processos revolucionários vitoriosos”. É necessário dar-lhe um valor concreto, aritmético, à relação, à equação, que inevitavelmente se estabelecerá entre o marco-teórico estratégico que temos conhecido desde o século XX (e que dá sustento à teoria-programa da revolução permanente), e os novos elementos, inéditos, que se desprendem da atual crise do sistema terrestre. Mas para ele é necessário que o marxismo se nutra, se enriqueça, com a energia armazenada de centenas de cientistas naturais. Como apontou Trotski parafraseando Engels: “O materialismo dialético unicamente pode ser aplicado a novas esferas do conhecimento se nos situamos dentro delas”.

Recentemente o reconhecido astrofísico Stephen Hawking declarou que a superpopulação e as mudanças climáticas levarão a que nosso planeta se transforme, em poucos séculos, em uma bola de fogo, pelo que se faria urgentemente necessário preparar a espécie para a fuga do planeta, porque seu futuro se fará nas estrelas. A crise econômica, política e ecológica que arrasta a humanidade tem rachado a sólida muralha ideológica do neoliberalismo, o que tem permitido o florescimento das mais diversas “correntes de opinião”. Enquanto alguns como Pentti Linkola postulam a necessidade de retornar ao estilo de vida medieval, outros como Hawking propõem que a humanidade abandone seu planeta. Nada mais utópico-reacionário. Mas franjas de massas se voltam à esquerda, para fazer uma experiência com ela, o que constitui uma grande oportunidade. Mas longe da precisão da predição de Hawking, este feito mostra o quão necessário é que o marxismo clássico “realmente existente” se reconcilie com as ciências naturais.

Argentina, por um lado, concentra em seu território vários tipos de extrativismos: petroleiro, sojeiro, mineiro, etc. Por outro, é um país cuja intelectualidade progressista conta com uma vasta tradição de desprezo pelas ciências naturais, e dentro da intelectualidade marxista, de desprezo pela Dialética da Natureza de Engels. Isso é ainda mais agravado com a influência histórica que o desenvolvimentismo-peronismo tem tido sobre a classe trabalhadora e a juventude. Hoje, no único país do mundo que possui uma verdadeira frente de esquerda (trotskista), com mais de seis anos de perseverança, não existe nem uma só revista (ou similar) que centre sua elaboração na relação dialética entre as ciência naturais, ecologia política e teoria marxista.

Fazendo um modesto balanço da experiência do ambientalismo russo na jovem União Soviética, e a propósito da crise ecológica de nosso tempo, poderíamos concluir que hoje o marxismo necessita urgentemente ganhar para a causa revolucionária centenas de biólogos, geólogos, oceanógrafos e climatólogos, entre outros. Mas não para que reproduzam os sentidos comuns impostos pela classe capitalista e sua ciência-empresa (o enfoque “científico” do reducionismo cartesiano), mas para empunhar a arma do materialismo dialético na luta de classes que se avizinha, junto ao proletariado do século XXI e pela construção do comunismo. A experiência do ambientalismo dialético da jovem União Soviética mostra que é completamente possível, e a atual crise do sistema terrestre que é absolutamente necessário.

LINK DO VÍDEO: https://vimeo.com/39048998
Welcome to the Anthropocene. Fuente: IGBP

Para ler a Parte 1 deste artigo: http://www.esquerdadiario.com.br/Apogeu-e-queda-do-ambientalismo-na-nascente-Uniao-Sovietica

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