Mundo Operário

PRIVATIZAÇÃO

Ainda é possível barrar as privatizações na Petrobras, mas é preciso mudar completamente o rumo

Para derrotar as privatizações e anular todas as punições e perseguições é preciso mudar os rumos do que a categoria está fazendo seguindo a orientação de suas direções sindicais e políticas.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quarta-feira 21 de outubro| Edição do dia

Há um clima de ameaça instalado sobre toda categoria. São remoções e transferências arbitrárias, ameaça de ficar sem local de trabalho se houver privatização e diversas punições que são puro autoritarismo persecutório para amedrontar a categoria e azeitar o caminho para as centenas de privatizações em curso. Esse é o caso especialmente da REGAP em Betim/MG.

É preciso denunciar fortemente cada medida de perseguição e lutar pela anulação das punições, pois cada medida que enfraquece os trabalhadores em uma unidade fortalece a privatização, a entrega dos recursos do país ao imperialismo, como denunciado por Flávia Valle, candidata a vereadora em Contagem, em fala na assembleia de petroleiros na refinaria mineira:

São centenas de privatizações em curso mas o futuro da categoria e do petróleo nacional ainda não foi traçado. Mas para vencer é preciso uma completa mudança de rumo em relação ao proposto pelas direções sindicais e lutar pela unidade da categoria.

O que está em curso e o que estão fazendo as direções sindicais e políticas?

A cada dia os brasileiros são surpreendidos por alguma nova transação criminosa envolvendo as riquezas nacionais. À toque de caixa centenas de campos terrestres, plataformas e metade das refinarias e terminais do país estão sendo entregues. Uma imensidão de recursos que ao contrário de favorecer empresários por esquemas de corrupção ou através dessa corrupção lícita das privatizações poderia servir os interesses de todo o povo, garantindo saúde, saneamento, moradia, recursos para urgentes reformas urbanas radicais pelo país.

Todos esses ataques não são iniciativa somente de Bolsonaro e Paulo Guedes, mas de todo o regime, dos militares que presidem o Conselho de Administração, da maioria do Congresso e do STF que avaliza esse crime deixando a Petrobras criar subsidiárias “fake” para fatiar e vender toda a empresa até sobrar praticamente somente o nome da empresa símbolo do país. Há denúncias de escandalosos processos que chegam ao absurdo do caso das P-7,P-12,P-15 que foram vendidas juntas por um preço que é equivalente ao seu valor de produção de 1 dia. É impossível pensar uma transação mais criminosa que essa, mas como se imagina há absoluto silêncio da grande mídia.

Os paladinos da moralidade da Lava Jato, da Globo, da Record, agora se calam. Estavam a favor da publicidade dos atos da empresa quando se tratava de trocar um esquema de corrupção por outro mais funcional ao imperialismo. Esse aí da privataria que eles tanto gostam. As novas privatizações – sem sequer o aval formal do Congresso – sequer contam com licitação ou resultado público. São de bastidores, criminosas (não formalmente pois contam com o beneplácito de quem faz/entorta as leis conforme a conveniência política, o STF).

Diante de tamanhos ataques e a unidade de interesses de todas forças golpistas nada mais absurdo que esperar que será pelas mãos de políticos deste regime, do STF ou de empresários que conseguiremos frear esse projeto. Mas se trata de exatamente isso que a maioria dos sindicatos estão fazendo. Durante a greve em defesa da FAFEN-PR e suas centenas de empregos uma das conquistas propagandeadas pela Federação Única dos Petroleiros (FUP-CUT, dirigida por correntes do PT e PCdoB) foi de conseguir uma reunião com Maia e Alcolumbre através da pomposa (mas impotente) “Frente Parlamentar Mista em Defesa da Petrobras” onde os dois presidentes das casas do Congresso entraram com ação no STF para questionar a legalidade das privatizações. Maia, sob protesto do mercado financeiro, retirou a assinatura da Câmara no pedido, e o STF votou contra a medida e nenhum posicionamento protocolar de Alcolumbre se ouviu.

A votação no STF foi precedida de notícias propagandeadas pela mesma FUP, ou seja por dirigentes sindicais ligados ao PT e PCdoB, que achava provável que o STF garantisse a permanência das refinarias. Para nós petroleiros não era preciso fazer praticamente nada. O STF, aquele mesmo da prisão arbitrária de Lula, ou do aval ao saque da empresa junto com a Lava Jato para pagar bilhões de “reparação” aos acionistas americanos iria nos salvar. O resultado era o esperado. A expectativa do PT e PCdoB em ser aceitos como parte do regime do golpe, conciliar com golpistas, com STF, com tudo, como mostram em centenas de coligações para o país, repete-se em suas “táticas” petroleiras: passividade, e confiança nos inimigos.

Diante do fracasso da “tática” nacional de apostar no Congresso e no STF os sindicatos partiram para a repetição local da tática, lançando frentes “Petrobras Fica” em cada estado. Essas frentes buscam convencer empresários e políticos locais (do PSL, PSC, DEM, MDB, PSDB...) a não privatizar como diz com toda as letras o importantíssimo SINDIPETRO-NF:

Se a “tática” nacional era absurda a regional é ainda pior pois divide a categoria e coloca não somente na continuidade de espera passiva que se consiga por conciliação o que precisará ser arrancado com luta de classes como divide a categoria nacional e espera um milagre local para salvar determinada unidade, bem e quanto aos demais locais sabe-se lá o que fazer.... Como que isoladamente em Macaé, Campos, nas pequenas Três Lagoas, Candeias ou Quixadá, ou em estados como Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Norte irá se resolver um problema nacional? Trata-se no plano local da continuidade da política nacional de PT e PCdoB, com lives de alguma figura política nacional denunciando a privatização mas sem propor efetivamente nenhuma ação, nenhuma unidade da categoria, salvo esperar a salvação nas mãos do Congresso, do STF. A “tática” local faz o mesmo, mas transferindo a expectativa para pequenas câmaras de vereadores ou assembleias legislativas estaduais. Trata-se de conduzir a luta contra as privatização a um beco sem saída.

O que leva a crer que uma palestra numa câmara de vereadores ou uma hipotética assinatura de um prefeitável dos aliados de Bolsonaro&Maia vai mudar algo? Evidentemente não irá. Por esse caminho, como máximo, se conquista algum vereador em alguma pequena cidade mas não a derrota de um projeto crucial do golpe institucional.

Essa “tática” absurda aumenta a já notória fragmentação nacional da categoria. Cada local, cada federação fala dos ataques mais fortes em seu local. Assim nota-se menor destaque na atuação diária da FNP, dirigida por correntes do PSOL e pelo PSTU, sobre as privatizações das refinarias e por outro lado um silêncio retumbante da FUP sobre a privatização do mega-campo de Urucu no Amazonas. Com essa divisão por um lado, e com todas as fichas no judiciário, nos parlamentos, não iremos a lugar nenhum que exatamente ao corner onde Bolsonaro e Guedes nos querem.

O que é possível e urgente fazer?

É preciso batalhar para que aconteçam assembleias em cada local de trabalho e procurando maior unidade da categoria entre quem está em home office e quem está em trabalho presencial, e onde ocorrem assembleias que estas discutam não somente os infindáveis ataques locais mas que tracem um plano de lutas nacional para imediata reversão das punições na REGAP e contra todas as privatizações, e não somente as que tocam tal localidade. É preciso unir todas as forças petroleiras de Urucu a Guamaré a Rio Grande às mais distantes plataformas, unindo todas as bases, todos sindicatos, as duas federações.
Essa união nacional da categoria é também inseparável de buscar a unidade com os terceirizados nos locais de trabalho, batalhando contra a mais violenta retirada de empregos e direitos que sofrem e em perspectiva de sua igualdade de direitos com os “crachás verde” por sua incorporação à empresa, bem como a unidade com outras categorias que sofrem as mesmíssimas ameaças, em especial os trabalhadores dos Correios que não puderam contar com uma mobilização unificada dos petroleiros devido a atuação das correntes sindicais ligadas a PCdoB e PT que dirigem a maioria dos sindicatos nas duas categorias.

Os sindicatos da FNP, com influência de correntes políticas e sindicais que se reivindicam classistas e revolucionárias, como é o caso do PSOL e PSTU que dirigem sindicatos desta federação, deveriam ser os primeiros em batalhar contra a divisão e em prol da unidade nacional e por uma estratégia que seja o avesso da conciliação petista e sua venda de uma ilusória expectativa que Maia&Toffoli resolvam o que precisamos resolver com a luta de classes.

A denúncia do papel de todo esse regime do golpe nas privatizações bem como a crítica ao que deveria estar sendo feito pelas candidaturas da esquerda nesta conjuntura eleitoral em defesa de tão estratégica categoria é algo que foi desenvolvido por Carolina Cacau, dirigente do MRT no Rio de Janeiro:

Tal como colocado por Carolina Cacau em seu vídeo o que qualquer candidatura de esquerda deveria estar fazendo, entre outras coisas, seria colocar sua campanha, sua influência a serviço de fortalecer essa luta crucial. Os sindicatos, dirigidos por correntes políticas que tem candidatos deveriam, como mínimo exigir de seus candidatos tal posicionamento enérgico.

Também é possível e necessário desenvolver uma campanha de apoio aos petroleiros, ajudando a difundir a denúncias das privatizações e das perseguições, tal como o Esquerda Diário está fazendo e já conseguiu dezenas de apoios de diversas categorias e estudantes pelo país. Uma campanha que poderia ganhar muito mais força se impulsionada pelos sindicatos e candidaturas da esquerda.

Não às punições aos petroleiros! Contra a privatização da Petrobras. Saiba mais e some a essa campanha: https://bit.ly/3oapb3n

Publicado por Esquerda Diário em Quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Com essa orientação é possível começar a traçar planos para se enfrentar com as punições e cada ataque privatista. A partir da força dessa luta defensiva através de uma verdadeira frente única das bases e dos sindicatos podemos ao contrário de ter como “máximo” de nossas aspirações o que um tucano Anastasia aceita numa reunião em portas fechadas com a “Frente Petrobras Fica/MG” (para dar um de múltiplos exemplos), começar a lutar pela completa reversão de todas privatizações, sem indenização aos saqueadores de Shell&Cia, para que todo o petróleo, todo poço ao posto pertença a uma Petrobras 100% estatal administrada democraticamente pelos trabalhadores com controle popular, única maneira de garantir não somente a completa transparência nas transações, licitações, segurança operacional e ambiental, bem como que todas as vastas riquezas do petróleo sirvam não ao enriquecimento de um punhado de imperialistas e seus parceiros “brasileiros” mas sim todo o povo brasileiro.




Tópicos relacionados

Petróleo   /    Petrobras   /    Privatização da Petrobras   /    Crise da Petrobrás   /    Mundo Operário

Comentários

Comentar