SEMANÁRIO

Agonia e desespero de um jovem stalinista em busca de projeção

Seiji Seron

Agonia e desespero de um jovem stalinista em busca de projeção

Seiji Seron

Nas redes sociais, o primeiro número da revista Jacobin Brasil suscitou polêmicas em torno de um dos contribuintes da edição: o pecebista Jones Manoel, figura que tem se tornado notória por sua defesa de Stalin e da China de Xi Jinping, e por tachar de “anticomunista” todos que dele discordam. O último capítulo dessa novela foi ao ar pela via do blog Lavra Palavra, onde Jones expôs suas “hipóteses” acerca do trotskismo, que seria academicamente “prestigiado”(?!) e “hegemônico”(?!!!), e estaria tentando censurá-lo.

Em sua postagem, Jones teria optado especificamente por “debater com os auto afirmados seguidores da tradição trotskista” por uma questão de “economia de espaço”, e porque tal tradição seria uma das mais representativas, se não a mais representativa, do “marxismo ocidental”, uma operação ideológica dúplice. Embora admita formalmente a pluralidade de seus críticos, Jones encontra rapidamente uma maneira de reduzi-los todos a um mesmo denominador comum, só um pouco mais rigorosa que a de Stálin, que também identificava todos os seus opositores ao “trotskismo”, fossem esses opositores trotskistas ou não.

A outra faceta da operação reside na definição de “marxismo ocidental”, em torno da qual Jones mobiliza a autoridade de “Domenico Losurdo (O Marxismo Ocidental, 2018, Boitempo Editorial) e em menor medida Perry Anderson (Considerações sobre o Marxismo Ocidental, 2018, Boitempo Editorial).” Parece até que esses autores têm a mesma definição de marxismo ocidental! Antes de nos referirmos ao resto do texto de Jones, é preciso limpar esse terreno, ainda mais porque essas obras que ele menciona nos são de muito maior proveito que a leitura de seus argumentos próprios. Assim como Jones escolheu “poupar espaço”, pouparei meu tempo e comentarei só alguns aspectos do texto: a “marginalidade” e a hipotética “hegemonia” acadêmica do trotskismo, sua interessada confusão entre as distintas definições e, particularmente, de sua caracterização “ocidental” de Trótski.

O cerne da definição de marxismo ocidental de Anderson é a cisão ou divórcio entre teoria e prática que se seguiu à derrota da Revolução Alemã e das demais revoluções proletárias do imediato pós-1ª G.M. que não a Russa, e o consequente isolamento e burocratização da URSS. “O resultado foi uma reclusão dos teóricos em universidades, distantes da vida do proletariado nos seus próprios países, e uma contração da teoria, da economia e da política para a filosofia.” [1] Via de regra, os marxistas ocidentais tentaram identificar “precursores” do marxismo entre os filósofos europeus anteriores e reinterpreta-lo de acordo. Já o livro que Losurdo escreve a esse respeito é explicitamente crítico à definição de Anderson [2] e põe em primeiro plano a cisão não entre teoria e prática per se, mas no que concerne as lutas anti-imperialistas e anticoloniais.

Expostas assim, as duas definições talvez não pareçam antagônicas; Anderson e Losurdo coincidem em sua classificação da grande maioria dos marxistas ocidentais, por mais que o primeiro tenha, um dia, sido afim ao trotskismo, e o segundo, um apologeta de Stálin e do regime restauracionista chinês. Mas há uma diferença essencial: “no que se refere à Rússia soviética, a fronteira entre marxismo ocidental e oriental [...] atravessa”, segundo Losurdo, “o mesmo grupo dirigente. Trótski, que olha para o poder conquistado pelos bolcheviques na Rússia como um trampolim para a revolução no Ocidente, é o mais eminente representante do marxismo ocidental.” Stálin seria “a encarnação do marxismo oriental:” nunca saiu da Rússia e priorizava sua independência nacional vis-à-vis o Ocidente capitalista, mais avançado, em vez da “exportação” da revolução socialista. [3]

Como já falei aqui, essa caracterização losurdiana de Trótski recicla velhas caricaturas e mitos, inventados pela burocracia soviética, e se torna ainda mais absurda se considerarmos que Trótski foi o primeiro marxista da história a concluir que o proletariado de um país não-ocidental poderia realizar a revolução socialista antes que o das nações imperialistas (embora a transição ao socialismo seria mais difícil do que nesses últimos), enquanto Stálin foi quem contrabandeou para dentro da III Internacional, disfarçada de “leninismo” [4], o dogma menchevique segundo o qual os países atrasados teriam de passar por uma longa etapa de desenvolvimento capitalista antes que o proletariado possa ousar se apropriar do poder de Estado.

Ao contrário do que insinua Jones, Anderson não considera Trótski um marxista ocidental; o trotskismo desenvolveu-se “fora do palco”, isto é, paralelamente ao marxismo ocidental, e é “de um caráter inteiramente distinto”. [5] Além disso, ter perdido de vista a revolução anticolonial é a última coisa de que pode ser acusado o grande teórico do desenvolvimento desigual e combinado e da Revolução Permanente. [6] E, diferentemente do que quer Losurdo, o ensaio de Anderson está bem longe de enaltecer “um marxismo ocidental finalmente liberto do abraço do marxismo oriental.” [7]

Considerações... foi escrito durante a fase mais à esquerda da carreira de Perry Anderson, sob a influência de um ascenso revolucionário mundial que tem o maio de 1968 entre os seus processos nacionais mais conhecidos. Em 1984, Anderson escreveu um posfácio a Considerações... no qual se lê que o “axioma” da Revolução Permanente deve ser considerado “não provado.” Para justificar tal afirmação, Anderson menciona processos revolucionários do pós-2ª G.M. em que países da periferia capitalista puderam ter conquistas democráticas formais, acrescentando que exigir mais de uma “revolução democrática” tornaria a Revolução Permanente mera “tautologia”.

É curioso que Anderson nada tenha a dizer acerca dos outros dois aspectos da Teoria da Revolução Permanente além da relação entre revolução democrática e socialista: a impossibilidade da construção de uma sociedade socialista circunscrita a fronteiras nacionais quaisquer, e o caráter permanente da revolução em si, ou a “revolução dentro da revolução”, durante a qual “profundas transformações na economia, na técnica, na ciência, na família, nos hábitos e nos costumes, completando-se, formam combinações e relações recíprocas de tal modo complexas que a sociedade não pode chegar a um estado de equilíbrio.” [8] Também parece não perceber que aquela “tautologia” tem uma implicação política fundamental, a saber, a imperiosa necessidade de independência política e organizativa do proletariado, e que a não observância dessa necessidade já cobrou dos trabalhadores e dos povos oprimidos um preço muito caro, inclusive aqui, no Brasil, onde o êxito do golpe de 1964 tem responsabilidade significativa do partido de Jones, que era, então, um partido de massas.

Todavia, o posfácio que Jones cita é, não coincidentemente, o mesmo em que Anderson rejeitou uma leitura “ativista” de seu ensaio de 1974 e relativizou a cisão entre teoria e prática como critério distintivo do marxismo ocidental. Não só a Revolução Permanente, mas a própria cientificidade da concepção marxista da história é questionada. Ainda nesse posfácio, Anderson cede aos críticos da suposta inexistência de uma teoria do Estado e da política burguesa em Marx, das famigeradas “inconsistências” da teoria do valor-trabalho e da queda tendencial da taxa de lucro, e rotula O capital de “catastrofista”.

Guardadas as devidas proporções, a derrota dos processos revolucionários de 1968-81 incide sobre Anderson de maneira semelhante a derrota dos ascenso pós-Revolução Russa incidiu sobre os marxistas ocidentais. No seu afã de negar a validade da Teoria da Revolução Permanente, Jones recorre justamente ao documento em que Anderson anuncia a ruptura com sua fase mais de esquerda, da qual Considerações... é uma marca, felizmente, indelével. Ou, por acaso, Jones também concorda com as opiniões de Anderson em relação à inexistência de uma teoria política em Marx e as ditas inconsistências de sua crítica da economia política?

Já que de nenhum ponto de vista Trótski representa o marxismo ocidental, a tal escolha poupadora-de-espaço está posta em xeque. Tudo que resta da “hipótese” de Jones acerca do trotskismo é que este é marginal e nunca dirigiu revolução alguma. Não surpreendentemente, Jones desqualifica a Revolução de Outubro, dirigida por aquele que, à época desta, conhecia-se como “o partido de Lênin e Trótski”. Em contrapartida, aos trotskistas teria sido pago um “salário psicológico”: a partir dos anos 1980, o trotskismo teria se transformado numa forma “legítima” e academicamente prestigiosa de marxismo, integrando o mesmo panteão de Lukács, Gramsci e outros marxistas ocidentais. O termo “salário psicológico” era usado pelo movimento negro estadunidense em alusão a privilégios imateriais que o racismo concede aos trabalhadores brancos. Jones simplesmente compara rechaço de professores universitários ao stalinismo e... opressão racial!

Parafraseando Jones, não responderei a tão esdrúxula comparação com baixo nível. Apenas irei lhe perguntar: Onde estão as “cátedras trotskistas” e quem são os catedráticos? Qual é a “revista trotskista” Qualis A? De que universidade é o “programa de pós-graduação em trotskismo”? A realidade é exatamente o oposto da que descreve Jones: o marxismo acadêmico é e sempre foi hegemonizada pelo PCB. O tão celebrado Caio Prado Jr., por exemplo, é famoso por ter sido membro do PCB e o primeiro marxista a criticar as teses desse partido a respeito do caráter “semi-feudal” da formação econômico-social brasileira; isso se diz em toda e qualquer faculdade de história do país. Em quantas dessas faculdades reflete-se a importância das cartas que CPJ trocou com os trotskistas Mario Pedrosa e Lívio Xavier, que foram, estes sim, os primeiros a negarem que existiu qualquer traço feudal em nossa sociedade [9], numa época em que, diga-se de passagem, os estatutos do PCB proibiam qualquer relação pessoal entre seus membros e trotskistas?

A verdade é que o pensamento social brasileiro tem uma dívida secreta com Trótski. As obras de Octavio Ianni, Francisco Weffort, Fernando Henrique Cardoso, Boris Fausto e de muitos outros beneficiaram-se da leitura de Trótski e, inclusive, das conversas informais com militantes trotskistas a respeito da lei do desenvolvimento desigual e combinado, das análises de Trótski sobre os regimes bonapartistas da Europa e da América Latina, etc., instrumentalizando-as para os fins da burguesia sem nunca nomear o revolucionário. Só quem reconheceu publicamente as contribuições de Trótski foram uns poucos intelectuais de esquerda, de uma estirpe não coincidentemente distinta daqueles que enumerei anteriormente, como Chico de Oliveira e Florestan Fernandes [10]. Até os teóricos marxistas da dependência a quem Jones tanto admira, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos, não se importaram com o fato de que sua organização, a Polop, não foi a primeira a criticar as alianças entre o PCB e a burguesia “nacional” e a afirmar o caráter socialista da revolução brasileira.

Apesar de tudo, Jones não pôde negar o fato de que, em alguns lugares, o trotskismo cresceu a ponto de “superar os quase mortos partidos comunistas,” entre os quais, a Argentina. Esta atualmente sedia uma das experiências mais avançadas da esquerda mundial: a Frente de Izquerda e de los Trabajadores (FIT), uma frente político-eleitoral que o Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS), organização-irmã do MRT, constrói junto a outras duas organizações trotskistas, o Partido Obrero (PO) e a Izquierda Socialista (IS), e que participa das eleições burguesas a fim de agitar, do alto da tribuna parlamentar, um programa para inverter as prioridades, isto é, para que a crise seja paga pelos capitalistas, não pelo povo trabalhador.

Esse programa inclui o não pagamento da dívida pública e a ruptura dos “acordos” de submissão ao FMI e ao imperialismo, a nacionalização de todas as indústrias e serviços estratégicos e dos que demitem em massa sob controle operário – ponto programático que o PCB, stalinista que é, jamais levanta –, além da proibição das demissões e da repartição das jornadas de trabalho entre todos aptos a trabalhar, pondo fim ao desemprego (escalas móveis de horas de trabalho), salário mínimo igual a canasta familiar [11] e reajuste automático dos salários conforme a inflação (escalas móveis de salários), e um longo et cetera, esclarecendo que a plena realização dessas medidas não se dará pela via das eleições, mas só da luta por um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Desde sua conformação, a FIT tem se tornado um polo de independência de classe relevante nacionalmente, consolidando seu espaço à esquerda dos partidos da ordem, provando que a esquerda revolucionária, se quer ter um diálogo de massas, precisa não moderar seu programa ou se aliar a partidos burgueses, e sim todo o contrário! Nesse sentido, o exemplo da FIT contrapõe-se aos do neorreformismo, como o Syriza, acerca do qual Jones sugere haver consenso absoluto entre os que reivindicam o trotskismo, sendo que, na verdade, nós, do MRT e da Fração Trotskista–Quarta Internacional (FT-QI), fomos seus críticos intransigentes desde antes da chegada daquele partido ao governo grego [12]. É também um importante contraponto ao bolivarianismo, tão acriticamente defendido pelo PCB, que está em frangalhos, agora que findou o ciclo das commodities, e que, ao descarregar os efeitos da crise sobre as costas dos trabalhadores a fim de continuar honrando os compromissos com o capital financeiro internacional, fortaleceu a própria direita que os golpeia hoje.

O silêncio e a recusa da esquerda brasileira a aprender qualquer coisa da experiência de nossos vizinhos argentinos é estarrecedora. Ao invés de chamar a votar na única coligação que realmente opõe-se ao saque imperialista, o partido de Jones centralizou-se em torno do apoio do Partido Comunista da Argentina (PCA) à recém-eleita chapa presidencial da Frente de Todos, Alberto Fernandes e Cristina Kirchner, que continuarão pagando religiosamente a ilegal, ilegítima e fraudulenta dívida “soberana” da Argentina e cuja promessa de re-negociação com o FMI será inevitavelmente tão frustrada quanto a do Syriza grego com a Troika.

Em seu texto, Jones tenta diminuir a importância da FIT comparando-a, em termos de influência eleitoral, ao peronismo, uma comparação despojada de sentido. Se a burguesia permitisse que um programa como o da FIT tivesse expressão eleitoral comparável à do peronismo, a instabilidade seria tal que a maré verde [13], a luta contra as reformas previdenciária e trabalhista, contra o fechamento da fábrica da PepsiCo em Buenos Aires, enfim, a primeira luta séria se transformaria imediata e quase espontaneamente numa situação revolucionária! Uma ditadura irá suplantar as formas democráticas da dominação burguesa antes que a FIT possa conquistar, por meios estritamente legais e pacíficos, metade da força eleitoral que tem o peronismo.

O pecebista ainda argumenta que o Partido Comunista da Grécia (KKE) “é maior que todas as organizações trotskistas do Brasil juntas.” Porém, de que adianta um aparato desse tamanho se, tanto nas dezenas de greves gerais que precederam a eleição do governo de Alexis Tsipras quanto depois, seu papel foi análogo ao das centrais sindicais brasileiras quando das greves gerais de 2017? Convocando suas próprias manifestações separadas das demais, em vez de lutar pelo desenvolvimento das tendências à auto-organização dos trabalhadores visando conformar uma frente única e, assim, permitir que os revolucionários incidissem sobre as bases dos partidos reformistas, que são, todavia, a direção majoritária movimento operário. O governo do Syriza ergueu-se sobre a derrota dessas sucessivas greves gerais, para a qual foi decisiva a política do KKE, simultaneamente oportunista em relação às cúpulas das organizações reformistas, a medida que se abstém de disputar politicamente a base dos trabalhadores que ainda se referenciam em tais organizações, e sectária para com essa mesma base.

Ao final da postagem, roga que seja honrado o legado de Leon Trótski, e promete um vídeo sobre “esse brilhante pensador e revolucionário”. Contudo, Jones não reivindica a Teoria da Revolução Permanente. Não reivindica a construção da Quarta Internacional, tarefa que Trótski achava a mais crucial de sua vida, até mais que a Revolução Russa, a fim de preservar as lições desta e do bolchevismo, e superar os aparelhos contrarrevolucionários que tinham se tornado a Segunda e a Terceira Internacional. A julgar pela política do KKE, não reivindica sequer a tática da frente única operária, uma das mais importantes sínteses que Trótski tentou salvaguardar dos primeiros congressos da Internacional Comunista (IC), anteriores à sua stalinização. Reivindica, na contramão de Trótski, o apoio do PCA a uma candidatura burguesa e ajustadora. O que seria, então, essa homenagem ao legado de Trótski se não a do cínico que, depois da morte, converte em ícone inofensivo o revolucionário, tão odiado e caluniado em vida, como sabiamente registrava Lênin, em O Estado e a revolução, quase como se previsse o que lhe reservava Stálin.

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FOOTNOTES

[1ANDERSON, Perry. Considerations on Western Marxism. Londres: Verso, 1979. pp. 92-3.

[2“[Q]uando começou a se manifestar o afastamento entre os dois marxismos? Com o advento da autocracia de Stálin, como sustenta Anderson? E se tivesse começado no dia seguinte à Revolução de 1917? E se as primeiras fissuras tivessem emergido já no momento em que a unidade parecia mais sólida que nunca, fortalecida pela indignação geral com a imunda carnificina da Primeira Guerra Mundial e com o sistema capitalista-imperialista acusado de provocá-la? E se as fissuras e o sucessivo distanciamento, para além da diversidade da situação objetiva e da tradição cultural, remetessem aos limites teóricos e políticos, em primeiro lugar, do marxismo ocidental, o mais sofisticado e aguerrido no plano acadêmico?” (LOSURDO, Domenico. O marxismo ocidental. São Paulo: Boitempo, 2018. p. 13).

[3LOSURDO, op. cit., p. 43.

[4Através da fórmula de “ditadura democrática do proletariado e do campesinato”, que Lênin abandonou, depois da Revolução de Fevereiro, devido às indeterminações daquela.

[5ANDERSON, op. cit., p. 96.

[6A Teoria da Revolução Permanente (TRP) não tem nada a ver com expandir o socialismo à ponta de baioneta. Em sua primeira formulação, a TRP dizia respeito às tarefas democráticas da revolução em países economicamente atrasados., tais como a reforma agrária, a emancipação nacional, a nacionalização de recursos estratégicos e riquezas naturais, p. ex. petróleo, o fim da espoliação imperialista etc. Nesses países, a dependência em relação ao capital financeiro internacional impede a burguesia de cumpri-las, para o que se torna necessário a tomada do poder pelo proletariado, que não poderá deter-se num estágio democrático do processo, sendo obrigado a avançar contra a propriedade dos capitalistas a fim de assegurar as conquistas democráticas da revolução.
Assim, a permanência da revolução democrática transforma-a necessariamente em revolução socialista, sob pena de, caso não, retroceder. Por sua vez, a revolução socialista não pode deter-se em um só país, seja este central ou da periferia capitalista, pois continuará subsumido ao mercado mundial, sendo pressionado pelos países mais avançados. Em si, o predomínio da propriedade estatal dos meios de produção não torna socialista uma formação econômico-social qualquer, nem garante que seu desenvolvimento futuro terá necessariamente esse caráter. Portanto, a tomada do poder pelo proletariado de cada pais é um acontecimento “episódico” de uma luta de proporções histórico-civilizatórias, entre a revolução e a contrarrevolução, uma luta em que, a despeito de êxitos e reveses parciais, só é possível triunfar mundialmente ou, cedo ou tarde, ser derrotado em toda linha.
Por isso, Trótski irá generalizar a TRP depois de a estratégia equivocada de Stálin ter possibilitado a Chiang Kai-Shek trucidar o Partido Comunista e a vanguarda do proletariado chinês, resultando na derrota da Revolução de 1925-7. Essa formulação mais acabada enfatizará a “ligação com o caráter, os laços internos e os métodos da revolução internacional em geral.” (TROTSKY, Leon. A revolução permanente. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 205) Em outras palavras, a TRP não é mais uma teoria só da Rússia ou dos países atrasados, e sim uma Grande Estratégia, a qual articula indissociavelmente a revolução socialista, as lutas de emancipação nacional e, mais tarde, as revoluções políticas onde a burocratização do Estado operário interrompe a transição ao socialismo.

[7LOSURDO, op. cit., p. 13.

[8TROTSKY, op. cit., p. 65.

[9cf. ABRAMO, Fulvio e KAREPOVS, Dainis (org). Na contracorrente da história: documentos do trotskismo brasileiro (1930-1940). 2ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Sundermann, 2015; particularmente o Esboço de uma análise da situação econômica e social do Brasil (pp. 62-74). Distintamente de Xavier e Pedrosa, a refutação de CPJ à tese do “feudalismo” brasileiro não o impediu de tirar conclusões etapistas mas, pelo contrário, estiveram a serviço de sofisticar a orientação estratégica que o PCB sempre teve.

[10Aliás, este último foi militante de uma organização trotskista, o Partido Socialista Revolucionário (PSR), durante uma década (1942-1952).

[11Algo comparável ao nosso salário mínimo do DIEESE.

[12O mesmo vale para a Primavera Árabe. Jamais apoiamos acriticamente as direções “democráticas” pró-imperialistas ou islâmicas do campo rebelde, embora tampouco defendêssemos a continuidade das ditaduras decenárias e corruptas, que não tinham/têm nada de anti-imperialista, diferentemente do que alega o PCB. Vale, ademais, para Cuba: denunciamos o processo de restauração capitalista que a burocracia castrista tem levado adiante ao mesmo tempo que exigimos liberdade de organização política para os que defendem as conquistas da Revolução e o caráter operário do Estado cubano, e não a liberdade irrestrita para as tendências pró-capitalistas, inimigas dos trabalhadores, ao contrário do PSTU e de outros, segundo quem a restauração do capitalismo está consumada.

[13As multitudinárias manifestações ocorridas em 2018, quando o Congresso argentino pôs em votação um projeto de lei que reconheceria o direto ao aborto legal, seguro e gratuito.
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Seiji Seron

Estudante de economia (PUC-SP) e editor da revista estudantil "Revolução Permanente".
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