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A volta do MAS à presidência pôs uma pedra sobre o golpe na Bolívia?

A legenda retorna ao Palacio Quemado – sede do governo em La Paz – com maioria esmagadora dos votos em outubro de 2020. As principais figuras do golpe de 2019 na Bolívia assumem importantes cidades nas eleições regionais de 2021. A eleição de Luis Arce implicou na derrota do golpismo? É preciso analisar mais afundo a atuação do masismo para chegar a uma conclusão.

Zuca Falcão

Professora da rede pública de MG

quarta-feira 10 de março| Edição do dia

Foto: JUAN KARITA / AP

A eleição de Luis Arce Catacora (MAS) em outubro de 2020 para a presidência da Bolívia com expressivos mais de 52% foi uma clara demonstração de rechaço por parte da população boliviana ao golpe cívico-militar-religioso em novembro de 2019, que por quase um ano manteve no poder Jeanine Áñez, que assumiu após a renúncia forçada de Evo Morales, com a única função de atrasar uma nova eleição e passar o maior número possível de ataques ao povo boliviano em tempo hábil.

Mas esses mais de 52% não significam uma lua de mel entre o povo boliviano e o MAS de Evo. Foi uma alternativa diante do freio imposto pelo próprio partido e seus organismos, como as centrais sindicais por ele dirigidas, à revolta que explodia sobretudo na cidade de El Alto, vizinha a capital La Paz.

Desde o primeiro dia do golpe que teve um caráter fortemente racista, a população indígena que é maioria no país, e sobretudo na região da cordilheira, reagiu com seus métodos históricos de luta, de tomar as ruas com marchas e bloqueios, e impuseram uma grande resistência com epicentro em Senkata e Sacaba, localidades das cidades de El Alto e Cochabamba respectivamente. Estas localidades mais adiante seriam palco de chacinas em resposta os levantes contra o golpe, e que o MAS não moveu uma palha para impedir.

Apesar de na época ter dois terços do parlamento boliviano, que poderiam ter sido utilizados para legislar em favor da população que enfrentava as consequências do golpe, e de dirigir as maiores centrais sindicais do país, entre elas a COB – Central Obrera Boliviana – a maior de todas, para organizar a revolta dos trabalhadores e derrotar os golpistas, o partido de Arce escolheu usar todo seu aparato para conciliar com os golpistas e garantir seu lugar no regime através das próximas eleições presidenciais.

O Mas não só calçou o caminho para o golpe através de concessões que fortaleceram a direita empresarial e principalmente a agroindustrial. Tiveram uma postura covarde e defensiva e conveniente diante do governo provisório de Ánez. Não tentaram de forma alguma intervir na repressão, e violação de direitos humanos que sofriam aqueles que se mobilizavam contra o golpe, e perdoaram os responsáveis pelos massacres, que agora podem ser elegíveis.

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E apesar do MAS ter retornado à presidência do país por meio da eleição de Arce, a perda de força nas eleições municipais que ocorrem essa semana demonstram como esse partido não é visto como uma saída para os trabalhadores bolivianos.

Ainda não há resultados oficiais, mas a apuração parcial dá conta de que na disputa às prefeituras, o MAS perderá em 8 das 10 principais do país, inclusive nas capitais do eixo central que são Cochabamba, La Paz, Santa Cruz e El Alto. Nesta última, considerada bastião do MAS, segue em liderança Eva Copa, ex presidenta do Senado que concorre pelo novo partido Jallalla, que na prática é um puxadinho do MAS com uma cara indianista.

Para os cargos de governos departamentais, o MAS, de acordo com a apuração oficial da OEP (Órgão Eleitoral Plurinacional), está a frente em importantes departamentos, entre eles Oruro, Potosí, Cochabamba e La Paz.

Mas apesar da perspectiva de permanência do MAS em nível nacional por meio dos governos departamentais, a direita golpista com suas figuras conseguiu um fortalecimento nas principais capitais, como Manfred Reyes Villa na cidade de Cochabamba e Ivan Arias na prefeitura de La Paz.

Mas uma evidência superior da consolidação da presença dos golpistas é a expressiva votação de mais de 65% em Luis Fernando Camacho, principal figura e arquiteto do golpe, e líder da direita mais reacionária na região.

A eleição de Luis Arce à presidência da Bolívia não significa, portanto, a derrota definitiva do golpismo e suas figuras. O MAS segue atuando por dentro do regime onde o privilégio sempre foi e segue sendo da burguesia boliviana e funcional ao imperialismo, e abrindo espaço para que os golpistas entrem pelas frestas do Estado para seguir implantando seus ataques. E faz isso da maneira sorrateira e vergonhosa que é peculiar do reformismo: frear as lutas dos trabalhadores e desviar sua energia para estratégias eleitorais.

A única solução para enterrar de vez o golpe, seu regime e suas figuras, é que a força que os trabalhadores indígenas bolivianos demonstraram nas ruas, aliada à tradição de auto-organização que esteve presente em todas as vitórias operárias no país, ultrapasse o bloqueio das direções burocráticas e da demagogia do Estado Plurinacional para consolidar um novo regime, onde os povos historicamente oprimidos sejam finalmente recompensados pela coragem que demonstram há séculos.

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