Teoria

SEMINÁRIO DIALÉTICA

A vitalidade da dialética hoje: a propósito do seminário teórico do Movimento Revolucionário de Trabalhadores

No início de agosto, buscando retomar as bases do pensamento marxista e nos preparar para o que vem pela frente, realizamos no Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) um seminário sobre a dialética e o pensamento filosófico marxista.

Thiago Flamé

São Paulo

sexta-feira 4 de outubro| Edição do dia

A ascensão de Bolsonaro e da extrema-direita ao governo, depois que uma década e meia de governos petistas e dois anos depois do golpe institucional que derrubou Dilma Rousseff, coloca com força a pergunta: o que vem pela frente? Em uma situação muito distinta, Lênin voltou a Hegel para entender mais profundamente uma das maiores derrotas históricas do movimento operário, como a social-democracia, a maior organização que a classe operária havia construído, converteu-se no seu contrário, ou seja, em peça-chave de sustentação da ordem burguesa e da guerra imperialista. Nos inspiramos no revolucionário russo que, num momento de extrema reação, em que o capitalismo arrastou a humanidade para a carnificina da I Guerra Mundial, viu também o gérmen da revolução próxima, o que sintetizou na fórmula profundamente dialética de “transformar a guerra imperialista em guerra civil”. Isso quer dizer que, para acabar com a carnificina entre os povos, era necessário que cada povo se rebelasse contra os seus próprios governos e a sua própria classe dominante.

Diante da radicalização da direita e dos empresários que pretendem sair da estagnação econômica aprofundando a exploração e aumentando suas margens de lucro, o petismo e a oposição respondem moderando ainda mais o seu discurso e buscando alianças com a centro-direita. O caminho que nós buscamos é o oposto. A polarização social e o fortalecimento da extrema-direita precisam ser respondidos à altura, não com a impotência de uma esquerda moderada, mas com o fortalecimento da esquerda radical, que toma as coisas pela raiz e que combate Bolsonaro pelo que ele realmente é: uma manifestação da decadência do sistema capitalista. A derrota que significou a eleição de Bolsonaro pode abrir espaço para que cresça uma esquerda revolucionária que se coloque à altura das possibilidades que virão. 

Dizia Hegel no prefácio à sua primeira grande obra filosófica, a Fenomenologia do Espírito, publicada em 1806 e que utilizamos em nosso seminário, que

não é difícil ver que o nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para uma nova época […] o espírito que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício do seu mundo anterior. Seu abalo se revela apenas por sintomas isolados; a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vago de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha. Esse desmoronar-se gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo [1].

 
Hegel, que ao final de sua vida enveredou por um pensamento mais conservador, escreveu essas linhas e elaborou sua filosofia profundamente impactado e influenciado pela Revolução Francesa. Elaborou uma teoria dialética que possuía um elemento crítico e questionador da atual ordem de coisas, que mostrava que “tudo o que existe merece perecer” – frase retirada de uma das obras-primas de Goethe e que expressa tão bem o sentido revolucionário da teoria de Hegel à qual Marx, depois retornou mais de uma vez.

Como colocava Engels em um dos textos que conduziram as reflexões de nossos debates:

Em Hegel, a verdade que a filosofia procurava conhecer já não era uma coleção de teses dogmáticas fixas que, uma vez descobertas, bastaria guardar de memória; agora a verdade residia no próprio processo do conhecimento, através do longo desenvolvimento histórico da ciência, que sobe, dos degraus inferiores, até os mais elevados do conhecimento, sem, porém, alcançar jamais, com o desenvolvimento de uma pretensa verdade absoluta, um nível em que já não se possa continuar avançando, em que nada mais reste senão cruzar os braços e contemplar a verdade absoluta conquistada […] Diante dela (da dialética hegeliana) nada é definitivo, absoluto, sagrado; ela faz ressaltar o que há de transitório em tudo que existe; e só deixa de pé o processo ininterrupto do vir-a-ser e do perecer, uma ascensão infinita do inferior ao superior, cujo mero reflexo no cérebro pensante é esta própria filosofia [2].

 
Mas a obra de Hegel, cujo sentido revolucionário é cabal, como continua a desenvolver Engels, encontra a limitação de buscar se fechar em um sistema filosófico que explique toda a verdade. A necessidade de enquadrar a dialética dentro de um sistema filosófico leva Hegel à necessidade de colocar um ponto final na permanente mudança que ela significa.

Com isso, porém, proclama-se como verdade absoluta todo o conteúdo dogmático do sistema de Hegel – o que está em contradição com seu método dialético que se opõe a todo dogmatismo. Assim, o lado revolucionário da doutrina de Hegel morre asfixiado pelo seu lado conservador [3].

Engels desenvolve como todo o debate político na Alemanha da primeira metade do século XIX esteve influenciado por Hegel: os que o combatiam do lado conservador colocavam a ênfase no sistema e os que buscavam respostas progressistas ou revolucionárias colocavam a ênfase no método de Hegel.
 
O concreto é concreto, por que é síntese de múltiplas determinações

Nesse mesmo texto, Engels retoma uma frase de Hegel que, segundo ele, foi mal compreendida pelos governos conservadores e liberais, ambos curtos de visão, “tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real”. Para eles, essa frase era uma justificativa de toda a ordem existente. Diferentemente dessa visão curta, o pensamento de Hegel apontava o oposto. Para o filósofo dialético,

no processo de desenvolvimento, tudo que antes era real se transforma em irreal, perde sua necessidade, seu direito de existir, seu caráter racional; à realidade que agoniza sucede uma realidade nova e vital; pacificamente, se o que caduca é bastante razoável para desaparecer sem luta; pela força, se se rebela contra essa necessidade. A tese de Hegel transforma-se, assim, pela própria dialética hegeliana, em seu contrário.

E assim chegamos à frase já citada, de que “tudo o que existe merece perecer”.
 
No entanto, essa forma de apresentar o processo de transformação da realidade já comporta em gérmen os pontos fracos da sua filosofia. Hegel converte a racionalidade no critério do que é real, ou, dito de outra forma, as representações racionais da mente humana têm um status de existência superior à realidade concreta e caótica que essa mente deve, através de uma série de processos, reordenar numa totalidade plena de razão.
 
Foi Marx quem virou do avesso a dialética hegeliana, preservando seu “núcleo racional” e a limpando e retirando do método dialético as amarras místicas que ainda subsistiam e limitavam o método dialético no pensamento hegeliano. Nas palavras do próprio Marx, em um dos posfácios de O Capital:

A mistificação que a dialética sofre nas mãos de Hegel de modo nenhum impede que tenha sido ele a expor, pela primeira vez, de um modo abrangente e consciente as suas formas de movimento universais. Nele, ela se encontra de cabeça para baixo. Há que desvirá-la para descobrir o núcleo racional dentro do invólucro místico [4].

 
Essa chamada inversão que Marx realiza da dialética hegeliana tem sido fruto de inúmeros debates no marxismo ao longo do século XX. Marx teria, simplesmente, tomado o método hegeliano, abandonando o conteúdo das conclusões que o filósofo idealista teria chegado com o seu método? Essa visão parece deslocar em demasia o método dos resultados que alcança. Como poderia um método fundamentalmente correto levar a um conjunto de conclusões equivocadas? Ou, pelo contrário, ao rejeitar o conteúdo, o que teria feito Marx seria reinventar a dialética e transformá-la num método radicalmente distinto do de Hegel? Isso tampouco parece estar de acordo com as próprias indicações metodológicas que Marx nos deixou.

Marx aponta a sua dialética como o “exato oposto” da dialética hegeliana ao passo que reconhece em Hegel quem expôs, pela primeira vez, suas “formas universais”. Esse processo de superação que Marx opera em relação à dialética hegeliana é matizado e multifacetado. Enquanto o método é reelaborado, uma parte do conteúdo é também apropriado criticamente, enquanto outra parte é rejeitada e abandonada. Como diz Engels, não se pode simplesmente deixar de lado Hegel, como faz Feuerbach, mas é necessário superá-lo a partir de suas próprias premissas [5].
 
Em Marx, o processo que, para Hegel, é o próprio movimento do concreto, é apenas a forma como o pensamento humano apreende a realidade. Para Hegel, o pensamento é o demiurgo do real, enquanto para Marx o ideal é apenas o material transposto na cabeça do ser humano. Marx descreve da seguinte maneira esse processo:

o concreto é concreto porque é síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e da representação […]. Eis por que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento… [6]

Uma dialética do real
 
Seria, então, a dialética um processo do pensamento que se apropria da realidade ou a realidade é ela própria dialética? Esse é outro debate complexo que atravessa o marxismo ao longo do século XX e que buscamos abordar.

Para o próprio Hegel, ao conceber o pensamento, a ideia, como anterior ao concreto, essa questão sequer se coloca. Para o marxismo, o que se coloca para o pensamento como um método de abordagem do real via sucessivas aproximações, ou seja, o método dialético, não pode deixar de existir como parte do que é real. Não como um conjunto de leis da dialética que se aplicaria e serviria para compreender qualquer manifestação da realidade. Enxergar a dialética dessa forma seria fazer retroceder a dialética materialista a uma espécie de kantismo. Nada mais distante do marxismo.
A dialética existe no concreto como a forma de movimento do real. Tudo o que existe está em constante transformação, as coisas se transformam, sob certas circunstâncias, no seu oposto. Tendo acumulado determinadas quantidades, opera-se, em algum momento, um salto de qualidade, e assim por diante. Estudar, por si só, essas leis gerais do movimento, todavia, não nos ensina nada do movimento real das coisas. Não vamos descobrir as contradições do governo Bolsonaro que podem ser aproveitadas pelo movimento de massas estudando Hegel. No entanto, estudar Hegel e a dialética nos ajuda a afiar as ferramentas do nosso pensamento, a identificar e a reconhecer essas contradições ao se fazer um estudo meticuloso da realidade brasileira em suas conexões com os demais países, a entender a ligação entre os fenômenos políticos e econômicos.
 
A luta entre os contrários, longe de ser apenas um processo mental, está presente na realidade. Hegel utiliza uma forte metáfora para descrever esse processo:

o botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser da planta, pondo-se como sua verdade no lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si [7].

É preciso, para Hegel, saber conhecer esse “processo de luta e contradição contra si mesmo, momentos mutuamente necessários”.
 
Lênin formula assim o mesmo processo:

A identidade das contradições (talvez fosse mais correto dizer sua “unidade”, embora a diferença entre os termos “identidade” e “unidade” não tenha, neste caso, uma importância essencial e, em algum sentido, ambos os termos são justos) constitui o reconhecimento (descoberta) da existência de tendências contraditórias e mutuamente excludentes e antagônicas em todos os fenômenos e processos da natureza (tanto os do espírito quanto os da sociedade). A condição para o conhecimento de todos os processos do universo em seu “automovimento”, em seu desenvolvimento espontâneo, em sua vida real, está na unidade das contradições [8].

 
O antagonismo que se desenvolveu até agora na realidade brasileira dos últimos tempos foi entre golpismo e lulismo, entre o bolsonarismo e o petismo. Em tempos de crise capitalista, o reformismo moderado do petismo e suas tentativas tímidas de disputar melhores condições na relação de dependência do Brasil com os EUA, transformaram-se no inimigo de toda a elite que esteve por trás do golpe institucional. Ainda que Dilma já se dispusesse a avançar em ajustes contra a classe trabalhadora, a elite e as multinacionais, em especial a dos EUA, queriam mais. Enfrentar a dominação burguesa ou resistir à ofensiva golpista e querer conservar a ordem e a estabilidade é uma estratégia condenada ao fracasso e que coloca quem a aplica como parte do sistema de domínio do capitalismo, uma forma de cooptar os setores dirigentes das classes subalternas e evitar que surjam alternativas por fora da ordem. Assim, entre esses dois polos de disputa o que se desenvolve é a dialética da dominação burguesa. 

O período de dominação benévola sob a batuta de Lula e do PT, que apoiados no crescimento econômico mantiveram as bases da dominação burguesa potencializando os lucros das grandes empresas ao conceder alguns poucos benefícios para as grandes massas populares, ficou no passado. Não sem deixar marcas profundas na classe trabalhadora e na juventude. Ocorre que as condições da crise capitalista impuseram para a burguesia o abandono da sua dominação benevolente via lulismo e aplicação de formas mais duras de domínio.
 
Enquanto forem estes os termos da polarização que travessa o país, a dominação das elites está assegurada. O que buscamos construir diuturnamente são as condições para que as contradições de classe que atravessam o capitalismo, hoje apenas latentes e contidas na polarização entre petismo e bolsonarismo, desenvolva-se em toda sua potência. Essas contradições trazem a possibilidade não manifesta de o proletariado irromper como sujeito que luta não só para conservar suas condições de existência em meio à degradação provocada pela crise do capitalismo, mas, a partir dessa luta, colocar-se a perspectiva de construção de uma sociedade sem Estado, sem exploração e opressão. 

Não esperamos passivamente pelo momento em que os termos do antagonismo atual se modifiquem, buscamos ativamente construir o momento em que não só governo Bolsonaro possa perecer, mas, junto com ele, o conjunto do sistema capitalista que o atual presidente do Brasil tão bem simboliza, ambos derrotados pela luta da juventude e da classe trabalhadora. Confiamos que essa construção não será em vão e que mais cedo do que tarde a noite bolsonarista será interrompida pelo sol nascente, que iluminará, num clarão, a possibilidade de novo mundo a ser construído sobre escombros da sociedade capitalista.

Jair Bolsonaro vê socialismo em tudo. Logo chegará a hora em que terá que acertar as contas com o verdadeiro socialismo.




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