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A jornada de trabalho atual tira dos trabalhadores a possibilidade de criar e desfrutar

Os e as trabalhadoras nem se quer tem momentos de ócio, pois o modo de vida operária atual os embrutece, lhes tira tempo e possibilidade até de se sentirem felizes, pois lhes vendem indiscriminadamente álcool e remédios. Traduzido do La Izquierda Diario Chile.

sexta-feira 6 de novembro de 2015| Edição do dia

As extenuantes horas de trabalho -que muitas vezes superam as 8 horas legais diárias- não deixam nada além de cansaço e mal-estar. A vida diária no interior de uma fábrica, de um centro comercial, da mineração ou de uma jornada de trabalho caminhando pelas ruas, com seu peso, silencia até o mais profundo do corpo de um homem ou de uma mulher que trabalha cotidianamente.

Desde pequenos, em torno à educação que nos é implantado nos colégios municipais, escolas técnicas, nos ensinam a convertermo-nos em trabalhadores de mão de obra barata, sem possibilidade de ver como necessário um espaço de criação e ócio para uma vida melhor. Quando, muitas vezes, os trabalhadores resolvem, por si próprios, a ter este momento, geralmente está ligado à evasão do dia de trabalho, via o abuso de álcool, remédios ou qualquer outra substância que permita fugir da realidade.

Não é casual que, em um estudo, realizado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), no ano de 2014, tenha se certificado que o Chile é o país mais "alcoólatra" da América Latina, onde, em média, cada pessoa ingere mais de 9,6 litros por ano, e que precisamente esta porcentagem está ligada intimamente com os setores mais precarizados e despossuídos da sociedade, ou seja, os e as trabalhadoras, sua juventude e suas mulheres. Como colocou, certa vez, Luis Emilio Recabarren, ao se referir à problemática do consumo de álcool na classe trabalhadora no começo do século XX e que hoje suas palavras seguem valendo para a realidade presente:

"Não são só as autoridades que têm interesse no desenvolvimento dos vícios. Nossos grandes magnatas, donos de imensas fazendas, todos aqueles capitalistas fabricantes de licores, que fariam com todo licor fabricado, se não existisse essa grande quantidade de bêbados?"

Pois apesar das distintas campanhas impulsionadas pelo governo -que pouco tem de real interesse em acabar com esses problemas- segue lucrando e engrandecendo monopólios legais através de impostos e de grandes redes de propagandas na televisão, fazendo alusão ao consumo excessivo de álcool; e mais ainda com a existência das famílias de elite, que colocam seus sobrenomes em vinhedos, vinhos e cervejas. O problema não é coisa de moralista, o problema não é que alguém não possa tomar álcool em quantidades que não causem danos ao corpo e a saúde, mas sim qual é o objetivo que se tem por trás disto quando seu uso é indiscrminado.

O uso do "tempo livre", do "espaço de criação" também segue sendo permeado pelos interesses de classe, de dominação e abuso do trabalho nas costas dos trabalhadores. Não há espaço algum para se escapar da opressão e exploração que passe por fora de enriquecer os bolsos dos capitalistas.

Acontece que por vezes temos um sentimento de raiva ao não ter energia de, inclusive, brincar com os filhos (quem é mãe e pai), ou ver a um filme, ou ter sexo sem problemas (e que também seja prazeroso), e que o trabalhador ou trabalhadora não tenha limitações do tipo "daqui a poucas horas deves te levantar outra vez para trabalhar; assim tudo deve ser mais rápido porque o tempo está se esgotando". Se até escutar uma canção ou inclusive ler, se mostra como algo difícil de conseguir, pois as horas já nos foram usurpadas e o sol já está se pondo e é quase noite. Nossa energia, e a jornada passou entre os ir e vir de um metrô, das exigências de um outro, que o que fez com o nosso tempo e força de trabalho tem sido nos extrair e nos alienar em um descarado atuar onde seu interesse como patrão, empresário e chefe tem a maior preponderância ao final das horas, porque convém nos tornar brutos e letárgicos.

Mas um trabalhador tem também a sua vida, sobre tudo existe um desejo, que queremos que se concretize, que é modificar o atual modo de vida, de ocupar nosso tempo e espaço de ócio e criação também. Um modo de vida onde podemos criar métodos, relações e experiências que, de conjunto, nos convidem a nos sentir melhor e a acabar com o que há de estabelecido.




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