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A importância de assimilar as lições internacionais para o marxismo revolucionário

Gabriel Girão

“Camarada Lênin limpando a sujeira da Terra”, de Viktor Denisov. Cartaz soviético de 1920.

A importância de assimilar as lições internacionais para o marxismo revolucionário

Gabriel Girão

“Proletários de todos os países: uni-vos!” Muito mais do que uma mera frase de efeito, essa colocação do Manifesto Comunista mostra a essência internacionalista do marxismo revolucionário.

Desde os primórdios, o internacionalismo foi um pilar fundamental da tradição marxista, já bem marcado no Manifesto Comunista. Isso não se dava por um capricho de seus fundadores, que gostavam discutir tudo que é assunto do mundo, ou porque como revolucionários foram forçados a correr o mundo no exílio. Longe disso, o internacionalismo no marxismo tem suas origens no fato que a própria burguesia conseguiu fazer de seu sistema econômico um sistema mundial, muito mais que qualquer outro anterior. Como diz Marx no Manifesto Comunista:

Através do rápido aperfeiçoamento de todos os instrumentos de produção, através das comunicações infinitamente facilitadas, a burguesia arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para dentro da civilização. Os módicos preços de suas mercadorias são a artilharia pesada com que ela põe abaixo todas as muralhas da China, com que ela constrange à capitulação mesmo a mais obstinada xenofobia dos bárbaros. Ela obriga todas as nações que não queiram desmoronar a apropriar-se do modo de produção da burguesia; ela as obriga a introduzir em seu próprio meio a assim chamada civilização, isto é, a tornarem-se burguesas. Em uma palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.

Se isso já era verdade na época de Marx, na época imperialista isso dá outro salto. A imensa acumulação de capitais nas potências imperialistas e a necessidade de exportação dos mesmos, junto à repartição do mundo em áreas de influência dessas potências, fazem com que a economia mundial deixe de ser uma mera soma de economias nacionais interligadas para se tornar um todo que subordina cada realidade nacional. Nos tempos atuais, isso é totalmente evidente. As cadeias de produção são cada vez mais dispersas, aumentando a interdependência entre os países. Vimos como as paralisações econômicas na pandemia tiveram efeito global, assim como também a Guerra Comercial entre EUA e China arrasta o mundo todo atrás. Outro exemplo emblemático foi o navio encalhado em Suez e seus efeitos no comércio mundial.

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No entanto, ao mesmo tempo que criava seu império, a burguesia também criava, em escala internacional, o seu coveiro: o proletariado. Essa classe, desprovida de tudo, com exceção de sua força de trabalho para vender, que não tem a nada a perder exceto suas correntes, também não tem pátria. Mostra disso é que a luta da classe trabalhadora sempre teve um caráter internacional. As mobilizações dos trabalhadores em um país impulsionavam os trabalhadores de outros países a fazer o mesmo. Além disso, os exílios e migrações de massas e de líderes proletários ajudaram a difundir globalmente suas experiências de luta e organização, assim como suas ideologias. Por exemplo, a presença forte do anarquismo no Brasil no início do século passado está fortemente ligada à imigração italiana. Como exemplo máximo disso, a Comuna de Paris, primeiro governo operário da história, concedeu aos estrangeiros iguais direitos sociais, civis e políticos, até mesmo de votar e ser eleito.

Baseado no fato que tanto o capitalismo como a luta da classe trabalhadora são internacionais, é que o internacionalismo se constitui com pilar indissociável do marxismo revolucionário. No entanto, o internacionalismo marxista não é algo meramente passivo, que se limita a discutir a política internacional e a geopolítica. Pelo contrário, é um internacionalismo de combate, que busca se apropriar das lições mais avançadas da experiência da luta de classes a nível mundial, além de buscar intervir ativamente nesses processos. Como diz Lenin, em “O que fazer?”:

Segundo, o movimento social-democrata é, pela sua própria essência, internacional. Isso não significa somente que devemos combater o chauvinismo-nacional. Significa, também, que um movimento iniciado em um país jovem só pode ter êxito se assimilar a experiência dos outros países. Ora, para tanto não é suficiente apenas conhecer essa experiência, ou limitar-se a copiar as últimas resoluções. É preciso saber proceder à análise crítica dessa experiência e controlá-la por si próprio.

Baseado nessa lógica é que Marx fundou a Primeira Internacional, assim como Engels fundou a Segunda. Marx seguiu de perto processos como a Guerra Civil Americana, assim como a Comuna de Paris, buscando extrair suas lições mais profundas. No caso da última, ficou expresso no livro A Guerra Civil na França, onde Marx coloca que a Comuna mostrou a todos a essência da ditadura do proletariado.

Lênin, Rosa e Trótski dão continuidade a essa tradição, sendo ainda na Segunda Internacional importantes dirigentes de sua ala esquerda. Rosa, por exemplo, em base à Revolução Russa de 1905, escreveu seu livro Greve de Massas, Partido e Sindicato. Essa obra tem como objetivo tentar sintetizar algumas lições do processo, principalmente no que concerne à questão da greve de massas e também suas implicações na luta de classes na Alemanha e no mundo. Independente das diferenças que possamos ter, tal obra marcava a coerência revolucionária de Rosa frente à ala oportunista que começava a se consolidar no Partido Socialdemocrata Alemão. Lenin e os Bolcheviques dão um passo a mais ao fundarem a Internacional Comunista (IC), conhecida como a Terceira Internacional. Além de generalizar a experiência e as lições da Revolução Russa e do próprio Partido Bolchevique (e também de outros processos, vide as discussões sobre frente única, governo operário, sobre a questão negra, etc.), a IC buscava ser o partido mundial da revolução. Nesse sentido, a luta de cada partido nacional estava orientada por uma organização internacional. Com a degeneração burocrática da IC nas mãos do stalinismo, Trótski e os partidários da Oposição da Esquerda fundam a Quarta Internacional, que se baseava nos mesmos princípios e na mesma lógica da IC sob a direção de Lênin, agora também em base ao balanço de novos fenômenos, como a ascensão do fascismo e as burocratizações nos Estados Operários.

A prova da importância do internacionalismo para o marxismo é evidente quando analisamos o resultado do rompimento desse princípio por organizações que se reivindicam marxistas. Longe de ser apenas um desvio “pontual”, significou o total rompimento com o marxismo e muitas vezes fez com que essas organizações passassem diretamente à traição de classe aberta. No caso da ala direita da Segunda Internacional, esse rompimento significou apoiarem suas próprias burguesias na Primeira Guerra Mundial, entregando suas bases proletárias ao massacre. Ou no caso do stalinismo, que adotou a teoria do “socialismo em um só país” e foi responsável pela traição direta de inúmeros processos, como a Revolução Chinesa de 1925-1927 e a Guerra Civil Espanhola. O seu rompimento com o internacionalismo foi tão profundo que depois de burocratizar ao extremo a IC chegou a dissolvê-la em 1943, fruto de um acordo com as nações imperialistas dos Aliados na segunda guerra.

Infelizmente, também vimos esse rompimento em correntes que se reivindicam trotskistas. Muitas delas degeneraram em nacionais-trotskismos, com internacionais se baseando em acordos programáticos frouxos ou até mesmo em alguns casos, como no Secretariado Unificado, sendo praticamente uma “federação” de partidos ao estilo da Segundo Internacional, tendo no Brasil 4 grupos, por exemplo. Em muitos casos, essas junções internacionais oportunistas acabaram rachando ou explodindo frente aos grandes processos políticos ou da luta de classes internacional, o que nós chamamos “testes ácidos”.

Ao contrário disso, a Fração Trotskista-Quarta Internacional (FT-QI) tenta resgatar o internacionalismo de combate. Nesse sentido, buscamos analisar os principais processos internacionais de luta de classes, assim como a intervenção de seus grupos, onde isso é possível. Dessa forma, cada sessão nacional da FT-QI busca se desenvolver e se forjar não apenas nos combates de seu país, mas no mais profundo internacionalismo, buscando assimilar as lições e as experiências dos processos internacionais mais avançados. Assim como a economia mundial é um todo complexo que subordina as realidades nacionais, o desenvolvimento de nossa organização também não é uma mera soma do desenvolvimento individual de cada grupo nacional, e sim um desenvolvimento internacional de conjunto.

No entanto não acreditamos que um partido revolucionário vai se dar apenas do nosso desenvolvimento evolutivo. Acreditamos que os processos de luta de classes internacionais vão gerar giros à esquerda, rupturas e fusões de grandes setores de vanguarda e também de setores de massas que permitirão, a partir das lições dos principais processos de luta de classes, formar verdadeiros partidos revolucionários.

No entanto, longe de uma espera passiva por esse momento, buscamos desde já dialogar e tentar discutir as principais lições dos últimos processos de lutas com setores de vanguarda, sejam os companheiros que vêm de outras tradições, trotskistas ou não, assim como os setores que estão despertando nos processos recentes. Frente ao primeiro ciclo da luta de classes pós crise de 2008, lançamos em 2013 o Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista -Quarta Internacional, que foi atualizado em 2017. Agora, depois do segundo ciclo da luta de classes, iniciado com os Coletes Amarelos no final de 2018, sendo brevemente interrompido pela pandemia mas já voltando a se manifestar em alguns países, tendo como ponto alto nesse período pandêmico a luta negra nos EUA, lançamos um novo manifesto, que busca atualizar o anterior e sintetizar as principais lições dos últimos processos da luta de classes. Uma parte desse debate também foi feito no IV Congresso do MRT, ocorrido no mês passado.

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Mesmo depois da elaboração desse manifesto, alguns dos processos que chegaram a ser discutidos continuaram, como por exemplo a luta da saúde em Neuquén, que conseguiu uma importante vitória. No Chile também houve uma importante greve de portuários que obrigou Piñera a liberar o terceiro saque do fundo previdenciário. Além disso, vale colocar que há vários focos de lutas na Argentina para além da saúde de Neuquén, onde o PTS, grupo irmão do MRT na Argentina, está atuando ativamente para coordenar cada uma dessas lutas e batalhar pela unidade da classe trabalhadora, como a unidade entre empegados e desempregados. Unidade que faz a burguesia tremer, como mostra todo o ódio despejado pelo jornal argentino reacionário Clarin, dizendo que a cidade de Buenos Aires amanheceu sitiada por quem levantava a consigna de unidade entre empregados e desempregados e culpando os manifestantes por se manifestarem durante a pandemia.

Leia o Manifesto aqui: O desastre capitalista e a luta por uma Internacional da Revolução Socialista

Mais recentemente, vimos também a explosão da revoluta popular na Colômbia, da qual o Esquerda Diário está fazendo uma forte cobertura, não apenas divulgando as mobilizações, mas tentando discutir os rumos da luta, as suas lições para a realidade colombiana e também suas lições para outros países, além do impacto internacional de uma revolta tão aguda no país que serve de pivô do imperialismo americano na região e cujo líder é um direitista aliado do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Também vimos há poucas semanas a escalada do massacre perpetrado pelo Estado genocida de Israel ao povo palestino, massacre que conta com apoio dos EUA e de Biden. Ao mesmo tempo também vemos a imensa resistência do povo palestino, com várias mobilizações na Cisjordânia e no próprio território Israelense. Tal resistência vem inclusive gerando ampla solidariedade internacional, com manifestações em várias cidades do Brasil e do Mundo, além da solidariedade ativa de portuários italianos, que pararam um navio com armas indo para Israel

Nesse sentido, convocamos todos os jovens e trabalhadores que estão presentes nas lutas, os intelectuais marxistas que acreditam que o capitalismo precisa ser superado por uma via revolucionária, assim como a organizações e indivíduos do movimento trotskista e organizações que se dizem internacionalistas a lerem e debaterem o manifesto e avançar no debate da proposta de um movimento para uma Internacional da Revolução Socialista, baseado nas lições da luta de classes. Também fizemos um ato internacional virtual, no dia 1º de Maio, Dia Internacional dos Trabalhadores, para lançar o manifesto, que convidamos todos a assistirem.

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