Mundo Operário

GREVES BRASÍLIA

A heroica combatividade dos professores e trabalhadores de Brasília e a necessidade de derrotar a burocracia sindical que nos levou à derrota

Metroviários, professores, médicos e outras categorias recuaram em suas greves e mobilizações após várias semanas de paralizações, marchas, assembleias e combates, alguns dos quais marcaram época. Voltaram ao local de trabalho depois do jogo pesado do governo e do parlamento local, que se alinharam com sua polícia e desfecharam feroz repressão, intolerância e inflexibilidade em relação ao movimento dos trabalhadores de Brasília.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 21 de novembro de 2015| Edição do dia

Em meio a esse quadro, uma constatação salta aos olhos, para além da brutal política do governo do DF contra a classe trabalhadora. Ficou evidente a contradição entre o poder de fogo e de luta do movimento, a disposição de luta dos trabalhadores de educação, saúde e transportes de Brasília e, ao mesmo tempo, a postura de colaboração de classe das direções burocráticas do movimento sindical.

Em professores isso foi evidente.

Em outras categorias também: chegamos ao ponto de lideranças, como a dos metroviários, entregarem a greve sem qualquer conquista e no mesmo movimento em que defenderam o governador, alegando que ele, de fato, não tem recursos porque não pode contrariar a lei de responsabilidade fiscal. Isto é, “reconhecemos que o governador não tem recursos para dar aumento”, mais ou menos isso. Uma declaração alienada e no mínimo mal informada. Neste exato momento o governo local está construindo mais uma ponte faraônica, caríssima, destinada a bairros ricos [Lago Norte] e acaba de ceder aumento para as forças de repressão inclusive 100% no auxílio-moradia, mais auxílio-farda; polícia militar e civil tiveram seus aumentos previamente garantidos por Rollemberg. Havia dinheiro para a polícia mas não para a educação; o mesmo governo (antes o PT e agora o PSB) que repassa fortunas para as empresas de terceirizados, que exploram trabalho semi-escravo.

É importante que jamais esqueçamos o seguinte: se a direção sindical está predisposta a “compreender” as posições do governo e até justificá-las, aqui fica clara sua natureza burocrática, de colaboração de classe e, em consequência, que sua posição é , essencialmente, contra qualquer greve.

Isso também indica que se essa esquerda um dia fosse governo com certeza ficaria imobilizada e refém do Estado burguês. Seria, politicamente, mais do mesmo. Enfim, uma esquerda da ordem, governista, essa foi, aliás, sua estratégia nas greves do DF.

Derrota pelas mãos da burocracia sindical

Enfim, tivemos, ao final de tanta mobilização, de assembleias massivas, de corte de pistas, de repressão e combate, mais uma derrota que vai para a conta da burocracia sindical local, da CUT , das demais centrais, sendo que ficou também claro que a Conlutas não deu o melhor de si, não se chocou com a burocracia sindical, não liderou a ocupação do Buriti, para dar um exemplo. E os parlamentares de esquerda, PSOL inclusive, sequer se lançaram ao combate de rua junto com os professores. E, pior, o sindicato se desmobiliza deixando merendeiros e terceirizados ainda em greve, portanto isolados.

Um dos pontos altos da greve, no auge da mobilização, com uma assembleia vibrante em sua mais profunda combatividade, e se dispondo a atravessar a rua e ocupar o palácio do Buriti e criar um fato político de grande repercussão nacional, eis que a burocracia sindical deixou claro seu verdadeiro papel: sabotou essa ação, conteve a combatividade e foi rastejar diante do governador atrás de alguma “concessão” para poder parar a greve. Essa burocracia, que já tinha enterrado a greve de fevereiro [uma semana de paralisação e combate], que também conteve a greve em junho [naquela vigorosa assembleia de 17 de junho], é a mesma burocracia que apoiou esse governador no 2º turno das eleições passadas. Ela nunca quis de fato a greve, governista que é. E se constitui no maior inimigo da combatividade, da unidade das fileiras dos trabalhadores e da independência política dos trabalhadores e servidores públicos do DF.

Ela é também cúmplice da manobra do governador de saquear o fundo dos aposentados com base na promessa de pagar os trabalhadores da ativa. Assim como foi totalmente responsável pelo declínio na adesão da greve [que chegara quase aos cem por cento da categoria dos professores, por exemplo] e pela não-organização ativa de uma efetiva greve geral com ocupações e organização pela base. E também em frente única com a combatividade dos rodoviários [Ver vídeo]. Burocrática, essa direção do Sinpro – assim como a de metroviários, para não falar de médicos – jamais organiza a categoria pela base, não mantém piquetes permanentes, por escola, e se opõe liminarmente a qualquer democratização do comando de greve, cujo controle ela procura manter a todo custo.

Tem que ser varrida se queremos que uma greve se disponha a vencer e se pretendemos cerrar fileiras contra os ataques e “ajustes” do governo. São governistas enrustidos e organizadores de derrotas.

O primeiro dever dos professores combativos é organizarmos uma oposição sindical, em professores, mas também em outras categorias, que defenda a organização pela base, o sindicalismo combativo e pela base, em frente única classista, comando de greve democrático, e que levante bem alto a defesa do ensino público, gratuito e universal [incluindo creches], o fim da terceirização com imediata efetivação de todo terceirizado, igual salário para todos [e para homem e mulher], e um salário básico de acordo com o Dieese e ajustado mensalmente de acordo com a inflação. E democratização das escolas. E imediatamente: pelo fim do calote trabalhista e pagamento de todo o atrasado! E total aliança com os bairros, com o movimento estudantil e levantando bandeiras que articulem a população dos bairros pobres com nosso movimento.

Veja no vídeo a solidariedade dos rodoviários com os professores em greve:

Temos que ter consciência de que esses governos pretendem liquidar a educação pública, que Rollemberg/Dilma vão privatizar tudo que puderem, e não podemos aceitar nenhuma frente política com PT/CUT e nenhum partido da patronal, do bloco que está desfechando ataques em série contra a classe que vive do trabalho. Por essa via construiremos um movimento sindical e político que garanta sua independência em relação aos dois blocos, o governista e o da direita explícita tucana & cia.

Foto: Tony Winston/ Agência Brasília (Assembléia dos professores do Distrito Federal)




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