Internacional

ELEIÇÕES ARGENTINAS

A férrea decisão de fazer um partido externo à classe trabalhadora

Debate dentro da FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores) argentina, frente eleitoral anticapitalista que conseguiu quase 1,3 milhões de votos em 2013. Frente às PASO – eleições primárias onde se decidirá os candidatos oficiais da esquerda e de outras forças burguesas – desta força de esquerda, o PTS impulsiona a lista “Renovar e Fortalecer a FIT” e o PO e IS, a lista “Unidade”.

quarta-feira 5 de agosto de 2015| Edição do dia

Unidade ou "demolição"

No sábado passado realizou-se um Encontro no Hotel Bauen da chamada Lista Unidade, da FIT, o que não os impediu de dedicar grande parte de seus minutos a atacar a lista encabeçada por Nicolás Del Caño [deputado federal do PTS – Partido de Trabalhadores Socialistas – e pré-candidato a presidente], seu companheiro dentro da FIT. Altamira [do PO – Partido Operário, pré-candidato a presidente] explicou que não vai debater publicamente com Del Caño por temer "demoli-lo".

É a "onda" da "Unidade". Agressiva mas inacreditável para qualquer pessoa com um pouco de lógica, que jamais poderia acreditar que Altamira depois de atacar Del Caño, não debata "para não demoli-lo", em função do interesse geral da FIT.

Mas estes são os requintes, talvez de menor importância. O central do plenário foram suas definições, aplaudidas pelos companheiros da Esquerda Socialista [IS, na sigla do espanhol] que demonstraram ter total acordo na hora de pensar na estratégia de construção no movimento operário.

Afirmações extravagantes

Altamira começa com uma definição extravagante. Diz que esse plenário é mais representativo que o de Sitrac Sitram de 1971. O plenário de Sitrac foi um fato histórico porque era convocado por uma pequena fração da classe operária que fazia tremerem o SMATA [Sindicato de metalúrgicos] e toda a burocracia sindical de Córdoba e de todo o país. Foram os operários que ocuparam a FIAT, os que foram uma parte central da semi-inssureição do Viborazo, marco histórico da queda da ditadura.

Dá vergonha ter que explicar que essa reunião não tem ponto de comparação possível com a organizada no Hotel Bauen, fechada a qualquer pessoa que não seja um apoiador de uma lista dentro da interna da FIT, para as PASO do fim de semana que vem.

Mas a verdade é que até na extravagância há lógica. Altamira diz que este plenário é mais representativo. Tem seu método: acredita haver somado (acredita) uma quantidade de representantes presentes maior que a do Sitrac e isso bastaria. Independentemente da mais que duvidosa veracidade da soma, o que chama a atenção é a lógica. Para os companheiros a chave de toda política operária é juntar "representantes" e em base a isso poderia acreditar-se que está crescendo a influência da esquerda no movimento operário. Pouco ou nada importa a atividade política real de setores da classe operária e sua relação com a luta de classes. Ser a chave de uma semi-insurreição, desde esse lógica administrativa, é "menos representativo" que unir os delegados de dois grupos com alguns dirigentes sindicais que os apoiam nas elições internas da FIT.

Com essa lógica, Altamira chega ao extremo de afirmar estar "convencido de que no dia de hoje (sic) nasceu a expressão política da classe operária argentina, depois de décadas e décadas de ausência de uma expressão política da classe operária". Como se não tivesse limites, Altamira diz que "este plenário, à luz do que estou dizendo, é algo mais que uma renovação. Este plenário é uma revolução na classe operária e os protagonistas somos nós".

Às vezes se lê no Prensa Obrera [jornal do PO] que o PO critica o PTS por uma suposta "autoproclamação".

Luta de classes

Na quarta-feira, dia 28, o jornalista sindical do Clarín, Ricardo Carpena, escreveu sobre a luta da Linha 60 e disse que "O conflito com os motoristas da linha 60 está se transformando em outro caso testemunhal, como foi em 2009 o de Kraft e no último ano os de Gestamp e de Lear". O PO e a IS foram capazes de ter que limitar-se a apoiar (em geral muito pouco) todos esses conflitos desde fora, sem influenciar em nada no seu desenvolvimento. Apesar desta exterioridade quase assombrosa, Altamira se autodefiniu (definiu o plenário) como expressão de toda uma classe.

Desta forma, a seleção que faz a luta de classes ou não tem importância ou está posta ao contrário, já que o que é necessário é contar com um "representante". O PO, no cúmulo dessa lógica, incorporou ao seu elenco de figuras Silvio Fanti "Marley", de Lear, que sendo delegado foi embora da fábrica quando não tinha impedimento algum para entrar, chegando a um acordo com a empresa para sua indenização. Os operário do PTS, como Rubén Matu e Damián Gonzalez seguem brigando dentro dessa "prisão" na difícil tarefa de reconstruir a organização e são candidatos da FIT. As diferenças não poderiam ser mais notáveis.

Como a luta de classes tem uma importância tão menor, é lógico que o discurso de Altamira não faça nenhuma menção à necessidade de recuperar os sindicatos das mãos da burocracia sindical e se limite a dar conselhos gerais para todo conflito dizendo que sempre a chave é convocar a "greve indeterminada" e os piquetes.

Sujeito político

Mas não é apenas desinteresse pela luta de classes, mas pelo próprio desenvolvimento dos setores avançados da classe operária. Basta uma mostra e é o caso da FATE e da SUTNA San Fernando. Apresentado pelo PO como um exemplo de classismo, essa fábrica não tem sequer um candidato na lista Unidade da FIT, enquanto que na lista encabeçada por Del Caño há mais de 10 companheiros operários dessa fábrica. Até o Novo MAS tem candidatos de lá.

Nas listas do PTS existem centenas e centenas de operários de fábricas que nessas eleições não apenas são candidatos mas também militam na campanha em suas fábricas e bairros. São dezenas em muitas fábricas e sindicatos onde os ativistas que foram base das internas combativas tomam a política em suas mãos, deixam nesse momento de ser um objeto de exploração e se transformam em sujeitos políticos.

Desta forma avançam em sua consciência e em sua atividade, se relacionam com trabalhadores de outras fábricas e empresas, forjam suas primeiras armas, discutem e divulgam um programa. A classe operária tem milhões de membros, a chave é fazer com que uma fração por ora pequena possa avançar na militância política ao mais alto nível possível, em estreita relação política e ideológica com a esquerda revolucionária e participando em comum na luta de classes. Não há outra maneira para assentar as bases para a construção de um verdadeiro partido revolucionário de trabalhadores.

Diferentemente disso, o PO acredita que em acordo com alguns dirigentes sindicais e pequenos grupos populistas sem inserção na classe operária, pode evitar o trabalho paciente e audaz sobre uma classe de homens e mulheres reais. O exemplo dado por Altamira é o de azeiteiros, não porque tenha conseguido que uma parte desses trabalhadores tome em suas mãos a política, mas porque seu Secretário Geral deu o apoio a sua lista.

A política de fazer acordos com dirigentes independentemente do envolvimento de camadas de trabalhadores não é nova no PO. Existem companheiros honestos com os quais se fez acordos, mas em muitos casos os resultados caíram realmente no esquecimento, e é normal que uma porcentagem alta dessas experiências feitas apenas por cima chegue a um lugar ruim. Tal é o caso de sua relação com Quiroga da CGT-San Lorenzo, que após estar "unido" ao PO acabou no moyanismo, de seus próprios dirigentes Sosto, Lavagna e Silvia Hidalgo na FOETRA que passaram do PO à burocracia de Ladarola-Marín, e os irmãos Verón do SOIP, do Mar del Plata que fizeram uma trajetória similar.

Agora está aí o exemplo de Raquel Blas, já integrada "organicamente" às fileiras do PO que declarou que "o Partido Justicialista faz já muito tempo que não é o partido dos trabalhadores, eu diria desde o retorno de Perón e o Massacre de Ezeiza...".

Se alguém sente nostalgia pelo peronismo de 45, imaginemos a unidade conquistada com um partido que se diz trotskista. Esta é a forma de transformar-se na "expressão política da classe operária".

Agora o PO prova o que já provou antes e o que tentou o velho MAS com os resultados à vista.

Um final feliz

O PO considera que por esta simples via consiga ser (desde o sábado passado) a expressão política de uma classe social. Isso já é irrisório. Mas o final teria que ser feliz, porque neste sonho amável deve-se chegar ao Poder. Como os operários reais não estão em nenhum lado desse esquema não haverá auto-organização, nem direções nem experiências soviéticas.

Então, o PO explica qual é a nova "via ao socialismo". Textualmente diz o discurso sob o título "Pela Vitória": "A diferença da rebelião de 2001, quando as pessoas diziam “Fora todos”, se somará “que fique a Frente de Esquerda (FIT) e assuma o poder político". Altamira diz que "como vocês vêm, companheiros, o otimismo é absoluto". Pra dizer a verdade isto passou o ponto do otimismo e requer outras definições. Nem os dirigentes do velho MAS tinham pensado em uma "história" tão inocente para a tomada do poder.

Renovação

O melhor seria baixar os decibéis das agressões. É claro que existem duas políticas dentro da FIT que entre outras coisas, criaram duas listas. Uma busca desenvolver uma corrente de trabalhadores combativos que se colocam no terreno político. Buscamos que parte dessa classe que sofre da exploração diária se transforme em sujeito político e por essa via e em função da experiência na luta de classes, se funda com a esquerda revolucionária.

Esta tentativa de penetrar politicamente e de forma ativa em camadas de trabalhadores e jovens que nascem para a vida política e que transformem a esquerda em uma força real, é o que chamamos renovação, palavra que gerou o repúdio dos companheiros do PO e da IS.

A outra política considera a luta de classes como um problema de segunda ordem, busca acordos limitados com dirigentes e se autoproclama, em base a isso, como a "direção da classe operária".




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