Internacional

AMÉRICA LATINA E BOLSONARO

A explosão da luta de classes na Colômbia é um alerta a Bolsonaro e à direita regional

O problema para a extrema direita é que está cercada por um barril de pólvora latino-americano. Para Bolsonaro, a Colômbia é um alerta da luta de classes que podemos chamar de "a perigosa América Latina".

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

quarta-feira 5 de maio| Edição do dia

As jornadas tempestuosas da revolta chilena de outubro de 2019 contra o direitista Sebastián Piñera fizeram Jair Bolsonaro recuar pé ante pé diante do perigo de contágio ao Brasil. O regime do golpe institucional teve de frear momentaneamente seus ataques porque o Chile, logo depois do Equador, culminava uma onda de protestos e rebeliões populares na América Latina, que já haviam engolfado países como Haiti e Honduras, Panamá e Guatemala, Nicarágua e Porto Rico. O capitão reformado ameaçara então colocar em campo os militares que povoam seu governo caso “o Brasil virasse o Chile”. Os golpistas transpiravam medo.

A Colômbia, em novembro de 2019, foi a seguinte a ameaçar um governo de direita na região. Iván Duque – assim como Piñera, aliado de Bolsonaro – viu protestos de massas da juventude precária contra seu governo, a repressão sistemática da polícia sob a título de “guerra contra o narcotráfico”, e miséria e o desemprego. 2019 foi o ano da primeira greve geral na Colômbia desde 1977. Os protestos seguiram de maneira intermitente, e voltaram a ganhar magnitude internacional em setembro de 2020, novamente a juventude colombiana foi às ruas contra o governo, depois do assassinato do advogado Javier Ordóñez, eletrocutado pela polícia.

Nas últimas semanas, a nova explosão da luta de classes à Colômbia é o alarme temerário que assombra Bolsonaro, como ocorreu em 2019 com as jornadas revolucionárias no Chile. Não só Bolsonaro, mas a burguesia brasileira e todo o regime do golpe institucional que a ela atende assistiram, constrangidos, o direitista Duque revogar a reforma tributária que taxava as camadas baixa da classe média e a classe trabalhadora. O aliado bolsonarista recuava diante da fúria transbordada nas ruas de Cali, Medellín, Bogotá, e outras cidades centrais da Colômbia. Seguiu o caminho do ex-presidente equatoriano Lenín Moreno, que em outubro de 2019 teve de recuar diante dos protestos de trabalhadores e indígenas, e revogar o pacote de ajustes econômicos exigidos pelo FMI.

Esses fatores latino-americanos são muito importantes para a burguesia brasileira e o governo Bolsonaro. Foram os que mais tiveram êxito em aplicar ajustes ultraliberais contra as massas, e privatizações como a da CEDAE, com a inestimável ajuda das burocracias sindicais das principais centrais do país, como a CUT e a CTB (dirigidas pelo PT e o PCdoB). Mas o resultado dessa destruição da infraestrutura do país e a monumental precarização do trabalho, em meio à tragédia sanitária que ceifou mais de 400.000 vidas no país, põe no horizonte a possibilidade de explosões sociais contra os efeitos da catástrofe. A reabilitação de Lula pelo beneplácito do Supremo Tribunal Federal tem como função a contenção preventiva de semelhantes explosões de massas que recentemente atingiram o Peru e o Paraguai, e agora a Colômbia. Mas a crise econômica e sanitária estabelece parâmetros dramáticos na vida de milhões, e não se sabe se a burocracia petista e sua política de conciliação com a direita golpista antibolsonarista será suficiente.

Na Colômbia, a fúria nas ruas não surgiu apenas por conta da reforma tributária. De acordo com estatísticas do DANE (Departamento Administrativo Nacional de Estatísticas), a taxa de pobreza na Colômbia aumentou 6,8 pontos percentuais, chegando em 42,5%, o que significa que 21,2 milhões de colombianos não têm renda suficiente para satisfazer suas necessidades básicas. Quase 3,6 milhões de colombianos caíram abaixo da linha de pobreza no ano passado, como resultado da pior recessão econômica dos últimos 120 anos. Mais de um milhão de pessoas que agora estão na pobreza vêm de Bogotá: a capital contribuiu com 31,3% do total. O desemprego na Colômbia, agravado pela pandemia, é um flagelo para milhões: em julho de 2020, era de 20,2%, mas a taxa de desemprego nacional entre os jovens aumentou 12,2% durante o trimestre de maio a julho, atingindo 29,7%. No mesmo período em 2019, o indicador era de 17,5%.

Diante disso, qualquer manifestação contrária é tratada com as balas da polícia, do Exército e das bandas paraestatais. Entre 2016 e 2020, segundo a ONG Temblores, foram 971 indígenas, camponeses, sindicalistas, mulheres e ambientalistas assassinados por forças estatais ou paraestatais ligados à direita. As unidades militares da polícia, que supostamente lutam contra o narcotráfico, estão estreitamente ligadas a agências estadunidenses como a DEA (Drug Enforcement Administration), e foram formados por agentes do Serviço Aéreo Especial (SAS) do Exército Britânico.

As raiva de massas nas ruas colombianas e a paralisação nacional desse 5M não são um rechaço exclusivo a uma reforma tributária. Trata-se de questionar todo o modelo neoliberal, que durante anos foi sustentado pelo terror policial e militar, pela fábula da "guerra às drogas", e que resultou na precarização da juventude e no desemprego em massa. É o esgotamento dos trabalhadores, dos camponeses, dos povos indígenas, da juventude e dos setores populares do país que se fez sentir novamente nessa paralisação nacional e nas massivas manifestações que percorreram o país.

Esse é um problema para Bolsonaro no vizinho do norte. A Colômbia reafirma o que o Paraguai já havia mostrado: a luta de classes não esperará o controle da pandemia. A população pobre e explorada pode sair às ruas contra o aprofundamento da catástrofe econômica e sanitária. A política ultraliberal de submissão nacional e de degradação semicolonial do Brasil tornou o país mais frágil diante de estremecimentos socio-econômicos. Com a pandemia, há mais de 400.000 mortos e um iminente colapso do sistema de saúde em todo o território nacional (as UTIs dos Estados mais ricos se encontram com capacidade praticamente esgotada). A crise econômica é combustível adicional: o PIB brasileiro caiu 4,1% em 2020, o pior resultado em 24 anos. Pela primeira vez mais da metade da população economicamente ativa não tem trabalho, com 14 milhões de desempregados. A renda dos brasileiros encolheu 5,5% nos últimos dez anos; a queda no PIB per capita na década 2011-2020 é mais intensa que no período 1981-1990, a famosa “década perdida”. O resultado é que a economia brasileira saiu das 10 principais do mundo, estando em 12º lugar, com projeção de queda para 14º em 2021.

Quanto mais piorar essa situação, maior desagregação advirá ao governo Bolsonaro.

O rastilho de pólvora que atravessa as principais cidades colombianas contra Duque pode chegar ao Brasil? Nada está descartado, e não se pode prever com exatidão matemática os ritmos da luta de classes na América Latina. O agronegócio nunca lucrou tanto (a balança comercial brasileira registrou um superávit de US$ 10,349 bilhões em abril, as exportações do setor agropecuário cresceram 44,37%) e está organizando atos de apoio a Bolsonaro; setores importantes da classe dominante o apoiam, apesar da política de desgaste do regime golpista através da CPI. Ademais, a burocracia sindical da CUT e da CTB está embalsamada na própria paralisia, e cumpre seu figurino tradicional: calando-se diante da catástrofe organizada pelos golpistas de toda penugem. Essas direções reformistas são um dos obstáculos mais importantes a superar, e um sinal da necessária recuperação dos sindicatos para que os trabalhadores possam estar armados com ferramentas potentes quando explosões sociais vibrarem o tecido social brasileiro.

Ver também: Cai a Reforma Tributária de Duque com os protestos na Colômbia: é possível ir por mais e derrotar o governo!

Ainda que o Brasil saia relativamente incólume no imediato, a situação de impasse na América Latina desestrutura qualquer plano de estabilidade. O imperialista Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que utiliza os mecanismos do Partido Democrata para desgastar o trumpista Bolsonaro, compartilha com ele o interesse de evitar que o Brasil vire a Colômbia. Mas tudo fica mais difícil numa América Latina castigada pela pobreza e desigualdade pós-pandêmica, que renova sistematicamente protestos e rebeliões como os que abriram uma crise política interminável no Peru, os que encurralaram o presidente Mario Abdo no Paraguai, ou os que ora impõem a revogação de ataques ao governo Duque.

E não há previsão de melhora, já que o prognóstico para as economias dependentes e semicoloniais não é promissor. O FMI anunciou que na América Latina e no Caribe o PIB se contraiu 8,1% em 2020, devido ao impacto da recessão global sincronizada pelos confinamentos no início da pandemia e sua refração local. Tendo muitos mais problemas para lidar com a pandemia, países da América Latina estarão, no final do ano, com um resultado do PIB 8% menor do que o previsto em 2019. A consequência imediata já percebida nas periferias das grandes cidades é o aumento significativo da pobreza e um novo salto da desigualdade.

Não se pode esquecer o panorama político altamente incerto no subcontinente. As eleições no Equador e no Peru mostram que não há uma única tendência operando em nossas paragens. O pêndulo da política burguesa latino-americana segue oscilando entre a direita neoliberal (como o triunfo do banqueiro Guillermo Lasso no Equador), e algumas variantes pós-neoliberais (autodefinidas como “progressistas”, como Luis Arce na Bolívia, ou Pedro Castillo no Peru). Trata-se de uma expressão distorcida da profunda polarização social e política fruto da pandemia, mas também da relação de forças não resolvida após as lutas no Equador, a rebelião no Chile ou a luta contra o golpe militar na Bolívia. Essa dinâmica regional dificulta a política do imperialismo norte-americano na América Latina, porque os EUA não encontra um interlocutor claro com quem conduzir o continente.

Essa situação torna-se particularmente aguda em países onde o neoliberalismo teve mais “sucesso” como Chile, Peru e Colômbia, onde despertou para a vida política uma geração que não viveu as ditaduras de Pinochet ou Fujimori, ou, no caso da Colômbia, o período após os acordos de paz com as FARC. Os jovens que sofrem os maiores níveis de precariedade e desemprego, e que em muitos países latino-americanos devem se endividar para estudar, são os protagonistas das lutas e rebeliões na América Latina.

Fenômenos assim tendem a deixar marcas. E a classe trabalhadora brasileira, em pequeno, mostrou alguns exemplos de resistência (dispersos, mas importantes) como na luta das trabalhadoras da LG, das terceirizadas da Sun Tech, Blue Tech e 3C, com a luta dos metroviários de Brasília e a possível luta no metrô de São Paulo, entre outras. Não seria inusitado que os conflitos latino-americanos deixem sua forma particular de contaminação.

O Brasil vive uma situação particular dentro do impasse regional, e por ora se enquadra no pólo mais reacionário. O problema para a extrema direita é que está cercada por um barril de pólvora latino-americano. Para Bolsonaro, a Colômbia é um alerta da luta de classes que podemos chamar de a perigosa América Latina.




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