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CONCILIAÇÃO DE CLASSES | A estratégia petista: “eleições acima de tudo, Lula acima de todos”

Com Lula disponível para as eleições, não é segredo para ninguém que o PT já vem atuando com a visão totalmente direcionada para 2022. Nesse sentido, se reatualiza a vocação petista para as alianças eleitorais sem qualquer perspectiva de independência de classe.

segunda-feira 3 de maio | Edição do dia

A reintrodução de Lula ao tabuleiro político, com a sua elegibilidade, reembaralha as estratégias políticas de todos os atores do regime político nacional. Para um partido cujo o centro da sua atuação são as eleições e suas alianças, ter de volta sua principal figura apta para disputá-las muda tudo. E não é segredo para ninguém que o partido já vem atuando com a visão totalmente direcionada para 2022, retardando o enfrentamento ao governo Bolsonaro para as eleições, com o ex-presidente fazendo verdadeiros discursos de campanha como no final de semana em relação ao primeiro de maio.

Com Lula disponível, o cálculo político petista para 2022 mudou. Se nas eleições municipais de 2020 se tratava de lançar o maior número de candidaturas possíveis para manter o partido como protagonista e na disputa pela cabeça da frente ampla, disputando contra alas do bonapartismo institucional que buscavam isolar o partido; com Lula liderando as pesquisas, seu lugar ao sol se torna mais assegurado. Logo, a estratégia do partido será obviamente estabelecer todas as alianças possíveis - incluindo aí até partidos golpistas e governistas como MDB, PSD, PL- com vistas a aglutinar a maior força para a candidatura presidencial, mesmo que em detrimento de localizações estaduais. Lula já declarou com todas as letras que é preciso incluir esses partidos do centro - mostrando que mesmo após o golpe institucional votado por esses partidos a estratégia segue sendo se apoiar nas alianças com os representantes da burguesia.

No nordeste, um grande bastião eleitoral do partido, o cálculo passa por consolidar a força nos estados em que governa lançando candidaturas próprias, caso de Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte, e nos outros estados fazer alianças em troca de apoio à candidatura de Lula. Como no caso emblemático de Pernambuco, em que na disputa pela capital, Eduardo Campos e Marília Arraes polarizaram bastante a eleição, com Campos inclusive acenando para o eleitorado bolsonarista fazendo um discurso antipetista para vencer as eleições. Ainda assim, o partido está disposto a sanar as feridas com o PSB para estabelecer um aliança para 2022, pois principalmente na região nordeste, o PSB se trata de aliado estratégico para as pretensões petistas, selando parcerias políticas no Piauí, na Paraíba e no Amapá e fazendo uma reaproximação em Pernambuco, Sergipe e no Espírito Santo.

Minas Gerais é outro caso emblemático, que mostra a aproximação entre PT e PSD, com encontros entre Fernando Haddad e Alexandre Kalil, prefeito de BH e possível candidato ao estado. O mesmo PSD que é base do governo Bolsonaro, que votou a favor do impeachment, da reforma da previdência, da reforma trabalhista, e todo os ataques, e que hoje com Kalil está buscando impor o retorno inseguro às aulas atacando as trabalhadoras da educação que estão em greve sanitária contra o retorno.

Nada de novo sob o sol, mesmo nas eleições municipais, quando o partido lançou candidatura própria em 21 das 26 capitais, no Brasil profundo o partido estabeleceu todo tipo de aliança oportunista, estando coligado com o PSL ex-partido de Bolsonaro em mais de 140 cidades pelo país, mostrando como o vale tudo eleitoral é a tática que sempre norteia sua atuação. Ainda assim, há setores da esquerda que se iludem, fazendo chamados a que Lula restrinja suas alianças a uma frente de esquerda com independência de classe. Ignorando todos os anos do PT no poder que representaram governos de conciliação de classe, constituídos por alianças com todos os setores da burguesia nacional, do agronegócio às finanças. E ignorando a própria atuação do partido nos anos recentes, seja através de seus governantes no nordeste aplicando ataques contra a classe trabalhadora, como a reforma da previdência; seja o papel funcional que o partido cumpriu ao regime, engessando a classe trabalhadora por meio da passividade que suas direções sindicais impuseram ao movimento operário na luta contra as reformas.

Em resumo, poderíamos sintetizar a atual estratégia petista numa paráfrase: “eleições acima de tudo, Lula acima de todos”. Mesmo o país sofrendo com o descontrole da pandemia em que ultrapassamos a marca de 400 mil mortes, mesmo diante do aprofundamento da crise econômica que implica em demissões, no crescimento da miséria e da fome, toda a perspectiva petista de resposta se resume em esperar para votar em Lula em 2022, sendo o impeachment outra expressão dessa mesma perspectiva. Enquanto isso, a agonia da classe trabalhadora esprimida entre o medo da pandemia e da miséria, que já se expressa em diversos pequenos processos de resistência, como a greve sanitária da educação em BH, a luta das diretas e terceirizadas da LG contra a demissão, a luta das merendeiras do RJ por salários, os metroviários do DF, e vários outros exemplos de rodoviários pelo país, é abandonada à própria sorte. É fundamental batalharmos por organismos de coordenação dessas lutas, que vão desatando todo o ódio da classe trabalhadora contra a barbárie sanitária que vivemos, contra a ameaça de carestia de vida, buscando atuar para unificar os trabalhadores e fazer emergir o sujeito proletário que é quem pode dar uma resposta a toda essa crise no momento atual e não aguardando passivamente até 2022, para de forma ilusória resolver tudo com o voto.

Como dito, o impeachment não é uma alternativa a essa espera passiva. O impeachment termina em duas saídas que não correspondem a nenhuma necessidade da ampla maioria de trabalhadores e pobres do país: "Mourão na presidência" ou "Lula 2022", legitimando pelo voto todas as transformações do golpe, com a esquerda sendo funcional à política do bonapartismo institucional. Ao contrário da Frente Ampla onde cabe até ex-bolsonaristas, é urgente batalhar por uma saída independente onde os trabalhadores, não juízes, nem militares ou políticos herdeiros do Arena, é que definam os rumos do país.

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Para nós do Esquerda Diário se trata hoje de batalhar por uma política independente dos trabalhadores para derrotar não só Bolsonaro, mas também o STF, os militares e o Centrão, pela força da auto-organização. Uma Assembleia Constituinte que seja imposta pela luta e que seja livre e soberana, é a única política hoje que dá possibilidade da ampla maioria da população decidir sobre os rumos do país, mudar não só alguns jogadores, mas todas as regras do jogo, por exemplo, propor revogar cada reforma aprovada no golpe, assim como a autoritária LSN. Os capitalistas e atores golpistas desse regime não vão ficar passivos diante disso e usarão de todas as medidas bonapartistas adquiridas com a Lava-Jato, uso de GLOs, etc, contra nossa auto-organização. Nesse sentido que uma verdadeira transformação da situação de profunda barbárie no país passa pelas mãos dos trabalhadores, em um governo de ruptura com o capitalismo.




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