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Rebelião na Colômbia | A classe operária colombiana pode fazer a diferença e derrubar Ivan Duque

Já se completam mais de duas semanas de protestos na Colômbia, com paralisações, greves, bloqueios de estradas e a Guarda Indígena garantindo sua defesa. A luta de classes na Colômbia prova mais uma vez que só a classe operária, que tudo produz, pode transformar tudo.

Caio Rosa Estudante de Relações Internacionais na UnB

sexta-feira 14 de maio | Edição do dia

Foto: Luisa Gonzalez/Reuters

Já se somam duas semanas de protestos na Colômbia contra o regime ultraneoliberal e capacho do imperialismo estadunidense de Ivan Duque. As manifestações que começaram no dia 28 do mês passado fizeram cair a reforma tributária, mas a classe operária e os oprimidos continuam em luta, pois são anos e anos de repressão brutal da polícia contra o movimento operário e popular, carestia de vida e desemprego aumentando vertiginosamente. São décadas de neoliberalismo e intervenção imperialista questionados por inteiro em algumas semanas.

Um elemento atual das mobilizações na Colômbia que salta aos olhos é o forte protagonismo da aliança concreta de assalariados sindicalizados, jovens precarizados dos bairros populares, estudantes, classes médias urbanas progressistas, a “minga” indígena, camponeses e setores populares em geral. Debato brevemente nesse texto, portanto, o quanto é fundamental nesse sentido uma estratégia para vencer, derrubar Duque e avançar para um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo.

A importância de atacar as posições estratégicas da burguesia

Muito já se ouviu dizer de que "a classe trabalhadora desapareceu", ou mesmo a velha fraseologia reformista "a classe operária se tornou acomodada, ela não sabe o que quer". Bem, se ainda restavam dúvidas, a experiência colombiana desmentiu totalmente essas ilusões.

Por um lado, a imensa disposição de luta e seus métodos radicais (como greves, bloqueios de estrada, comitês de auto-defesa e uma profunda aliança operário-popular) mostra que o reformismo cético com a classe operária não passa de um murmurinho se comparado com a magnitude da rebelião colombiana. Mas, por outro lado, o papel concreto que a classe operária, desde suas posições estratégicas na produção, desempenha, ainda que de forma incipiente, é fundamental para entender a rebelião.

Nos últimos dias, estão ocorrendo diversos bloqueios de estradas, causando a interrupção dos embarques de café, principal exportação agrícola local. "Estamos completamente parados, as exportações paradas, não há nenhum movimento de café para os portos ou internamente", afirmou Roberto Velez, chefe da federação de exportação agrícola do país, em uma entrevista por telefone. Os bloqueios das estradas, alguns organizados por caminhoneiros em apoio à greve nacional e outros por manifestantes, dentre eles trabalhadores agrícolas, estudantes e indígenas, se espalharam pelo país. O maior bloqueio está impossibilitando mercadorias de chegar ou partir da importante cidade portuária de Buenaventura, no Pacífico. As barricadas estão especificamente afetando os produtores nas cidades de Huila, Valle del Cauca, Cauca e Narino, que estão no meio de suas principais colheitas, segundo Velez.

O depoimento de Velez demonstra o desespero da burguesia quando se ataca a burguesia em suas posições estratégicas, ou seja, quando os trabalhadores paralisam a produção e enfrentam os patrões. O que mais lhe bota medo é que esses bloqueios sejam capazes de unir trabalhadores portuários, agrícolas, caminhoneiros, estudantes, indígenas e muito mais explorados e oprimidos. Essa união pode ter consequências avassaladoras para a patronal.

Outro exemplo é quando os manifestantes estabeleceram um corredor humanitário durante 24 horas, no 13º dia de protestos, precedido por um dia em que civis armados dispararam contra a marcha indígena e feriram 10 pessoas. O Conselho Indígena Regional do Cauca (CRIC), a principal autoridade destas comunidades do sudoeste da Colômbia, anunciou que foi permitido um "corredor humanitário" para o transporte de alimentos e medicamentos em Cali, que enfrenta cada vez mais dificuldades devido à escassez. "Anunciamos que este corredor estará aberto durante 24 horas. Dependendo do comportamento, será prolongado, mas a marcha nacional continua, a greve nacional continua", ressaltou o conselheiro sênior do CRIC, Hermes Pete. O líder indígena acrescentou que é necessário garantir "a não intervenção das forças policiais nos pontos onde se encontram os manifestantes da marcha".

Cali é o cenário dos incidentes mais violentos, especialmente entre 30 de abril e 3 de maio, com episódios de brutalidade policial contra manifestantes que deixaram 35 mortos, de acordo com organizações sociais. Mas Cali também é o epicentro dos protestos, com um protagonismo heroico da juventude e dos povos originários.

Leia mais: A juventude de Cali na linha de frente contra o governo de Duque, sem confiança no “diálogo” com o inimigo

Outro elemento de muita radicalidade é a conformação da Guarda Indígena, um organismo de auto-defesa formado por povos originários da região de Cauca, impulsionada pelo CRIC. A Guarda chegou a Cali para apoiar a Greve Nacional e logo foi escolhida como inimiga pública número um do establishment colombiano, da polícia racista e das bandas paramilitares de ultra-direita.

Saiba mais: A luta da classe operária e dos oprimidos na Colômbia mostra: é preciso abolir a polícia!

A juventude se levantando junto dos trabalhadores, os povos originários se mobilizando para garantir os bloqueios e a continuação da paralisação, demonstra a importância dos métodos operários de luta. Apenas a classe operária, a partir da greve, paralisações, bloqueios e piquetes, articulando suas demandas com a do conjunto das e dos oprimidos é que pode fazer a burguesia tremer de medo e recuar, assim como foi na derrota da reforma tributária com contínuos dias de greve nacional. Exemplo que prova essa força é o que as trabalhadoras da saúde fizeram em Neuquén, Argentina - conquistando um aumento salarial para o conjunto do funcionalismo público provincial. Tudo foi conquistado a partir da auto-organização, com os comitês interhospitalares estabelecendo uma aliança com os povos Mapuche, a comunidade local, outras categorias como petroleiros e caminhoneiros. O PTS, partido irmão do MRT na Argentina, esteve intimamente ligado e atuante nesse processo. É, portanto, fundamental extrair as lições estratégicas desses processos.

Auto-organização para impor uma frente única, rumo uma verdadeira greve geral

As direções burocráticas das centrais sindicais, a CUT e a CGT, que integram o Comitê Nacional da Paralisação, foram superadas pelos protestos e manifestações que explodiram por todo o país. Essas direções buscam canalizar os mesmos através de um chamado de conciliação e por respostas pacíficas diante da violência estatal. Essa é a mesma localização das figuras do “progressismo” colombiano. Tanto a "Coalizão da Esperança", quanto o Pacto Histórico, de Gustavo Petro, vêm trabalhando para o sucesso da política de diálogo.

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O caminho para vencer Duque é uma verdadeira greve geral nacional, que pare as fábricas, empresas, em todos os locais de trabalho, assim como nas ruas e rodovias. Por isso a auto-organização é fundamental, a exemplo do combate anti-burocrático dos trabalhadores da saúde de Neuquén, formar comitês de greve eleitos pelos trabalhadores para cada local de trabalho e por região, centralizando os comitês e avançando em um verdadeiro comitê nacional de greve.

A auto-organização por cada local de trabalho pode ser o combustível necessário para impor uma frente única operária aos grandes sindicatos, obrigando-os a agrupar o conjunto das fileiras da classe trabalhadora que dirigem junto dos trabalhadores, jovens e indígenas mais combativos. Unificar as fileiras dos trabalhadores na luta é a única forma de estabelecer uma verdadeira greve geral nacional, que paralise todos os ramos da produção e derrube Duque.

É tarefa dos revolucionários acompanhar as massas em sua experiência com a democracia burguesa e buscar levá-la até o limite, apontando sempre a necessidade da derrubada do capitalismo. Por isso é fundamental lutar na Colômbia para impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, onde todos os poderes de fato se dissolvam, a começar pela dissolução do poder presidencial e outros poderes do Estado: abaixo a presidência da República, que serve de ponto de concentração oculto para as forças do militarismo, da reação e de todo o odiado regime colombiano; abaixo o Senado e todo aquele Congresso podre onde as leis mais miseráveis contra o povo são votadas; dissolução da Suprema Corte de Justiça, que nada mais é do que uma estrutura a serviço dos grupos de poder! Que seja nessa Assembleia que se discutam os grandes problemas fundamentais e estruturais do país que hoje oneram o povo, assim como a ruptura com todos os pactos que nos ligam ao imperialismo. Uma Assembleia Constituinte com estas características só pode ser imposta com a mobilização operária e popular combativa.

Mas nesse caminho e na luta para levantar organizações de autodeterminação, as massas podem ser convencidas de que é necessário avançar para um governo operário e do povo pobre, pois somente um desenvolvimento revolucionário da luta de classes, com o movimento operário liderando a aliança com o conjunto dos explorados, pode garantir uma solução progressiva para a crise geral na Colômbia. No decorrer desta luta, pela greve geral e para estabelecer formas de organização da classe trabalhadora, num caminho completo de independência de classe, está posto o desafio para que os trabalhadores e a juventude se dotem de uma poderosa organização própria, um partido revolucionário dos trabalhadores e dos explorados, que lute com unhas e dentes para dar uma solução definitiva aos problemas mais prementes aos quais o capitalismo os condena.

Foto: Ivan Valencia/AP Photo

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