Internacional

LESTE ASIÁTICO

A localização de Taiwan no tabuleiro mundial

A ilha na costa asiática ganha importância revigorada diante da competição estratégica entre Estados Unidos e China. Pequim aumentou o tom, afirmando que nunca renunciará à possibilidade do uso da força e que a independência de Taipei (capital de Taiwan) significa guerra. Por que tudo isso por uma ilha de 24 milhões de habitantes?

quarta-feira 24 de fevereiro| Edição do dia

A República da China (Taiwan) - não confundir com a República Popular da China - é uma ilha de 35 mil km² localizada a 160 km do continente. Grande parte de sua história política recente é determinada pela fuga da burguesia chinesa pertencente ao Kuomintang (Partido Nacionalista), que se instalou na ilha após o triunfo da Revolução Chinesa de 1949. Desde então, Pequim não reconhece a independência da ilha, e atualmente retoma a determinação para trazê-la de volta ao seu controle.

Em 2019, Xi Jinping havia afirmado em um discurso oficial que “a reunificação completa da pátria é uma tendência incontrolável" e que "ninguém, nem nenhuma força pode parar" esse processo. Mas não são só motivações políticas nacionalistas que levam o Partido Comunista da China (PCCh) a sonhar com a tal reunificação, e sim principalmente as necessidades econômicas para o seu projeto de modernização da indústria nacional, com o objetivo de disputar a primazia econômica, tecnológica e militar com os EUA.

A jóia que brilha os olhos de Xi Jinping ao olhar para Leste é a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), a maior fabricante de semicondutores de última geração do mundo, com mais de 51.000 trabalhadores e receita operacional de 13 trilhões de dólares. É a principal fábrica de chips do planeta. Mas a ilha altamente industrializada também possui outras enormes riquezas no campo da eletrônica (como a gigante Foxcon), mineração, maquinário, químicos e indústria automotiva (75% dos fornecedores da Tesla são taiwaneses).

A TSMC tem negócios com o mundo todo, porque é uma alternativa relativamente barata para diversas empresas que querem produzir processadores sem investir bilhões na tecnologia de fundição (uma das infraestruturas mais caras que há). Entre os clientes de Taiwan, se encontram mais de 500 empresas de todo o mundo, entre elas Apple, AMD, Nvidia, Intel, Sony… Não se encontra mais a chinesa Huawei, que teve o fornecimento cortado em setembro (2020) devido às sanções dos EUA.

Essa mina de ouro é altamente estratégica se a China de Xi Jinping pretende disputar a primazia tecnológica mundial com os EUA (a norte-americana Intel é a principal concorrente da TSMC, aliás, mas seu financiamento de pesquisa nem se compara à taiwanesa). Outras áreas de grande interesse para Pequim, como as telecomunicações 5G, os sistemas de satélites e basicamente toda tecnologia digital contemporânea dependem em alguma medida de semicondutores.

Por isso o governo de Trump, nos Estados Unidos, buscou fortalecer o apoio à ilha, aumentando a venda de equipamentos militares e realizando movimentações diplomáticas durante a pandemia que enfureceram Pequim - que se encontra evidentemente moralizada pela vitória do PCCh em Hong Kong. O novo governo Biden também declarou apoio “sólido como uma rocha” à Taiwan, enviando navios da marinha estadunidense para o estreito entre a ilha e o continente, e afirmando através de seu secretário de Estado, Antony Blinken, que o compromisso com Taiwan é absoluto.

Biden também está buscando diminuir a dependência dos EUA com a China no próprio campo de semicondutores. Recentemente a escassez global de chips paralisou diversas indústrias de automóveis, consoles e celulares dos EUA, uma crise provocada pela pandemia que atinge profundamente as economias desenvolvidas. Para solucionar essa crise de abastecimento, Biden teve a mesma ideia que o Japão e países da Europa: pedir ajuda para Taiwan.

O Estreito de Taiwan está sendo progressivamente militarizado pelos três países, EUA, China e Taiwan, que já constrói submarinos de última geração para colocar ali. Porém, no momento atual, com as economias extremamente dependentes e os governos tendo que lidar com a pandemia e suas consequências imediatas, é improvável que a situação escale por demasiado. Pequim e Washington sabem que a tentativa de reincorporação da ilha seria um conflito militar seríssimo, com implicações políticas incomparáveis ao que foi a Lei de Segurança em Hong Kong e com um impacto econômico certeiro a nível mundial.

Para além disso, os governos sabem que, mais do que um grande impacto econômico, um confronto dessas proporções no leste asiático fermentaria um enorme descontentamento social na região (que Taipei conseguiu evitar que a pandemia disparasse). As mobilizações que estremeceram Hong Kong durante grande parte de 2019 foram derrotadas, mas pairam como uma ameaça aos planos do PCCh, bem como a onda de protestos e de greves no vizinho Mianmar contra a intervenção militar da qual são apoiadores. No caso dos EUA, a onda de politização com o BLM, um movimento operário dá sinais de renascer e as tendências à revolta frente às consequências da pandemia de Covid, colocam elementos internos de possíveis contratendências às pressões belicistas no mar asiático.




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