Opinião

CRISE AMBIENTAL

A Cúpula do Clima e a disputa pelos rumos da destruição ambiental capitalista na Amazônia

A realização da Cúpula de Líderes sobre o Clima recolocou no cenário internacional a discussão em torno da devastação causada na Amazônia, parte importante do ecossistema internacional e que conta com a predação capitalista generalizada. Nesse sentido, Biden pressiona Bolsonaro por uma maior subordinação à política imperialista dos EUA atacando Ricardo Salles. A sinalização do Governo é de preservar ao máximo os rumos atuais e o Ministro, bem como faz Mourão. Artistas também se declararam, além de governadores de diversos Estados e é preciso saber: Para onde caminha o cenário da destruição da Amazônia?

quinta-feira 22 de abril| Edição do dia

Montagem EXAME/Getty Images

Chamada para os dias 22 e 23 desse mês, a convocação de 40 líderes políticos do mundo todo para a realização desse evento vem como uma iniciativa da política imperialista democrata de Biden para reorientar a posição dos EUA em torno da crise ambiental provocada pelo capitalismo, pudemos ver para onde aponta com a recolocação dos EUA no Acordo de Paris como uma das primeiras medidas de governo e que marca uma ruptura com a linha trumpista anterior. Diferentemente do “bilateralismo” pautado no extrativismo desenfreado proposto por Trump, Biden busca criar um novo “consenso” globalizante que garanta a hegemonia dos interesses dos EUA “multilateralmente” e aparentemente menos frontal nos choques de interesse entre os Estados Nacionais.

Obviamente que o Brasil viria a cumprir papel de destaque em um espaço como esse, afinal o país é detentor de uma biodiversidade fascinante e de recursos naturais importantíssimos e estratégicos para os interesses capitalistas. Se é fato que a destruição ambiental no Brasil provocada por Bolsonaro e seu Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem sido cada vez maior e gerado inclusive reação por parte de setores expressivos da juventude e da população, o projeto alternativo de “capitalismo verde” de Biden não responde a uma questão elementar: impedir que o capitalismo siga sendo um fator de destruição do planeta e no caso do Brasil a proteção da Amazônia e nossa biodiversidade frente a ganância e a sede de lucro.

Mas é importante também entendermos desde onde se localizam cada um dos atores políticos em torno dessa questão hoje, para que possamos também apresentar o nosso próprio projeto, dos trabalhadores e setores oprimidos marginalizados que sofrem com essa política dos capitalistas de predação da natureza. É nesse sentido que podemos nos enfrentar com Bolsonaro e setores do extrativismo desenfreado representados por Salles, mas sem cair na armadilha da demagogia “verde” de Biden.

Desenvolvemos no seguinte artigo: Amazônia: a demagogia verde de Biden e o negacionismo de Bolsonaro

A relação do bolsonarismo e do trumpismo com o agronegócio, as madeireiras e garimpeiros

Desde sua eleição em 2018 e da posse de Ricardo Salles o governo se sustenta com peso em setores ligados ao avanço agressivo da fronteira agrícola, a extração ilegal de madeira e a mineração predatória. Esses são hoje inclusive setores importantes que sustentam Bolsonaro no poder nos marcos da disputa com outros setores dos capitalistas dentro do regime político golpista no Brasil. Tendo sofrido uma crise grande recentemente com a cúpula dos militares e com o Centrão na sua reforma ministerial, fruto também da pressão de Biden para “refundar” o governo melhor alinhado aos seus interesses, o governo sinaliza sua intenção de seguir com sua política de destruição mantendo Salles e o protegendo no embate com a PF e o STF, e agora exige uma quantia bilionária para ressarcir os capitalistas em troca de promessas de uma redução nos índices de desmatamento.

Veja aqui: Bolsonaro protege Ricardo Salles com troca na PF: nos limites da “destrumpização” do governo?

Mourão e os militares nisso tudo

Como podemos ver na declaração de Mourão em relação a essa disputa, uma ala expressiva dos militares está disposta a sustentar a política do governo no que tange a destruição da Amazônia. Isso porque estiveram na linha de frente da expansão da fronteira agrícola e da conivência da destruição da floresta pela Comissão da Amazônia no último período, garantindo o lucro desses setores ligados à política do Governo.

Sendo presidente do Fundo Amazônico - organismo desde o qual seria recebido o repasse de verba dos EUA - a linha de Mourão e esse segmento militar é pressionar Biden por uma quantia indenizatória da maior possível para se comprometer em qualquer medida de desacelerar os ritmos da destruição natural no país, batalhando para manter os setores que lucram em torno dessa questão o mais próximos possível nesse momento.

Veja também: Mourão e o interesse militar de lucrar com a destruição do meio ambiente

Os governadores, o Centrão e as disputas na República do Golpe

Buscando imediatamente mostrar serviço ao governo Biden e aumentar o desgaste da figura de Bolsonaro dentro das disputas palacianas do regime político, uma carta assinada por vários governadores do Brasil foi enviada a Casa Branca afirmando uma colaboração nos planos da suposta “preservação ambiental”. Encabeçada por Wellington Dias (PT) e Renato Casagrande (PSB), contou com cerca de 20 governadores, além de outras instituições e pesquisadores, mas que como seria de se esperar não contou com o apoio dos governadores do centro-oeste bastante ligados ao agronegócio.

Somado a isso, recentemente aconteceu uma reunião virtual entre Helder Barbalho (DEM-PA) Governador do Pará e Todd Chapman, embaixador dos EUA no Brasil. Os pontos centrais da discussão foram acordos para facilitar vacinas entre os lados e a apresentação do Plano Amazônia Agora para o “desenvolvimento sustentável" da Amazônia. Um claro sinal de que os setores de “oposição” do bonapartismo institucional estão completamente alinhados com a política de Biden para “destrumpizar” o governo de Bolsonaro e mostra uma possível escalada da ingerência externa no país.

Nessa linha também está inscrita uma recente carta assinada por 36 artistas brasileiros e estadunidenses que coloca a necessidade de impor compromissos imediatos de Bolsonaro no combate ao avanço do desmatamento para só, aí sim, garantir o repasse de verbas por parte de Biden ao país.

Pode te interessar: Carta de governadores a Biden sobre “mudanças climáticas” é a cara do cinismo Democrata

Um projeto alternativo a disputa entre a devastação bolsonarista e a demagogia “verde”

O mais evidente nessa briga entre falsários é que nenhum dos lados em disputa detém o compromisso de defender a Amazônia e o meio ambiente da predação capitalista. Os povos originários, comunidades locais, quilombolas, a classe trabalhadora e os setores oprimidos são quem sofre com esse processo de destruição da natureza e devem ter um projeto próprio e independente com um programa e uma estratégia que permita combinar os aspectos mais avançados da técnica e do avanço das forças produtivas para permitir uma relação harmônica entre a humanidade e o planeta.

Um programa e uma estratégia operários que articule elementos fundamentais de programa, tais como o repasse das verbas milionárias destinadas ao agronegócio para um plano de reflorestamento e gestão das florestas. Por uma reforma agrária radical que varra a herança escravista e colonial do país, garantindo terra e crédito para todos que queiram trabalhar. Pelo monopólio da produção e da comercialização de grãos como soja e milho por uma empresa estatal gerida pelos trabalhadores rurais. Medidas essas que vão no sentido de se chocar com o lucro e com a ganância capitalistas.

É preciso ver que por fora de apresentar uma alternativa política independente dos trabalhadores para o país medidas como a defesa da Amazônia e esses aspectos de programa são impossíveis. É por essa razão que não basta pautar somente o impeachment de Bolsonaro, para que assuma seu vice Mourão, nem mesmo apostar as fichas em uma estratégia eleitoral para 2022 que eleja um candidato alinhado ao projeto de “capitalismo verde” de Biden.

Lutemos pela imposição através da luta e da auto organização do movimento de Massas de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana capaz de varrer os entulhos golpistas e avançar nessa perspectiva contra o conjunto das forças de um regime autoritário. Um mecanismo que permita acelerar a experiência desse setores com os limites da democracia burguesa e evidenciar que o choque de interesse entre as classes coloca a necessidade de conformar um governo de trabalhadores com a perspectiva de ruptura com o capitalismo e sua devastação ambiental




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