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A China de Xi Jinping: emergindo das cinzas do coronavírus?

André Acier

A China de Xi Jinping: emergindo das cinzas do coronavírus?

André Acier

O governo de Xi Jinping busca consolidar uma espécie de “segunda fase” da crise do coronavírus na China. A imprensa estatal chinesa está salpicada de imagens de máscaras sendo produzidas e entregues a outros países, de aviões chineses aterrissando no Estado espanhol com medicamentos, assim como de equipes médicas chinesas partindo para outras zonas de infecção para auxiliar o combate ao Covid-19. O Partido Comunista Chinês, e o presidente Xi Jinping, querem deixar para trás a primeira fase caótica do coronavírus, organizada pela própria burocracia em sua obsessão pela estabilidade. Mais que isso, querem alentar um ressurgimento das cinzas, ainda que com métodos autoritários, como triunfo do regime frente à catástrofe sanitária no Ocidente.

Ilustração: Ferguson/Financial Times

Tendo aparentemente controlado a curva de expansão aguda da pandemia, e não registrando novos casos na cidade de Wuhan, epicentro do Covid-19, o gigante asiático quer acelerar os passos para a recuperação dos históricos danos econômicos sofridos, e para a revitalização da arranhada imagem da burocracia do Partido Comunista Chinês a nível internacional.

Nem o próprio governo chinês pôde esconder o efeito devastador do coronavírus sobre sua economia. Segundo o National Bureau of Statistics, órgão oficial do governo, a indústria chinesa contraiu -13.5% no período de janeiro e fevereiro, junto a uma retração de -24% nos investimentos de capital. O desemprego urbano atingiu nível recorde, de 6.2%. Esse debilitamento sugere a possibilidade de que o PIB chinês possa ter caído quase 15% no primeiro trimestre de 2020.

Seria a primeira contração do PIB desde 1976, quando a China foi atingida pelo devastador terremoto Tangshan; ano que também viu a morte de Mao Tsé-Tung, cuja Revolução Cultural – um evento traumático para a burocracia stalinista, que fez em pedaços o monolitismo do estado e pôs em risco o domínio do Partido Comunista Chinês – havia erodido a economia entre 1966 e 1975. A partir de Deng Xiaoping, os resultados econômicos da China não viram recessões. Para Xi Jinping, que se louva a si mesmo como o mais importante político chinês desde Mao, o solavanco econômico pode trazer inúmeros problemas políticos.

Um tombo econômico que ameaça o coração das reformas “insígnia” de Xi, que com a Nova Rota da Seda e o Made in China 2025 dirige a tortuosa alteração das bases de crescimento da China, deixando de apoiar-se exclusivamente na recepção de capitais para competir por espaços mundiais de acumulação de capital. É diferente realizar a tarefa dessa magnitude numa economia em retração, do que era sobre uma economia pujante.

Politicamente, apesar de vermos condições sanitárias muitas vezes piores nos próprios imperialismos ocidentais, a imagem de superpotência chinesa foi severamente arranhada. Por um lado, com a revelação de sua precária infra-estrutura sanitária. Por outro lado, pelo autoritarismo rompante da burocracia. Sem deixar a desejar frente ao autoritarismo dos estados capitalistas ocidentais, como Itália, Estado espanhol e França, no princípio da crise o governo Xi instalou medidas policiais para encarcerar a população da província de Hubei, perseguir a dissidência exposta nos aplicativos de redes sociais (Weibo, entre outros), e deixar à mercê da morte milhares de pessoas, como relata o Foreign Policy, que esqueceu de mencionar a incompetência dos governos europeus. O negacionismo típico da burocracia restauracionista chinesa, resultou no abafamento das advertências que poderiam ter reduzido as mortes (entre elas a de Li Wenliang, o médico que advertiu sobre a epidemia, foi acusado pelas autoridades por “propagação de rumores” e logo faleceu pelo Covid-19).

Por mais que isso incomode os stalinistas de plantão, dotados de uma ligeireza de intelecto sempre pronta para apoiar de modo superficial tudo o que faz a burocracia chinesa (especialmente suas "repressões corretivas" a outros burocratas), a verdade é: a China foi o mais extremo exemplo do autoritarismo, com um férreo controle burocrático que impedia notícias diretas de Wuhan e demais zonas afetadas.

Diante desses problemas, a “segunda fase” da crise vivida pela China trata de responder dois flancos de atuação, apoiados no controle temporário do Covid-19 dentro de seu território.

A primeira medida é reativar a economia. Para evitar convulsões internas com o retardamento da recuperação econômica, Xi concentrou a máquina de controle do PCCh em garantir o restabelecimento das linhas de produção, e a cooperação dos governos regionais no traslado rodoviário dos trabalhadores confinados no interior do país. O periódico oficial Xinhua relatou as principais diretrizes de governo em coletiva de emergência, “em virtude da pressão descendente na economia chinesa”, em que Xi exigiu “encorajar empresas e províncias a reiniciar o trabalho e a produção de maneira ordenada, para diminuir o impacto negativo”. Em mensagem direta aos governadores de província, disse que “mais esforços” são necessários para desimpedir o fluxo normal da produção em regiões de baixo risco.

As mesmas fontes do Xinhua relatam que as grandes empresas em 19 províncias, incluindo Xangai, Zhejiang e Jiangsu, já reiniciaram a produção em larga escala, diminuindo sua capacidade ociosa. Em Xangai, 8 monopólios automotrizes, como a Tesla, e 600 fabricantes de autopeças já trabalham com capacidade avançada. Em Wuhan, centro industrial que abriga mais de 300 monopólios estrangeiros como Google, Microsoft, Apple, Amazon, Xi Jinping anunciou o retorno gradual ao trabalho, assim como em toda a província de Hubei.

A segunda medida é recompor o prestígio externo da China. Esse ponto é muito sensível à burocracia chinesa, especialmente diante dos ataques racistas e xenófobos de Trump, em campanha permanente para estigmatizar a China como a causa da pandemia (batizando o coronavírus de “Chinese Virus”). Xi Jinping foi pródigo nessa semana em anunciar a solidariedade chinesa ao mundo, exportando materiais sanitários necessários ao combate da pandemia para a Itália, a Sérvia e distintos países europeus. Diplomaticamente, Xi se aproximou especialmente de Emmanuel Macron, presidente francês, e mostrou-se disposto a trabalhar junto com a França no esforço de coordenação internacional de combate à pandemia.

A aproximação entre China e França é importante para o Partido Comunista Chinês. Macron é o principal desafeto de Trump na arena européia, e seu imperialismo tem uma linha globalizadora oposta ao nacionalismo protecionista dos Estados Unidos. Estrategicamente, a relação China-França é uma das vias de entrada do capital chinês no interior da União Europeia, após o esfriamento das relações com Berlim e a crise da governante Democracia Cristã (CDU), partido da chanceler Angela Merkel, que adotou uma postura mais agressiva contra a compra de ativos industriais da China na Europa.


Macron e Xi

Estes esforços de controle e reativação industrial da economia chinesa vem colocando a China, de maneira surpreendente, como a primeira potência a superar a crise do coronavírus e dar os primeiros passos da normalização produtiva. Segundo Alan Crawford e Peter Martin, da Bloomberg, o plano de Xi Jinping seria algo como uma “Health Silk Road” (Rota da Seda da Saúde), uma narrativa segundo a qual a China teria triunfado sobre o vírus e agora exerce sua influência através da ajuda sanitária internacional, como deveria fazer qualquer potência global. Trata-se de uma oportunidade de liderança desejada há muito, e que estava temporariamente fora do radar pelos impactos iniciais do coronavírus.

Henny Senders, do Financial Times, afirma que a China pode se tornar um dos mais seguros destinos de capital no mundo em meio ao alastramento da Covid-19 ao Ocidente. Isso porque, ao contrário do Federal Reserve dos EUA e a maior parte dos bancos centrais europeus, que reduziram suas taxas de juros a zero (ou abaixo de zero), “a China ainda preserva relativamente intacta suas ferramentas monetárias. O banco Central da China (PBoC) relutou em injetar bilhões de dólares na economia chinesa, e ainda não reduziu suas taxas de juros de referência, permitindo que o possa fazer em situações mais críticas”. Segundo Taimur Baig, chefe da divisão de Cingapura do Banco DBS, “a China poderia ter inundado os mercados de liquidez, para evitar qualquer tipo de problema financeiro; mas isso não seria consistente com o imperativo econômico chinês, ou seja, tornar as empresas menos dependentes de empréstimos para financiar seu crescimento”. Trata-se de “manter a pólvora seca”, para usá-la em momentos de emergência.

O próprio preço dos ativos financeiros chineses se sustentou com maior estabilidade que o de mercados estrangeiros. O índice de referência chinês CSI 300, como todos os índices das principais bolsas mundiais, caiu desde a virada do ano; entretanto, a queda de 12% é a metade do valor perdido pelo índice de referência dos Estados Unidos, S&P 500. A moeda chinesa se manteve estável frente ao dólar, e o Investimento Estrangeiro Direto (IDE) para a China voltou a ganhar estímulo no início de março.

Entretanto, a integração das cadeias globais de valor, e a dependência do comércio mundial, desautoriza celebrações precipitadas. Li Xingqian, diretor departamental do Ministério do Comércio da China, confessa que “No curto prazo, o impacto da Covid-19 sobre a economia global e a cadeia de produção e fornecimento é inevitável, e a China terá de trabalhar para minimizar o impacto no comércio estrangeiro e no crescimento comercial global”.

O grande risco para a China é ver sua recuperação atrasada pelos efeitos devastadores que as principais economias mundiais, em primeiro lugar os Estados Unidos, podem viver. Se a crise do Covid-19 ocupa o proscênio no drama mundial, nos bastidores uma nova recessão mundial ainda mais poderosa que a de 2007-2008 parece inevitável (ao ponto de a OCDE pedir um “Plano Marshall” contra o coronavírus), e isso atestam pensadores tão díspares quanto Nouriel Roubini e Paul Krugman, a Michael Roberts e David Harvey. Uma nova recessão, ou mesmo depressão mundial, pode desfazer en route todos os esforços iniciais de reativação industrial na China.

Um conflito comercial-tecnológico em “stand-by”

As operações econômicas de recuperação na China são essenciais, como dissemos, para que a complexa conversão da economia se faça em terreno favorável. Em si mesmo, já é titânico o desafio de transformar uma economia exportadora de manufaturas de baixo valor agregado, da magnitude da China, em uma economia baseada no mercado interno e produtora de alta tecnologia. A tarefa é de Sísifo, e se realizada em meio a convulsões econômicas internas e externas, tem menor chance de êxito.

Mas os obstáculos não vem apenas da economia ou da crise sanitária da Covid-19. A chamada guerra comercial entre Estados Unidos e China, embora adormecida, tem motores estruturais que podem vir à tona no decorrer da crise, e não se descarta que possa tomar novas formas.

O conflito entre Estados Unidos e China é produto da crise econômica mundial. Quando a China começa a ser afetada em suas exportações pela retração do comércio mundial, fruto da crise de 2008, é obrigada a concluir que o “esquema exportador” iniciado por Deng Xiaoping no final da década de 1970, e aperfeiçoado pelas reformas pró-capitalistas da década de 1990, já não poderia sustentar sua evolução futura. Essa queda econômica chinesa, explicada pela debilidade da economia mundial (e dos Estados Unidos em particular), levou a China a operar uma complexa mudança de seu padrão de acumulação. A operação consiste em reduzir drasticamente sua dependência da exportação de bens de baixo valor agregado, e acelerar a mudança do conteúdo de sua produção, para bens de alta tecnologia, numa economia baseada na expansão do mercado interno. À mudança de conteúdo, combinou-se uma mudança de postura na arena internacional: a China começou a transformar-se progressivamente em competidora pelos espaços mundiais de investimento e pela liderança em tecnologia de ponta, com uma produção cada vez mais competitiva com a estadunidense. Isso acarretou uma verdadeira corrida pelo desenvolvimento de novas tecnologias e sua aplicação na produção, com projetos como o Made in China 2025 (segundo o qual a China se tornaria a líder nos ramos da robótica, semicondutores, veículos elétricos, etc.) e a Nova Rota da Seda, que ligaria três continentes (Ásia, Europa e África), por rodovias, portos e ferrovias. Esse expansionismo econômico e cultural, através da exportação de capitais, trouxe consigo a acentuação da propaganda nacionalista do Partido Comunista Chinês.

Um resultado desse processo em mutação na economia mundial consistiu numa espécie de “ruptura” do motor simbiótico entre Estados Unidos e China, que impulsionou a economia mundial nos últimos 30 anos. Naturalmente, as duas economias dependem uma da outra para prosperar; entretanto, não podem reeditar a complementaridade relativamente “harmônica” das décadas neoliberais, em que Washington comprava o que a China exportava, ao passo em que as reservas em dólares do governo chinês auxiliavam a sustentação dos crescentes déficits norte-americanos.

Essa competição da China por espaços de acumulação de capitais se tornou um problema estrutural para os Estados Unidos. Aqui, vamos nos aproximando dos fundamentos reais, e não ilusórios, da guerra comercial movida por Trump. Isso é assim porque, para os Estados Unidos, a expansão do capital chinês sobre suas tradicionais zonas de influência globais é, basicamente, inaceitável. A China não tem poderio econômico e militar suficiente para questionar a hegemonia capitalista dos Estados Unidos sobre o mundo. Entretanto, a preocupação de Washington vem do fato de que os avanços tecnológicos da China permitem a esta alguns desafios parciais, mas importantes, em nichos industriais, e sobre vastas regiões, especialmente a Ásia-Pacífico. Diante desse cenário, os Estados Unidos colocam como objetivo, a partir de 2017, frear a corrida da China no desenvolvimento de novas tecnologias e na expansão de suas próprias empresas e capitais que a posicionam como um competidor global cada vez mais perigoso, e melhorar as condições de entrada das transnacionais norte-americanas na China.

Esse é o fundamento real que explica o atual conflito sino-estadunidense, que é comercial em fachada, e industrial-tecnológico em essência. O objetivo da “guerra comercial” movida pelos Estados Unidos contra a China é o de frear a velocidade do desenvolvimento tecnológico-industrial da China e a expansão de seus capitais. O aspecto comercial do conflito oculta o verdadeiro fundamento de uma política que unifica a burguesia imperialista estadunidense: preservar a preeminência tecnológica industrial (e portanto militar) dos Estados Unidos.

Do ponto de vista estratégico, para essa corrida pela primazia tecnológica a crise do coronavírus é uma trégua relativa, mas de modo algum um eliminador. A relação tensa entre Washington e Pequim se faz notar a todo instante. O governo norte-americano está em campanha xenófoba permanente contra a China, acusando-a da responsabilidade pelo Covid-19. Mike Pompeo, secretário de Estado, costuma chamá-la de “vírus de Wuhan”, enquanto Trump prefere o mais direto “vírus chinês”. Por seu lado, a China afirma que o coronavírus foi instalado pelo exército norte-americano, e expulsou do seu território 13 jornalistas do The New York Times, The Wall Street Journal, e do Washington Post. Talvez seja o pior momento nas relações bilaterais desde a reaproximação entre Nixon e Mao em 1972.

A altivez contra os Estados Unidos também respinga nos vassalos de Trump, como Bolsonaro e sua trupe no Brasil. Quando seu filho Eduardo mimetizou as críticas de Trump, acusando a China de "espalhar seu vírus", teve resposta contundente da embaixada chinesa. Yang Wanming, embaixador da China no Brasil, atribuiu a Bolsonaro um "vírus mental" em seu "insulto maléfico contra a China e o povo chinês". A despeito do trumpismo dos Bolsonaro e do chanceler Araújo, foram rapidamente disciplinados pelos militares, encabeçados por Mourão, que sabem do caráter inegociável da dependência econômica brasileira diante da China. Nesse quesito, as "duas cabeças" do governo são evidentes no tratamento com o parceiro asiático.

Os atritos entre a China, a Alemanha e os Estados Unidos estão na base da falta de coordenação estrangeira para fazer frente à combinada crise econômico-sanitária, coordenação que esteve presente de maneira relativa, durante os momentos mais dramáticos da Grande Recessão pós-queda do Lehman Brothers. Nada indica que num momento de ascensão dos nacionalismos esse cenário vá mudar.

O proletariado chinês e a verdadeira dor de cabeça de Xi

O inferno da burocracia do PCCh é seu proletariado imenso. Rebeliões de trabalhadores nas grandes cidades, contra o desemprego e as demissões, ou mesmo protestos contra as medidas bonapartistas do regime diante do coronavírus, podem agravar o quadro de queda econômica e transformá-lo na tormenta perfeita.

Comparativamente ao momento prévio ao Covid-19, o número de greves operárias registradas na China é inicial. Segue os passos iniciais da própria reativação econômica. Segundo o China Labour Bulletin, a razão dos mais recentes protestos operários concerne justamente as reduções salariais e demissões. Operários da construção que montaram em tempo recorde os hospitais de internação contra o Covid-19 em Zhoukou, província de Henan, protestaram contra o governo chinês, e foram espancados pela polícia local. Trabalhadores de uma empresa de alimentos em Xangai protestaram a 10 de março contra o atraso salarial de mais de três meses, no valor total de 400 mil yuanes. Em Pequim, várias categorias operárias protestaram em março contra a imposição de dispensa não remunerada por parte das economias de plataforma e aplicativos de delivery, parte dos setores mais precários dos trabalhadores. Pequenos proprietários de lojas e restaurantes, vendo arruinados seus negócios, exigem do Estado um corte no valor dos arrendamentos, um setor que emprega 230 milhões de funcionários em toda a China.

As condições de trabalho em meio ao coronavírus também mobilizaram os trabalhadores da Saúde, em um hospital da cidade de Zibo, em Shandong, contra a utilização de instrumentos e utensílios hospitalares vencidos. As funcionárias da Saúde estão na linha de frente do combate ao coronavírus na China, e são as primeiras atingidas pelo descaso governamental. Sendo mais de 90% das enfermeiras, e 50% das médicas em atendimento, são as mulheres as heroínas de classe que tem as menores proteções sanitárias nos próprios hospitais, como denuncia a Shanghai Women’s Federation, que aponta as milhares de infecções de trabalhadoras hospitalares no tratamento da doença.

Outra fonte de distúrbios é o campo chinês. As dificuldades do plantio e a interrupção nos fluxos de transporte, que resultam em atraso no envio da colheita para as cidades e na chegada de insumos agrícolas, preocupa os trabalhadores rurais, que já vivem em situação de penúria.

Os conflitos trabalhistas podem se conectar com a luta pelas liberdades democráticas da população urbana. Centenas de ativistas e usuários comuns das redes sociais foram detidos pela polícia estatal por expressarem rechaço à condução burocrática de Xi diante do Covid-19. Na província de Shandong, Ren Ziyuan foi preso por criticar a atuação do PCCh frente à crise sanitária, mesmo destino de Tan Zuoren, da província de Sichuan. O professor Guo Quan, em Nanjing, foi preso por "incitar subversão contra o estado" depois de publicar artigos que relatavam estudos científicos do coronavírus! As organizações de direitos humanos da China calculam em milhares o número de perseguidos e detidos por criticarem o governo ou divulgarem estudos científicos. Esse tipo de perseguição foi o que resultou na morte do médico Li Wenliang, que se tornou um símbolo da luta pelas liberdades democráticas na China. A utilização dos serviços de reconhecimento facial e dispositivos de tecnologia para identificação remota também são criticados pela população. Há inúmeras denúncias, reveladas pelo The New York Times, de que os QR Codes que compilariam "informação de saúde" dos usuários de celulares compartilham essas informações com a polícia.

Estes protestos iniciais rebentam mesmo com o discurso de êxito de Xi, e se somam os protestos anti-autoritários que desafiam seu domínio, tanto em Hong Kong quanto na região de Xinjiang (em que a população muçulmana é historicamente perseguida por Pequim). Ao contrário do que esperava o governo, as ruas chinesas seguem silenciosas e descontentes. Um exemplo sintomático da desconfiança da população, vítima do autoritarismo estatal, foi que diante da pressão do prefeito de Wuhan para que a população “aplaudisse a atuação de Xi Jinping no controle do vírus”, teve como resposta um repúdio massivo nas redes sociais, obrigando o governo central a recuar desse troféu simbólico. Exemplos como esse, anteriores aos resultados estarrecedores na economia, não projetam um caminho suave para a burocracia chinesa, e em primeiro lugar para Xi Jinping. Poderia o descontentamento popular e os problemas econômicos dar origem a disputas internas na burocracia? Questionamentos a Xi provavelmente levariam a uma nova onda de perseguições, nos moldes dos “grandes expurgos” realizados por Xi Jinping durante sua “campanha anticorrupção” em 2017, em que 170 ministros foram expulsos do governo e presos. O preço alto a pagar não elimina a possibilidade de fissuras internas na burocracia, que sabe que precisa manter altos índices de crescimento para fazer frente ao desafio de manter os objetivos econômicos mais importantes do governo.

Não há dúvida que a superação temporária da crise do Covid-19 na China representa um alívio frente à desaceleração econômica. Mas é preciso saber se a máquina de propaganda do Partido Comunista Chinês consegue seus objetivos em meio à maior crise econômica da China em 80 anos.

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André Acier

São Paulo | @AcierAndy
Cientista político, doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é editor do Esquerda Diário e do Ideias de Esquerda
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