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Opinião | 70 dias antes da eleição: como está a economia brasileira?

A economia brasileira cresceu 1% no primeiro trimestre de 2022, em meio a discussões internacionais sobre uma possível recessão global. No entanto, ainda sobressai na situação brasileira a alta da inflação e a queda do desemprego, ao custo de uma queda também nos salários.

segunda-feira 25 de julho | Edição do dia

No início de junho, o IBGE divulgou o resultado do PIB para o primeiro trimestre de 2022, que apresentou um crescimento de 1% em relação ao último trimestre de 2021, um resultado que demonstrou uma surpresa positiva no crescimento econômico. Porém, o que mais aparece ainda na situação da economia brasileira é a forte inflação, que, também em junho, apontava alta de 11,89% dos preços em 12 meses, e a diminuição do desemprego, ao custo da queda dos salários.

Nesse sentido, enquanto rufam os tambores da recessão global, faz-se importante uma análise mais minuciosa da situação econômica brasileira, de maneira a entender onde se encontra o país, em meio a uma recuperação, após o choque da pandemia, que carrega profundas contradições.

Após o superciclo das commodities que ocorreu durante a primeira década do século, o crescimento do PIB brasileiro teve forte desaceleração durante o governo Dilma, como parte do choque gerado pela crise internacional de 2008, até chegar ao cenário de recessão, em 2015 e 2016. A partir de 2017, o país volta a crescer, de maneira bastante tímida, crescendo entre 1,2% e 1,8% ao ano, até a chegada da pandemia, em 2020, quando o PIB brasileiro teve uma queda de 3,9%. Em 2021, com um crescimento de 4,6%, o PIB brasileiro voltou aos níveis pré-pandemia, de 2019, mas ainda se encontra consideravelmente abaixo de seu pico histórico, em 2014.

Já no primeiro trimestre deste ano, o crescimento se deu com base, especialmente, na expansão das atividades de serviço e, em menor grau, da indústria de transformação, e também com uma queda da produção agropecuária e extrativa. Pela ótica da oferta, se destaca o crescimento das exportações (5%), a estagnação do consumo das famílias (0,7%), ligado a queda do poder de compra dos salários, e um retrocesso na formação bruta de capital fixo (FBCF), que recuou 3,5%, como demonstrações das fragilidades deste crescimento. Este resultado conjuntural mostra uma economia estagnada, e não muda a situação da reprimarização da economia nacional e do setor externo, cada vez mais, sendo o motor do crescimento econômico.

Em 2021, tanto a agropecuária quanto a indústria extrativa atingiram seus níveis máximos no século, como proporção do PIB, representando 8,1% (era 5,5% em 2000) e 5,5% (era 1,38% em 2000), respectivamente (ou 13,6%, quando somados, contra um valor de 6,9% em 2000). Enquanto isso, no mesmo ano, a indústria de transformação representou 11,3% (era de 15,3% em 2000) do PIB, e os serviços, 69,8% (era de 67,7% em 2000). Ou seja, a indústria de transformação e a construção seguem perdendo espaço para setores com menor valor agregado e, em menor escala, para o setor de serviços, onde o setor de comércio apresentou o principal crescimento.

Pela ótica da demanda, o que se destaca neste século é o crescimento do peso das exportações, que eram 10,2% em 2000, e chegaram a 20,1% em 2021, sendo o segundo principal componente da demanda neste ano, com um crescimento acelerado a partir de 2017, exatamente quando o Brasil volta a apresentar crescimento positivo do PIB. O consumo das famílias, no mesmo período, oscilou entre os 60% e 65%, sendo que desde 2017 este indicador caiu de 64,5% para 61% no ano passado. O consumo do governo se manteve em torno de 20% durante todo o período, enquanto a FBCF apresenta um crescimento desde 2017, quando representou 14,6% do PIB, até chegar a 19,2% em 2021, de maneira coerente com a recuperação econômica.

Dado este novo papel, mais preponderante, do setor externo, é preciso ver como está a composição desse setor, onde também a indústria de transformação vem perdendo espaço para a agropecuária e a indústria extrativa.

Fonte: Exportação por Seção ISIC 2000-2021 - Comex Stat. Elaboração própria

Esta tendência se vê ainda nos principais produtos exportados. Em 2021, foram o minério de ferro, soja, óleos de petróleo, açúcar, bagaço e outros produtos como carne bovina congelada, café, pastas químicas de madeira, produtos semi acabados de ferro e frango congelado. Se em 2010 a soja, os óleos de petróleo e o minério de ferro já ocupavam as primeiras posições, entre os dez primeiros ainda existiam setores como o de automóveis, que ainda aparece entre os 10 primeiros de 2017. Em 2000, o produto mais exportado pelo Brasil foram aviões e veículos aéreos, e entre os dez primeiros ainda aparecem os automóveis, acompanhados também por produtos como soja e minério de ferro.

A situação em 2022

Após o crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre, os indicadores tem mostrado uma economia ainda patinando. O IBC-Br, elaborado pelo Banco Central e considerado uma prévia do PIB, recuou 0,64% em abril em relação a março, e 0,11% em maio em relação a abril. Já o Monitor do PIB, da FGV e com uma metodologia mais próxima do cálculo do IBGE, mostrou um frágil aumento de 0,3% do PIB em abril em relação a maio. Para o mês de maio, o Monitor do PIB mostrou queda de 0,8% em relação a abril, puxada por quedas no consumo das famílias (-2,1%) e nas exportações (-7,6%).

A Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF), elaborada pelo IBGE, mostra que no acumulado dos cinco primeiros meses do ano, a produção industrial em 2022 foi 2,6% menor do que no mesmo período de 2021, o que ocorreu, principalmente, por uma forte queda na produção industrial em janeiro, e meses de parca recuperação posteriormente. A indústria brasileira está, ainda, 1,1% abaixo do patamar de fevereiro de 2020, e 17,6% do seu recorde histórico, em maio de 2011.

Os principais produtos que puxaram essa queda no acumulado do ano foram automóveis (-11,7%) e de eletrodomésticos, como parte de uma queda de 14,1% na produção dos bens de consumo duráveis. Já os setores que apresentaram as maiores taxas de crescimento foram os de derivados de petróleo (10,6%) e o de bebidas (3,4%).

A nível de estados, também no acumulado do ano em comparação com mesmo período de 2021, os estados que apresentam as maiores altas são o Mato Grosso (23,3%), a Bahia (8,9%) e o Rio de Janeiro (5,2%). Este crescimento é puxado, no primeiro caso, pela indústria de alimentos, sendo um estado profundamente ligado ao agronegócio. Nos três estados, porém, a produção de derivados do petróleo também foram setores chaves para o resultado. Já os estados com as maiores quedas são o Pará (- 11,9%), Santa Catarina (-6,6%) e o Ceará (- 6,2%). No caso do Pará, o principal impacto foi a queda da produção da extração de minério de ferro, enquanto nos outros dois estados, a indústria têxtil e de vestuários, e de produtos e máquinas elétricas para uso doméstico puxaram a queda. Principal polo industrial do país, o estado de São Paulo apresentou uma queda de 3,5% na comparação com os cinco primeiros meses de 2021, número acima da média nacional. Os principais setores puxando para baixo este número foram os de produção de automóveis e de borracha e material plástico, enquanto o setor que mais cresceu foi, novamente, o de refinados de petróleo.

A queda na produção dos bens de consumo duráveis se liga a queda em seu consumo, em uma situação de queda dos salários e de avanço da inflação e de alta de juros, tornando mais caro o crédito para a compra de produtos como carros. Isso foi notado por Juliana Trece, coordenadora do Monitor do PIB, que afirmou que “ Na atual conjuntura, a inflação e juros em patamares elevados reduzem o poder de compra das famílias. Isso se reflete no consumo de produtos menos essenciais, como é o caso de semiduráveis e de duráveis, que perderam força e retraíram em maio.”

Em relação ao setor de serviços, no acumulado do ano até maio se vê um aumento de 9,4% do volume de serviços prestados, na comparação com igual período do ano anterior, valor puxado pela alta nos serviços prestados às famílias, que subiram 37,8% no período, como parte da reabertura dos serviços após os períodos mais fechados da pandemia. O setor de transportes, incluindo transporte aéreo, também acumula alta, como parte de um fortalecimento do turismo. Porém, em maio, o volume de serviços ainda estava 2,8% abaixo de seu pico histórico, em novembro de 2014.

Na comparação mês a mês, no entanto, vê-se que também o setor de serviços vem tendo resultados fracos, chegando a ter uma diminuição nos meses de janeiro (em relação a dezembro) e de abril (em relação a março). Na comparação dos últimos 12 meses, até maio, o crescimento é de 11,7%, mas em desaceleração pelo segundo mês consecutivo. Um ponto da comparação do acumulado do ano é que o primeiro semestre de 2021 foi marcado pela segunda onda de covid, com restrições sendo impostas em diversos estados do país.

A nível de estados, apenas Rondônia apresenta crescimento negativo no acumulado do ano, de - 1%. Distrito Federal e Rio de Janeiro apresentam resultados fracos, com crescimento de 0,9% e 2,4%, respectivamente. Os estados com maior crescimento neste dado são Alagoas (25,7%), Ceará (18,1%) e Roraima e Amapá (16,4%). São Paulo apresenta alta de 11%.

No comércio, no entanto, a situação é bem diferente. O comércio varejista ampliado mostra crescimento de apenas 1% no acumulado de 2022 até maio em comparação com o mesmo período do ano anterior, e de apenas 0,3% nos 12 meses até maio. No acumulado do ano, os setores que apresentam maior crescimento são os de livros, jornais, revistas e papelaria (21,3%), tecidos, vestuários e calçados (21,3%) e combustíveis e lubrificantes (4,5%). No entanto, o setor de alimentos, bebidas e fumo apresenta estagnação (crescimento de 0,2%) e uma queda no setor de hipermercados e supermercados (-0,1%). Nos 12 meses até maio, as vendas do setor de hipermercado, supermercado, alimentos, bebidas e fumo apresentaram queda de 1,5%. Não por acaso, essa queda no mais básico dos setores acontece junto com um brutal aumento da fome no país.

O setor de móveis e eletrodomésticos mostrou queda de 8,2% nas vendas, no acumulado do ano até maio, como parte da queda na produção e no consumo de bens duráveis, ligado à queda da renda e ao aumento dos juros. O setor de materiais de construção também caiu 6,4% no mesmo período.

A nível de estados, aqueles que apresentaram maior crescimento do volume de vendas no varejo ampliado foram Roraima (9,3%), Ceará (8,1%) e Mato Grosso (6,8%). Já os que tiveram as maiores quedas foram Pernambuco (-4,2%), Amapá (-3%) e Paraná (-2,7%). São Paulo apresentou queda de 0,9%.

Na atual situação da fome no Brasil, faz-se importante dar atenção aos dados de vendas do setor de hipermercados, supermercados, alimentos, bebidas e fumo. O gráfico abaixo mostra a situação do setor nos estados divulgados pelo IBGE.

Fonte: Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) Maio/2022 - IBGE. Elaboração própria

É visível, então, como nos três estados nordestinos aconteceram acentuadas quedas na venda de alimentos, com destaque para Pernambuco, estado com maior queda a nível nacional. Fora do Nordeste, chamam a atenção o Rio de Janeiro (-6,6%) e também o Centro-Oeste, principal região produtora do agronegócio brasileiro, com as quedas das vendas em Goiás (-5,8%) e Distrito Federal (-10%). Apenas Espírito Santo e São Paulo apresentaram aumento das vendas no período.

O mercado de trabalho

Desde o ano passado, o mercado de trabalho vem se recuperando, com uma diminuição da taxa de desemprego. A taxa de desemprego, em maio, chegou a 9,8%, pela primeira vez desde 2016 abaixo de dois dígitos, o que representa 10,6 milhões de desempregados. Os desalentados eram 4,3 milhões, e os subocupados eram 6,6 milhões no mesmo mês.

As categorias de emprego que mais apresentaram crescimento, no trimestre móvel de mar-mai, em relação ao trimestre móvel anterior foram os empregados do setor privado sem carteira assinada (4,3%), os trabalhadores por conta própria (6,4%) e os empregadores (4,1%). Esse aumento na informalidade se apresenta também no rendimento médio de todos os trabalhos, que foi de R$ 2613 em maio, estagnado em relação ao trimestre anterior, mas 7,2% menor do que o mesmo trimestre de 2021. O rendimento médio real de todos os salários atingiu seu ponto mais baixo na série histórica em novembro de 2021. Ainda assim, em valores reais, o rendimento atual é menor do que o de 2012.

Já o rendimento médio do trabalho principal foi de R$ 2540. Essa média, no entanto, não representa tanto a situação dos diferentes setores. Os empregados do setor privado sem carteira assinada recebem, em média, R$ 1776. Os trabalhadores por conta própria, R$ 2077, sendo que os sem CNPJ recebem em média R$ 1571. O menor salário é o dos trabalhadores domésticos, que recebem em média R$ 1024, valor que cai para R$ 881 no caso dos que não tem carteira assinada. O Caged, que representa apenas os empregos formais, mostrou em maio que o salário médio de admissão foi de R$ 1898,02. queda de 0,94% em relação ao mês anterior.

As variações são também regionais. Segundo dados da Pnad - Contínua trimestral, do primeiro trimestre de 2022, a última divulgada, na região Norte a renda média de todos os trabalhos era 77,9% da média nacional, enquanto no Nordeste era de 67,5%. As outras três regiões apresentavam rendimentos acima da média nacional.

Nos dados em relação ao rendimento de todas as fontes, o que inclui, para além do trabalho, aposentadorias, pensões, aluguéis, programas sociais etc. o rendimento médio mensal, no ano de 2021 para as pessoas que tinham algum rendimento, foi de R$ 2265, cerca de 4,4% menor do que em 2012. A região com menor rendimento foi o Nordeste, que apresentou rendimento de apenas R$ 1497. Na comparação de 2021 com 2020, a renda caiu 10,9% no Nordeste e 7% no Norte. A diminuição da renda total está ligada não só com a diminuição da renda do trabalho, mas também pelo fim do Auxílio-Emergencial.

Já o rendimento médio domiciliar per capita no Brasil foi de R$ 1313. A desigualdade, no entanto, é gritante no Brasil. Entre os 50% mais pobres do país, este mesmo dado foi de R$ 415, chegando a R$ 251 no caso do Nordeste.

O INPC, índice que mede a inflação para famílias assalariadas com renda de 1 a 5 salários mínimos, chegou a 11,92% no acumulado de 12 meses, em junho. Nas capitais pesquisadas, a maior inflação foi registrada em Salvador (13,98% em 12 meses) e em Curitiba (13,92% em 12 meses). No acumulado de 12 meses, os alimentos e bebidas aumentaram 13,93%, o vestuário aumentou 16,6% e os transportes 20,1%, com destaque para o aumento de 21% nos transportes públicos e de 26,5% nos combustíveis.

O valor da cesta básica, medido pelo DIEESE, mostra aumentos ainda maiores no acumulado nos 12 meses até junho, chegando a aumentos de 26,5%, no Recife, 24,3% em Salvador, e 24% em São Paulo e Campo Grande. A cesta mais cara foi a de São Paulo (R$ 777) e a mais barata a de Aracaju (R$ 549,91). De maneira geral, as capitais nordestinas apresentaram as cestas básicas mais baratas. Também segundo as contas do DIEESE, o salário mínimo deveria ser de R$ 6257,67, ou 5,39 vezes o seu valor atual, para cobrir as determinações constitucionais sobre o salário mínimo.

Perspectivas

A economia será um dos fatores principais para a definição da eleição de outubro. É vendo isso que Bolsonaro toma medidas demagógicas e eleitoreiras, como o aumento do Auxílio Brasil, a redução do ICMS e a recente redução no preço da gasolina.

Ainda assim, as perspectivas não são alvissareiras. A estabilização no preço internacional das commodities agrícolas e do petróleo devem levar a uma desaceleração da inflação nos próximos meses, ainda que a desvalorização do Real atue no sentido contrário. No entanto, a previsão do Boletim Focus, de que o IPCA terminaria o ano em 7,54%, parece ainda um pouco otimista, mesmo que isso significaria estourar o teto da meta por dois anos seguidos.

O Boletim Focus também prevê crescimento de 1,75% do PIB para 2022. Apesar dos resultados do primeiro trimestre, tudo indica uma desaceleração no segundo trimestre. Com uma economia cada vez mais dependente do setor externo, as perspectivas globais não ajudam a um crescimento da economia brasileira, mesmo que a recente desvalorização do real possa tornar as exportações brasileiras mais competitivas.

A discussão nos grandes meios internacionais não é se, mas quando iremos passar por uma recessão global, ou ao menos nas maiores economias. Existe uma possibilidade de que já no segundo trimestre os Estados Unidos entrem em recessão técnica, depois de seu PIB cair 1,6% no primeiro trimestre. O Banco Mundial, em julho, previu um crescimento global de 2,9% para 2022, com os Estados Unidos e a Zona do Euro crescendo 2,5% neste ano, antes de desacelerar. A mesma instituição prevê ainda crescimento de 4,3% para a China, em uma forte desaceleração, de 2,5% para a América Latina, e de 1,5% para o Brasil. As previsões para a economia global, no entanto, vêm diminuindo desde janeiro.

Uma recessão global poderia ter grande impacto na economia brasileira que, longe de estar decolando como dizem Guedes e Bolsonaro, parece cada vez mais se aproximar do ponto morto. Ainda não é possível falar de uma estabilização do preço do petróleo, apesar de sua queda recente, por causa da situação da Ucrânia e por que ainda está em aberto até que ponto a Europa conseguirá criar os estoques de necessário de gás para o inverno, no fim do ano, devido aos atritos com a Rússia. Além disso, ainda se mantém a tendência que o alongamento da guerra possa afetar os mercados de commodities agrícolas, em especial grãos, que são produzidos por ambos os países.

Os aumentos globais nas taxas de juros tornam otimista a previsão do Boletim Focus, de que a Selic iria terminar o ano em 13,75%. Na reunião de julho, espera-se que o Fed aumente em mais 0,75% a taxa básica de juros, no que não deve ser o último aumento do ciclo. Não subir a Selic iria ampliar influências das taxas de juros externas sobre o Real, gerando uma desvalorização que pressionaria a inflação, e em especial o preço do petróleo. O aumento da taxa de câmbio que chegou a ser de R$ 4,60 por dólar, em abril, já subiu para R$ 5,40 por dólar, com a mudança da posição do Brasil, que estava muito à frente da curva de juros. Aumentar a Selic, que parece cada vez mais o caminho provável, terá um impacto grande, por sua vez, no espaço fiscal que o governo federal poderá ter, em 2022, mas em especial para um possível governo Lula em 2023, cortando espaço para concessões.

Abre-se outra possibilidade também, a nível global. Diversos analistas burgueses, como a The Economist, discutem a possibilidade de revoltas em diversos países. Altos preços de alimentos e de combustíveis são, historicamente, indutores de revoltas, desde a Revolução Russa que pedia pão, paz e terra, até a Primavera Àrabe. Os Coletes Amarelos, na França, e os protestos contra o FMI, em 2019 no Equador, começaram a partir de aumentos nos preços dos combustíveis.

Na Europa, já ocorrem greves contra a carestia de vida, como dos ferroviários ingleses ou de metalúrgicos espanhóis. Nos Estados Unidos, o avanço da sindicalização e da geração U, que tem bases nos profundos processos de luta contra a violência policial que ocorreram ao longo da década de 2010, também é uma tentativa de saída dos trabalhadores para a questão da inflação.

A América do Sul passa por um novo ciclo de presidentes de esquerda, que tem a tarefa de desviar os processos de luta que se abriram desde 2019, mas cuja análise mais profunda excede o escopo deste texto. Ainda assim, já aconteceram fortes lutas no Equador que conseguiram diminuir o preço da gasolina e do diesel, e nos últimos anos o Peru passou por lutas de camponeses em defesa de seus direitos e, em novembro de 2020, fortes protestos levaram o país a ter três presidentes em menos de 10 dias. No Chile, o governo de Boric passa por baixas taxas de aprovação, após a aprovação de ataques contra os trabalhadores e os povos indígenas, e pesquisas mostram que a nova constituição, ela mesmo um desvio do processo de 2019, deve ser rejeitada em referendo.

O principal caso atual, no entanto, é o do Sri Lanka, onde manifestantes ocuparam o palácio presidencial e, enquanto nadavam em sua piscina, forçaram o presidente a renunciar e a se refugiar em Cingapura. Após o default da dívida externa em maio, e em meio a negociações com o FMI, a situação econômica se deteriorou muito rapidamente, com escassez de alimentos e em especial de combustíveis, que levaram aos protestos que hoje correm pelo país. A possibilidade de que outros países entrem em default é real, bem como a de mudanças bruscas na situação de cada país, que poderia desencadear revoltas e processos de luta.

No Brasil, se reúnem condições que, em geral, tendem a ser catalisadores de revoltas: alto preço de alimentos e combustíveis, bem como revoltas em países vizinhos. Por outro lado, Lula tenta voltar à presidência com a missão de evitar processos de luta de classes, e de garantir estabilidade para o regime do golpe. O espaço de manobra, em relação ao seu primeiro governo, será com certeza bem menor, e a extrema-direita continuará presente, como uma força social importante, como pode ser visto no caso dos Estados Unidos.

Os duros prospectos econômicos, bem como as possibilidades de revoltas, as quais o Brasil não está imune, ampliam a necessidade de uma esquerda com independência de classe, que leve a frente um programa para fazer com que a crise não seja despejada sobre as costas dos trabalhadores. Nesse sentido, reajustes salariais mensais de acordo com a inflação e a redução da jornada de trabalho e a divisão das horas de trabalho entre empregados e desempregados são medidas fundamentais para proteger os trabalhadores hoje, combatendo a fome e a precarização do trabalho, mas a chapa Lula - Alckmin, por outro lado, tem buscado alianças com setores ruralistas, com setores burgueses do MDB, para além da presença do próprio ladrão de merenda na chapa. Não surpreendente, não levantam um programa com as medidas necessárias, e Lula promete a empresários que não fará nenhuma “mudança brusca” sem ouvir a sociedade, os empresários e o Congresso.

É na luta de classes que se pode enfrentar a extrema-direita e fazer com que sejam os capitalistas que paguem pela crise, para que os trabalhadores não sejam sacrificados pela inflação e pela recessão que se aproxima.




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