Opinião

COLUNA

270 mil mortos: À quem interessa manter o futebol rolando nesse momento?

João Salles

Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP

sexta-feira 12 de março| Edição do dia

O ritmo dos tempos na pandemia em nosso país parece estar se acelerando, diversos temas tem ganhado relevância e espaço na mídia. O mais alarmante é definitivamente as taxas recorde de mortes diárias e a iminência do colapso do sistema de saúde nacional, combinado é claro à política assassina de Bolsonaro, e do conjunto do regime político que assistem sentados ao caos social. Em meio esse cenário odioso, a quem interessa manter a bola rolando nos estádios de futebol?

Santista que sou, evidentemente costumo vibrar com as vitórias do meu time do coração, mas ultimamente – e coloquemos aí uns bons meses – toda partida parece ter o mesmo sabor de derrota independentemente do resultado. Tem sido cada vez mais difícil esquecer o panorama geral pelo qual estamos passando: o país soma 270 mil mortes evitáveis, pessoas passam fome e os relatos são indignantes do descaso dos governos para com a população. Recentemente o desabafo do treinador Lisca trouxe à tona um debate de extrema importância. Já passou da hora de parar o futebol.

Com mais de 2.000 mortes diárias, estádios vazios sem torcedores, jogadores contaminados e exaustos da maratona de jogos sem direito a férias não é possível que compremos o discurso de que o futebol “ajuda a combater a pandemia” como declarou o secretário-geral da CBF Walter Feldman. O buraco é muito mais embaixo.

Alguns campeonatos estaduais estão suspensos, mas ainda sim a CBF se mantém intransigente e decide por manter o calendário das competições alegando que o futebol é “seguro”, mas a crise de contaminação da equipe do Corinthians sinaliza claramente o contrário. É preciso dizer em alto e bom som que a decisão de manter as competições favorece única e exclusivamente aqueles que lucram com a usurpação do esporte: Cartolas e dirigentes mafiosos, empresários, emissoras de televisão, políticos sanguessugas e os capitalistas do esporte. Nunca foi pelo “bem” da população.

Acredito que esse cenário de calamidade abre um espaço de reflexão bastante profundo sobre o papel do tradicional esporte na sociedade capitalista. Isso porque a irracionalidade beira níveis preocupantes. No país que não disponibiliza testagem massiva sequer para os profissionais da linha de frente no combate a pandemia são cedidos testes aos montes à mando da própria CBF para CADA RODADA, isso significa que para cada jogo que acontece no país – isso das divisões de prestígio é claro, já que os clubes menores não possuem o mesmo suporte – todo o elenco e comissão técnica são testados enquanto os profissionais da saúde adoecem e morrem sem saber ao certo pelo que.

E não para por aí, agora com as competições da Copa do Brasil e da Libertadores as viagens passam do nível local para outros Estados e até mesmo outros países! Jogadores estrangeiros adentram o epicentro da pandemia correndo risco de contaminação com novas variações do vírus mais letais e agressivas como a cepa de Manaus, podendo dissemina-las em outros países. O mesmo vale para jogadores brasileiros no exterior, é um cenário surreal e difícil de acreditar.

Em São Paulo o nosso eterno governador “BolsoDoria” faz demagogia ao decretar a paralisação do campeonato paulista à partir do dia 15, mas tem sido ávido sustentador da continuidade do futebol e declarou já que as partidas desse final de semana ocorrerão normalmente. Vale lembrar que em meio à pior fase da pandemia no Estado, apesar da dita “fase emergencial”, escolas particulares, call centers e setores da indústria não essenciais seguirão funcionando enquanto decreta um “lockdown” falso usado para justificar a repressão aos trabalhadores que seguem nos transportes públicos lotados e sem leitos de UTI suficientes, sem testagem massiva e para a ampla maioria de nós “reles mortais” sem a milagrosa vacina prometida.

Chegamos aqui em um núcleo duro da reflexão. Ora, se há “consenso” de que é necessário manter funcionando somente os serviços essenciais porque razão o futebol segue acontecendo? O futebol não é essencial!

Para se ter idéia, o dinheiro gasto somente com as premiações do Brasileirão de 2020 foi de R$ 334,8 MILHÕES! Juntando com o valor das premiações da Copa do Brasil e também da Libertadores as cifras ultrapassam a marca de MEIO BILHÃO de reais. A receita declarada de 2019 da CBF foi de quase R$ 1 bilhão! Quantas vacinas é possível comprar com todo esse dinheiro? Quantos testes? Quantos leitos de UTI é possível montar? Acho que esse é o ponto que devemos discutir.

Uma medida mínima e elementar é defender a taxação desses lucros milionários que hoje vão para o bolso dos capitalistas do esporte com salários altíssimos e vida de luxo enquanto os governos fazem vista grossa e alegam não haver dinheiro para investir no combate à pandemia.

É mais do que hora de nos levantarmos contra essa política assassina que segue em nosso país à todo vapor. Contra o negacionista Bolsonaro, Mourão e os militares do governo, mas sem cair na armadilha da demagogia das instituições do regime político golpista como o STF, o Congresso Nacional e os próprios governadores que estão rifando nossas vidas para manter os lucros dos capitalistas. É urgente colocarmos de pé um plano de emergência dos trabalhadores para combater a pandemia.

Veja também: Entre recordes de mortes por Covid, de desemprego e de ataques: só nossa classe pode impor uma saída de emergência

É preciso atacar o lucro dos capitalistas, quebrar as patentes para produzir vacina para toda população, exigir testagem massiva, quarentena racional, interrupção das atividades não essenciais – e aqui claramente está o futebol – e defender a vida e o emprego dos trabalhadores contra o projeto do golpe institucional, a escalada da precarização e da miséria.

E olharmos atentamente para nosso vizinho Paraguai que vem sendo sacudido pelos trabalhadores e setores oprimidos cansados de pagarem a crise com suas vidas. A luta é o caminho, não podemos esperar 2022.

E mais uma vez: O futebol não é essencial!




Tópicos relacionados

Futebol e Política   /    Futebol e classe trabalhadora   /    Colunistas Esquerda Diário   /    Pandemia   /    Coronavírus   /    Esporte   /    Futebol   /    Opinião

Comentários

Comentar