Juventude

Congresso de Estudantes da UFRN

2ª Carta da Faísca rumo ao CONEUF: É preciso se organizar contra a barbárie capitalista

segunda-feira 23 de setembro| Edição do dia

Na sexta-feira Agatha, uma menina de 8 anos, se tornou a 16ª criança assassinada pela polícia militar nos últimos dois meses no Rio de Janeiro. As ruas do morro do Alemão se encheram de indignação e revolta frente a mais uma vida negra arrancada pelo Estado. No mesmo dia 270 mil estudantes, majoritariamente entre 12 e 17 anos, percorriam as ruas de Nova Iorque pela Greve Global Pelo Clima. Crianças imigrantes vivem em campos de detenção na fronteira dos EUA, enquanto milhares morrem no mediterrâneo. Álvaro Dias quer destruir a orla de Natal a serviço do lucro das empreiteiras e redes hoteleiras.

O capitalismo só nos reserva barbárie, Bolsonaro, Witzel, Trump, Macron tem as mãos sujas de sangue e seiva intoxicada. É preciso se organizar contra cada um dos ataques colocados e pelo direito a uma vida que valha a pena ser vivida.

Em nossa primeira carta rumo ao CONEUF, explicamos a necessidade de organizar seriamente o legítimo ódio da juventude contra a extrema-direita e os ataques de Bolsonaro, em primeiro lugar o Future-se e os cortes de verba para pesquisa, ensino e permanência, como tarefa de primeira ordem. Estes ataques reacionários, misóginos, racistas e anti-operários se amontoam, e a falta de uma resposta contundente nos faz sentir completamente desnorteados, por isso é evidente para todes a necessidade de dar um basta nestes ataques. A pergunta é: Como?

Nós defendemos que apenas a força da juventude junto a classe trabalhadora pode cumprir este papel e apontamos a responsabilidade traidora de direções como a CUT (ligada ao PT) e a CTB (ligada ao PCdoB), além das patronais e direitistas Força Sindical e da UGT, no que diz respeito às centrais sindicais; assim como da ala majoritária da UNE (ligada ao PT e PCdoB) no que diz respeito às entidades estudantis, em impedir com que esta unidade urgente se concretize, descrevendo-as como burocráticas. Após publicação da última carta, que pode ser lida aqui, muitos estudantes nos procuraram para questionar que enxergam estas movimentações da burocracia mas: Como isso acontece e por que falar da burocracia e da necessidade de superá-la?

Podemos exemplificar isso com nossa própria experiência recente na UFRN. Vale a pena retomar para esta discussão o dia 15 de maio de 2019, não muito distante, o chamado #TsunamidaEducação foi atestado da nossa disposição de luta, não apenas contra os cortes na educação por Weintraub, mas também contra a reforma da previdência de Bolsonaro e Guedes. O sentimento de enfrentar todas as medidas da extrema direita brasileira impregnava positivamente os espíritos da juventude, e nós da Faísca buscamos desenvolver esse ódio criador com todas as nossas forças. Nas universidades e nas ruas batalhamos pela unidade com a classe trabalhadora, único sujeito social central que pode ser um grande articulador da força das mulheres, negros, LGBTs e indígenas, em uma perigosa aliança contra a extrema direita para golpear o coração da economia e colocar o governo de joelhos, caso tome nas mãos um programa anticapitalista que supere as próprias burocracias sindicais.

No entanto, e isso pode ser conferido nos materiais tanto da UNE, quanto do DCE da UFRN, a direção majoritária se recusou a unificar a luta da juventude contra os cortes da educação e a luta contra a Reforma da Previdência, maior ataque colocado no imediato para a classe trabalhadora. Apesar de termos aprovado isto em Assembleia Geral dos Estudantes (no dia 3 de maio), a única digna deste nome desde então, todos os materiais foram impressos exclusivamente com a pauta do corte das universidades. Assim dividiu estudantes e trabalhadores, enfraquecendo uns e outros, e dando vantagem a nossos próprios inimigos de extrema direita. O 15 de maio foi o que foi em função das centenas de assembleias de base organizadas em todo o país e em cada setor ou curso da UFRN. O DCE sequer colaborou com isso. Para o 30 de maio, a burocracia estudantil encastelada no DCE já dava seu passo para trás, se recusando a permitir com que a empolgação de finalmente ver 1,5 milhões de pessoas nas ruas a nível nacional pudesse contagiar a classe trabalhadora, colocando o 30 como contra os cortes e o dia 14 de junho como contra a reforma da previdência. Por que o DCE da UFRN atuou assim? A razão é política. Por mais que busque esconder, o DCE, composto pelas organizações do PT, PCdoB e Consulta Popular, tiveram seus governadores no Nordeste apoiando a Reforma da Previdência por meio de cartas e implorando até o momento da sua votação para que Maia incluísse seus estados no ataque. O plano proposto pelo PT é deixar sangrar Bolsonaro, deixando passar as mais terríveis medidas sem uma resistência séria, para que, em base à destruição dos nossos direitos e sob a pressão do “mal menor”, a população volte a votar no PT em 2022. O PCdoB apoiou Rodrigo Maia para a Presidência da Câmara dos Deputados, apoiou a Reforma da Previdência e, como se não bastasse, deu aval à entrega da Base de Alcântara no Maranhão, estado dirigido por seu governador Flávio Dino.

Naquele momento defendemos também a necessidade de um Comando de Delegados de Base interno à UFRN e também nacional, que pudesse, a partir das Assembleias de Base, definir os rumos da mobilização, para sair das negociatas entre burocratas. Isso foi altamente combatido pela direção das entidades, com o argumento de que enfraqueceria as mesmas. Possibilitar que aqueles que são a carne do movimento estudantil que se levantava em Maio possam estar de fato à frente do movimento é o que pode fortalecer as entidades. Atuar na contramão disso é minimamente… Burocrático. Reduz o papel que um DCE, ou mais, a UNE deveria cumprir a um mero papel “institucional”.

Portanto, chamamos de burocracia uma determinada camada de pessoas que, à luz das tarefas do movimento estudantil - para falar do nosso caso - atuam como um obstáculo para a auto-atividade do conjunto dos estudantes, ou seja, impedem o pleno desenvolvimento de toda a iniciativa política criadora das bases estudantis. Quando se encontram na direção das entidades estudantis, utilizam-nas para esvaziar os espaços do movimento estudantil, dificultando a realização de reuniões e assembleias, incentivando a passividade e a desmoralização dos estudantes, e insinuando que os estudantes podem atribuir aos membros dessa burocracia seu direito de fazer política. Essas burocracias asfixiam os organismos de auto-organização de massas, para que tudo permaneça sob seu controle. Assim, são veículos de transmissão da influência dos nossos próprios inimigos. No caso do movimento estudantil, transmitem frequentemente a influência das Reitorias e do alto escalão acadêmico ligado ao Estado (no caso do movimento operário, transmitem frequentemente a influência dos próprios empresários).

Assim, esta atuação política é em última instância funcional à burguesia e inofensiva à extrema-direita. E não podemos permitir sermos inofensivos à extrema direita enquanto esta assassina crianças negras e destrói a natureza. É preciso ter em mente Baiana System, quando cantam: "Não esqueça que tem poder para mudar o mundo, Você tem poder para mudar o mundo"

Tá, tudo bem, mas então o que fazemos?

É evidente que precisamos da mais ampla unidade possível entre estudantes e trabalhadores e que isso tem de se dar de forma anti-burocrática. Como tarefa imediata, temos nesta sexta-feira uma plenária unificada entre os três setores da universidade, convocada para "pressionar a Reitoria para que se pronuncie", que não podemos permitir que tenha isso como objetivo único, mas sim batalhar para que sirva como verdadeiro espaço de auto-organização das três categorias, e que discutam tudo. As aulas devem ser portanto liberadas e nenhuma atividade avaliativa pode ser aplicada, assim como os trabalhadores terceirizados, os mais ameaçados pelos cortes, precisam ter o direito de participar, votar e opinar neste espaço.

Nos dias 02 e 03 de Outubro a UNE está convocando supostas 48 horas de mobilizações nas universidades e institutos federais, junto ao ANDES, à Fasubra e o Sinasefe, em meio à construção destes dias, ocorrerá a eleição de delegados e a construção do CONEUF, adiada pela Comissão Organizadora já que os prazos estavam tão absurdos que pouquíssimos cursos conseguiriam realizá-los. Queremos convidar todes es estudantes a participar da reunião de formação de chapa com a Faísca, para debater as ideias presentes na 1ª Carta e nesta, para que participássemos destes espaços como uma experiência em comum. Precisamos arrancar um verdadeiro plano de luta que propicie nossa autoorganização junto a classe trabalhadora. Queremos batalhar por um movimento estudantil que queira lutar por todas as Agathas e Marielles, se enfrentar com cada ataque e mazela colocados, rumo a construir em Natal e em todo canto uma juventude revolucionária e anticapitalista, porque precisamos colocar o rumo da história nas nossas próprias mãos.

Isso se combina com a defesa de um programa para a universidade que possa se enfrentar tanto com a estrutura de poder, na qual poucos professores com salários exorbitantes determinam os rumos dela, baseando-as em trabalho tercerizado precário ou bolsistas que precisam se desdobrar entre as disciplinas e cumprir o papel que um trabalhador efetivo deveria cumprir. As universidades deveriam estar verdadeiramente à serviço da classe trabalhadora e da população, convidamos à leitura deste texto para aprofundar o debate: A luta das universidades: para além da "nostalgia petista".




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