Política

100 mil mortos nas costas de Bolsonaro: um número com raça e classe

Conforme os dados oficiais, o Brasil atinge 100 mil mortos e quase 3 milhões de pessoas contaminadas pela COVID-19. Esse enorme dado, distorcido pela subnotificação, é composto por trabalhadores negros e negras, e representa o resultado da política negacionista de Bolsonaro e da reabertura econômica, que colocam o lucro acima da vida.

Clara Pereira

Diretora do Centro Acadêmico Professor Paulo Freire

domingo 9 de agosto| Edição do dia

Os dados oficiais atualizados mostram que o Brasil passou a marca de 100 mil pessoas mortas pelo Coronavírus e quase 3 milhões contaminados pela doença. Esse número é resultado da política negacionista do presidente que, recentemente, em resposta ao número de mortos, disse que a vida deveria seguir mesmo assim. É resultado também da reabertura dos governadores, que a aplicaram por fora da oferta de qualquer política eficiente para combater a pandemia, e que se voltaram para atender aos interesses dos empresários, ao passo que se apoiavam, como foi o caso de João Doria, em um demagógico discurso científico, para obrigar milhares de trabalhadores a se sacrificarem pelo lucro dos empresários. Mesmo em estados governados pelo PT, como no nordeste do país, a política de reabertura e a falta de políticas eficientes também foi marca registrada.

Além desses atores mencionados, Bolsonaro e governadores, é preciso pontuar que não somente eles são responsáveis pelo enorme contingente de trabalhadores, principalmente negros e negras, mortos pela crise. Toda a política negacionista de Bolsonaro, se deu a partir do aval dos militares que, hoje, tutelam seu governo e, também, com o suporte do STF e todo o poder judiciário que, mesmo com todas as disputas internas no governo, atuam como um ator fundamental para sustentar o regime degradado do golpe institucional de 2016 que desde então só agravou ainda mais as condições de vida dos trabalhadores.

Como colocado, mesmo com todas as disputas internas dentro do regime entre aqueles que querem ocupar o lugar de poder moderador, quando o assunto são os ataques aos trabalhadores, esses setores em vários momentos se articularam entre si, inclusive durante a pandemia. Aludindo à colocação de Ricardo Salles, ministro do meio ambiente na reunião ministerial, que falava que a crise seria um bom pretexto para “passar a boiada”, fica evidente que de fato a crise está sendo utilizada dessa maneira, para que sejam conduzidos mais ataques às condições de trabalho e vida da população, conforme o aprofundamento da crise econômica em curso.

Sendo assim, ao mesmo tempo que os trabalhadores enfrentam os efeitos sociais da crise sanitária em curso, por encontrarem um sistema de saúde debilitado pelas políticas de austeridade fiscal, sem leitos e equipamentos, eles precisam arcar com os custos da crise econômica, com as medidas aprovadas pelos atores mencionados. Medidas essas que são aplicadas para a manutenção do lucro da burguesia e que expõem ainda mais os trabalhadores ao vírus, junto às precárias condições de vida e de trabalho em que se encontram.

O que se mostra com isso, é que a prioridade para Bolsonaro, a direita e os empresários é a manutenção do lucro, não medidas para o combate à crise. Portanto, ao invés de medidas eficientes, como a disponibilização massiva de testes para identificar e tratar os focos da doença, ou como a estatização de todos os leitos (da rede pública e privada) sob controle dos trabalhadores, que deveria estar articulada com a reconversão produtiva da indústria para atender às principais necessidades da população, o que se vê são medidas para atender os interesses dos empresários em meio a uma enorme crise gerada pelo próprio capitalismo e pela desigualdade intrínseca a ele.

Cada um desses atores - Bolsonaro, militares, STF, o poder judiciário e os governadores - junto aos empresários, são responsáveis pelas mais de 100 mil mortes e por transformarem o Brasil no epicentro da doença, hoje, no mundo. São responsáveis por gerir a catástrofe da crise em curso, contra os trabalhadores, à medida que tentam impor um “novo normal”, com mais de 1000 mortes sendo registradas diariamente, no país. Mostram a face mais cruel do capitalismo que na sua crise de superprodução, reserva a fome, o desemprego e a contaminação por COVID-19 para uma classe trabalhadora majoritariamente negra, como é a do Brasil.

No marco desses atores do regime serem responsáveis pela absurdo número de 100 mil mortos pela pandemia, e, também, partindo da ligação entre os efeitos da crise sanitária e econômica e o capitalismo, fica evidente a impossibilidade de confiança em setores que defendem interesses antagônicos aos da maioria da população, por representarem a burguesia. Nesse sentido, o combate efetivo à pandemia passa pela construção de uma luta independente dos setores burgueses, que parte da organização da classe trabalhadora, não somente contra o governo Bolsonaro, mas contra o regime de conjunto, diferente da política levantada pela esquerda que se baseia em um ceticismo sobre a classe trabalhadora e que aposta em atores institucionais para o impeachment de Bolsonara, que colocaria Mourão em seu lugar.

Frente a isso, levantamos um programa para crise sanitária, que disponibilize testes massivos, que estatize os leitos dos hospitais sob o controle dos trabalhadores e que contrate todos os profissionais da área da saúde, no momento, desempregados. O que deve estar articulado com um programa para a crise econômica, que proíba as demissões e aplique a escala móvel de trabalho - baseada na redução e divisão da jornada de trabalho - ao passo que seja disponibilizado um programa de auxílio financeiro de 2000 reais, condizente com a realidade e necessidade dos trabalhadores.

Nós do Esquerda Diário defendemos também a imposição, de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, uma vez que a luta não se restringe somente ao governo Bolsonaro, mas ao regime de conjunto. Compreendemos que saídas institucionais junto à burguesia enfraquece os trabalhadores, e que na verdade é a população quem deve decidir os rumos do país, a partir de um amplo debate sobre os principais temas, como saúde, educação e economia, utilizando o mecanismo mais democrático dentro da tão limitada democracia burguesa, para que não sejam mais nutridas ilusões sobre o regime atual.

Leia também: Dia 07/08: Centrais Sindicais mantêm subordinação à agenda dos capitalistas e do regime golpista




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