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São eles, ou nós
Alckmin, Estadão e Paulinho da Força juntos defendem a reforma trabalhista. Lula recua para manter alianças com a direita
Felipe Guarnieri
Operador de trem da L1 Azul do Metrô de SP

Depois de um último mês marcado pelo avanço das negociações entre Lula e Alckmin para a chapa presidencial de 2022, o petista sinalizou nas redes sociais que revisará a reforma trabalhista baseada no modelo espanhol. O que levou a reação imediata do mercado e das agências financeiras, um editorial mentiroso do Jornal Estado de SP e um encontro do ex-tucano com Paulinho da Força. Em menos de 24 horas, Lula seguiu os conselhos de dirigentes do PSB e Solidariedade e abaixou o tom dizendo que não vai revogar a reforma. A conciliação de classes do PT mais uma vez demonstra que os trabalhadores só conseguirão derrotar os ataques através das suas próprias forças, com lutas e mobilização, superando o freio imposto pela burocracia sindical.

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Imagem: Albari Rosa

Há praticamente dois meses os noticiários vêm refletindo a aliança entre Lula e Alckmin para as eleições presidenciais de 2022. Mais um capítulo da política de conciliação de classes petista, que demonstra como a cúpula do partido está mais preocupada em provar ao imperialismo e a burguesia que é capaz de governar sob os seus interesses, após o golpe institucional, do que derrotar Bolsonaro, a extrema direita e seus ataques.

A saída de Alckmin, após as tumultuadas prévias tucanas vencidas por Dória, a estagnação nas pesquisas dos candidatos da chamada "terceira via” mesmo após a confirmação da pré candidatura de Sérgio Moro, tornaram mais concreta a possível aliança.

Hábil em jogar para todos os lados, Lula viu na Espanha uma maneira de descomprimir essa insatisfação. Elogiou a nova reforma trabalhista do país, dizendo que os brasileiros deveriam acompanhar o que está acontecendo no Governo de Pedro Sánchez que “está trabalhando para recuperar direitos dos trabalhadores”. Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, também se manifestou em seu twitter sinalizando que a Espanha havia revogado a reforma trabalhista, que “serviu de modelo p/ a brasileira e ambas ñ criaram empregos, só precarizaram os direitos”. Desde o portal Esquerda Diário, já havíamos mostrado ao contrário do que o PSOE e o Podemos dizem na Espanha, e o PT no Brasil, que a nova reforma trabalhista espanhola não a altera a principal estrutura da anterior, baseada no aumento do trabalho precário e a demissão em massa.

As reações do “mercado”, Alckmin e do Estadão. A burguesia brasileira não vai retroceder nos objetivos do golpe de 2016

Imediatamente após a declaração de Lula, e do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega sinalizar em um artigo a defesa de uma política de social-desenvolvimentismo, a burguesia e o “mercado” (que também pode ser entendido como agências financeiras vinculadas ao imperialismo) reagiram.

Maílson da Nóbrega, ex-ministro do governo Sarney, lembrou que “Em 2002, Lula seguia fiel às ideias equivocadas do PT. Mas em junho daquele ano, ele deu sinais de que abandonaria essas ideias ao lançar a Carta ao Povo Brasileiro”. Já Ricardo Leite da Diagrama Investimentos afirmou que “Voltar para isso seria um desastre”, fazendo alusão para o período anterior a reforma trabalhista de Temer.

A reação às declarações petistas demonstram que a burguesia brasileira, e seu compromisso com os interesses imperialistas, não querem retroceder um milímetro nos objetivos que levaram à realização do golpe em 2016. A ampliação do trabalho precário, com a flexibilização desenfreada promovida pela nova lei da terceirização, o novo regime de trabalho e negociação sindical previsto na reforma trabalhista, os ataques aos sindicatos, e o desmonte da aposentadoria feito pela reforma da previdência, foram objetivos estratégicos do golpe, que tinha como alvo os direitos dos trabalhadores e dos setores mais oprimidos. Essas foram as diretrizes do governo de transição de Temer, e a base que levou Bolsonaro, junto a Paulo Guedes, a assumir a presidência nas eleições manipuladas de 2018.

“Com muitos direitos, você pode não ter emprego”, disse Bolsonaro em meio a polêmica. Jargão semelhante aos argumentos utilizados pelo reacionário jornal Estado de São Paulo, em editorial no domingo passado (09) para defender com unhas e dentes a superexploração e a precarização do trabalho. A burguesia, e os seus meios de comunicação fazem jus ao seu passado escravista e militar, e se algumas de suas frações estão hoje por uma suposta “terceira via”, não tem dúvidas quando se trata de defender a exploração e o sofrimento cotidiano dos milhões de trabalhadores no país. A burguesia e os patrões se apoiam na situação do desemprego, inflação e fome pra chantagear e obrigar os trabalhadores aceitarem os trabalhos intermitentes, uberizados etc.

Entretanto, a realidade é outra. Sem muitos direitos você não tem o principal deles, o próprio emprego. A reforma trabalhista e todos os ataques provenientes do golpe institucional só fez aumentar as demissões em massa, a rotatividade do trabalho e o número de desempregados no país.

Segundo levantamento realizado pela Austin Raiting, o Brasil ocupa a 4ª maior taxa de desemprego dos 44 países que já divulgaram os resultados do terceiro trimestre de 2021, e é o pior entre os membros do G20. Em comparação a 2017, ano que foi aprovada a reforma trabalhista, ao invés de diminuir o desemprego, os índices subiram de 12% para 13%, e hoje o Brasil possui mais 13,7 milhões de trabalhadores desempregados.

Após a grande repercussão e a crise instalada, Alckmin começou a atuar. E para isso, contou com a ajuda dos dirigentes do PSB e do Solidariedade, em particular da burocracia sindical e da sua figura mais simbólica, o golpista Paulinho da Força. O encontro com o líder da Força Sindical teve como objetivo colocar panos quentes e pressionar o recuo de Lula na polêmica. Alckmin demonstrou “preocupação” com as falas de Lula, e Paulinho respondeu sem pestanejar que as centrais não defendem a revogação da reforma...Revogar a reforma não nos agrada, achamos que não é necessário”, mostrando que a única preocupação é com o imposto sindical.

Paralelamente a isso, Mercadante preparou o terreno dizendo que Lula não defendia uma contra reforma, mas sim uma pós-reforma baseada na negociação entre trabalhadores e representantes patronais. O recuo foi consolidado, no dia seguinte onde Lula, após se reunir com representantes do PSOE da Espanha, manteve o apoio às medidas de Sánchez, mas disse que no Brasil não irá revogar a reforma trabalhista, veja aqui.

O recuo de Lula mostra que o caminho não é a reforma da Espanha. O caminho é a luta e a mobilização para revogar a reforma trabalhista e todos os ataques aos trabalhadores.

Ao que tudo indica, o previsto recuo de Lula em suas declarações iniciais é mais uma manobra petista para descomprimir as crises que o resultado da sua política de conciliação de classes gera em sua base e para acalmar a burguesia. Delimita-se aparentemente de Alckmin, ao mesmo tempo que segue defendendo a agenda burguesa de reformas neoliberais. Como o próprio Ricardo Leite, da Diagrama Investimentos preconiza a “aproximação de Lula com o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, antigo quadro do PSDB, é uma sinalização à direita", e “independentemente de gostar ou não de Lula, é inegável que ele sabe fazer política como poucos”. Segundo o representante da empresa de investimentos, até mesmo o artigo de Mantega “pode ter sido para avaliar a reação, para se negociar internamente uma política econômica mais conservadora, mais centrada”.

As frações burguesas entendem as manobras de Lula, e impõe as suas condições nesse processo de construção de sua candidatura. E o PT que nunca se colocou a tarefa de enfrentar a burguesia sequer quando essa construiu o golpe de 2016, opta conscientemente para uma estratégia de preservação e conciliação no regime degradado do golpe institucional. A degradação é tanta, que mesmo depois disso, ao contrário de tirar uma lição do que foi colocar o Temer de vice da Dilma, agora colocam Alckmin como opção. O que está colocado para Lula daqui até 2022 é mostrar para a Casa Branca e para os investidores internacionais, que ele é capaz de conduzir um pacto social e econômico que garanta estabilidade política para o lucro dos capitalistas.

Não há nada de novo nessa estratégia reformista. Trata-se da mais ultrapassada política de conciliação que levou ao fortalecimento dos setores da direita nos últimos anos, e no avanço contra os direitos econômicos e democráticos dos trabalhadores. O caminho, diferente do que Lula diz, não é o da reforma espanhola, baseado em renegociar com entidades patronais medidas que possam amenizar os efeitos devastadores das reformas neoliberais. O único caminho possível para derrotar e revogar a reforma trabalhista no Brasil e todas as reformas e ataques é através da mobilização e da luta dos trabalhadores.

Anular a reforma trabalhista e todas as reformas e ataques com a força da mobilização dos trabalhadores

Daqui até a formação das chapas muita coisa pode acontecer e enquanto isso os trabalhadores amargam a situação de desemprego, fome e no país explode os casos da Omicron, sem nenhum plano emergencial sanitário do governo Bolsonaro e dos governadores e prefeitos. Milhares de pessoas afetadas pelo descaso capitalista com as enchentes e deslizamentos. As Centrais sindicais seguem numa trégua sem organizar os trabalhadores nesse momento de crise sanitária, climática , econômica e social. Uma parcela da esquerda segue defendendo Lula, com Alckmin ou qualquer um que possa agradar o imperialismo e a burguesia, alimentando um sentido já amplo entre os trabalhadores, da lógica do mal menor.

No entanto, os trabalhadores não podem ser reféns dessa política de conciliação de classes, que abriu espaço para a direita e ao mesmo tempo permitiu passar ataques históricos à classe trabalhadora. O caminho é a luta e a mobilização para revogar a reforma trabalhista e todos os ataques aos trabalhadores, mas também para dar respostas agora para a situação das enchentes, a explosão de casos da COVID e a situação de miséria pela qual passam milhares de pessoas.

Para isso, é necessário uma esquerda que organize um polo baseado na luta de classes com independência de classes, uma alternativa que denuncie o papel de sustentação da burocracia sindical que deixaram passar esses ataques sem lutas e que estão dispostas a sustentar essa política de conciliação de classes de Lula e o PT. Exigindo que as principais centrais e os seus sindicatos organizem imediatamente um plano de luta, que lute por um plano emergencial para as enchentes e para a Omicron, criando condições para preparar uma nova batalha pelo Fora Bolsonaro e Mourão e assim permitir através da luta que os trabalhadores possam derrotar todos os ataques do último período.

 
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