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Jueves 22 de Agosto de 2019
23:14 hs.

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CARTAS CONTRA A MEDICINA DO CAPITAL
Medicina no capitalismo: refém de patentes, segredos comerciais e concorrência - Parte I
Gilson Dantas
Brasília

O escândalo da “pílula da USP contra o câncer” [fosfoetanolamina] transformou-se em debate nacional. A má vontade do governo com qualquer tratamento anti-câncer que não seja o oficial ficou patente. O que é que esse processo esconde? O que ele revela sobre a ciência médica oficial e sobre a política de Estado contra o câncer?

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No recente escândalo da fosfoetanolamina, o que se viu foi a reitoria da USP-Anvisa e oncologistas, em nome da ciência médica oficial, se lançarem de forma hostil contra o uso e a fabricação – pela universidade pública – daquela substância que a população vinha usando contra o câncer e com alguns relatos de cura. Nenhum projeto de emergência, para testar aquela substância promissora foi executado: em nome da ciência, simplesmente hostilizaram – com a vantagem de contarem com o aparato de Estado - uma substância fabricada por qualificado cientista da USP e que pessoas usavam na cura do seu câncer. Por fim e por pressão da opinião pública, o governo nomeou um grupo de pesquisa no qual aquele grupo da fosfoetanolamina da USP não tem papel decisivo; ou seja, não é para valer.

A primeira pergunta é óbvia: por que o paciente não pode ter o direito de escolher? Por que ele não pode ser informado sobre os limites do que vai usar [considerando, em todo caso, que aquela substância não é nenhum veneno], e, em seguida poder escolher livremente? Não é a vida dele que está em jogo? Essa é a primeira questão.

Mas temos ainda a questão seguinte, bem mais complexa, mas que não pode deixar de ser encarada: será a medicina oficial a encarnação da ciência em toda sua objetividade? E quando ela age como está agindo nesse caso e em tantos outros, que devemos pensar quanto à sua objetividade e preocupação com o bem comum, público? Quem não lembra do Vioxx, droga anti-inflamatória, que a ciência oficial testou e aprovou e, depois que ela matou sessenta mil pessoas, nos Estados Unidos, teve que ser tirada de circulação?[1] E a mamografia, testada, aprovada e massificada mas que agora está sob grande restrição em alguns países?[2]

Em recente declaração, o conhecido divulgador científico inglês Richard Dawkins[3], defensor incondicional da ciência como ela é, emitiu uma crítica aparentemente lógica e bem formulada contra as técnicas da chamada medicina alternativa. E presumivelmente contra coisas do tipo “a pílula da USP”. Sua declaração soava também como defesa absoluta da medicina oficial.

Em outras palavras ele dizia: só existe uma medicina. Se uma medicina ou uma técnica alternativa se submeter à verificação científica (experimentos tecnicamente conhecidos como duplo cego, devidamente controlados) e se se mostrar estatisticamente curativa, ela passa a ser medicina, simplesmente medicina, dispensando qualquer rótulo de alternativa.[4]

Nesta nota vamos examinar seu argumento.

À primeira vista o nosso grande polemista parece estar cheio de razão. E também à primeira vista ele parece ter resolvido a contradição generalizada que existe hoje entre os métodos chamados alternativos e os da medicina oficial e também os choques entre esses dois campos, ambos controlados, de toda forma, pelo comércio.

No entanto, atravessada a névoa da afirmação simples e ao mesmo tempo terminante de Dawkins, iremos verificar que ela está cheia de problemas e mais que isso, definitivamente, não coloca as coisas de forma correta e muito menos realista. Mesmo tendo parecido, à primeira vista, formalmente correta e inatacável.

E é assim porque ela esconde mais do que revela. Além de também imaginar a ciência dominante de forma mitológica, como se fosse uma vestal, um ente que paira acima dos conflitos e dos problemas sociais e que seria “neutra”, isenta de conflitos de interesse.

No entanto, no real, na sociedade realmente existente (o capitalismo) a realidade se choca com o asséptico postulado de Dawkins.

Ele deixa de perceber a pesquisa cientifica no capitalismo como uma esfera comprometida e francamente condicionada pelo sistema do lucro, dos donos do capital e do Estado. Presume a ciência como neutra e operando em função do bem comum (em semelhante linha de raciocínio o Estado certamente também está sendo imaginado assim: um ente preocupado com o bem comum).

No entanto, os grandes laboratórios e indústrias de equipamentos e insumos médico-hospitalares (de diagnóstico e tratamento) são controlados por oligopólios que visam lucro. Para eles o paciente – ou o chamado enfermo – é um cliente. É o “mercado”. O paciente não pode ser muito mais que um consumidor que deve pagar pela mercadoria produzida por aqueles empresários da doença (big pharma).

Antes de pensar em curar, seu objetivo é o lucro, não se pode fugir disso.

A maior parte da sua pesquisa está absolutamente dominada pela luta pela patente, pelo segredo comercial privado e conduzida pela brutal concorrência, para ver quem patenteia primeiro tal ou qual medicamento. Mas, atenção: não se trata do objetivo descompromissado e apaixonado de buscar exatamente o medicamento patenteado que de fato cure aquela doença. E sim, preferencialmente, o medicamento que o paciente tenha que usar a vida toda, e também tenha que pagar o mais caro possível por ele.

Já que se ocupou de pesquisar para criar o medicamento, deve ser fartamente remunerado por isso: o capitalista não pode pensar de outra forma. Aqui tiramos o primeiro véu: a última coisa que importa para ele é que você esteja doente ou que necessite do remédio; a única coisa que importa é que você possa pagar. Se não pode pagar, esqueça, você está fora da área de interesse do capitalista.

Ao mesmo tempo, está claro que se ele revelar a tecnologia usada ou o segredo de fabricação do medicamento, sem se apropriar dele antes, qualquer um poderá fabricá-lo, qualquer governo, qualquer empresa concorrente ou qualquer químico de quintal (se se tratar de uma substância simples ou que possa ser extraída da planta). Aqui arrancamos o segundo véu: a propriedade privada da marca, da patente. Protegida com força de policia.

Esse é o condicionante geral da indústria farmacêutica capitalista: eles se interessam preferencialmente por aquilo que possa ser patenteado por eles.

Eis o grande sujeito oculto em tudo isso: se não pode ser patenteado, não se torna alvo de investimentos de pesquisa séria. Logo você não vai achar na prateleira da farmácia e nem na receita do médico aquilo que você mais necessita ou o medicamento de mais qualidade e menos efeitos colaterais e sim aquele que convém ao fabricante, aquele que dê a taxa de lucro esperada. Por isso drogas como o omeprazol, o acetaminofeno ou as estatinas, pesadamente questionadas por vários cientistas sérios, por conta dos seus terríveis efeitos colaterais, ainda estão no mercado: elas dão muito lucro.

Neste ponto, os problemas se cruzam. Ao fabricarem apenas aquilo que dê lucros (e lucros altos) para eles, para o patronato da doença, o que temos diante de nós? Estamos claramente diante de uma indústria que destrói inovações, que não está interessada em qualquer pesquisa objetivamente promissora e nem na pesquisa que cure e sim naquela que os mantenha lucrando em altas taxas. Jamais vão querer matar a galinha dos ovos de ouro. Enquanto a droga der lucro fica no mercado, se não der muito lucro não entra no mercado.

Em outras palavras e ao contrário do que imagina Dawkins, eles não possuem interesse material algum em pesquisar técnicas alternativas promissoras se estas não lhes garantirem patente.

Apenas para efeito de exemplo: se o alho ou o ozone cura tal ou qual doença e, no entanto, não é patenteável, por que diabos eles irão gastar milhões em uma pesquisa para avaliar se o alho ou o ozone funcionam e se podem ser prescritos por médicos e qual a ciência que atesta a cura pelo alho ou ozone? E o perigo de o alho ou do ozone podem vir a afastar do mercado outros medicamentos de menor eficácia, mais efeitos colaterais porém mais altos lucros? O mesmo para o gel da babosa in natura, para o açafrão e assim por diante. Vão alegar mil coisas, por exemplo, que o alho não pode ser dosado, que só interessa extrair e purificar a substância farmacologicamente ativa, que isso e aquilo: qualquer pretexto vale para que ele permaneça no “folclore” ou às margens do estatuto médico oficial.

Portanto, Dawkins, intencionalmente ou não, fez uma afirmação que, no contexto capitalista, não passa de uma frase de efeito, bem funcional ao sistema, fundamentalmente ideológica: se tal ou qual técnica alternativa fosse boa já teria sido pesquisada e comercializada. É mais complicado. E de parte dele é pura frase de efeito.

[continua na Parte II]

Notas:
[1] Confira com o dr Mercola: http://espanol.mercola.com/boletin-de-salud/merck-y-sus-medicamentos-inseguros.aspx

[2] Leiam Mammography screening, de Gotzsche. Radclife, London.

[3] Autor do livro Deus, um delírio.

[4] Sua afirmação exata foi: “Se uma técnica de tratamento mostra que tem propriedades curativas em experimentos duplo-cego apropriadamente controlados, ela deixa de ser alternativa. Simplesmente torna-se ... medicina”. Sua afirmação foi citada por Mike Palecek, norte-americano, da Fightback CMI, Canadá, de 11/8/2009. Ver seu site HTTP://richarddawkins.net. Dawkins é o mesmo que tem levado adiante uma luta de certa visibilidade em defesa do ateísmo; com suas limitações e contradições, ele tem o mérito de ter feito muita gente questionar o misticismo.

 
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